A série brasileira Segunda Chamada voltou em 2021 com sua segunda temporada, mantendo a mesma densidade dramática da primeira, mas reduzindo o número de episódios de onze para seis. Com foco nos desafios enfrentados pela educação para os menos favorecidos, a produção aborda questões contemporâneas como a violência contra a mulher, um tema cada vez mais relevante. Adaptada da peça Conselho de Classe, de Jô Bilac, a série conta com um roteiro escrito por Carla Faour e Julia Spadaccini, com a colaboração de outros autores. A direção fica a cargo de Breno Moreira, João Gomez e Ricardo Spencer, sob a supervisão artística de Joana Jabace, evidenciando um trabalho coletivo que busca trazer à tona histórias impactantes e necessárias, em seus episódios em torno dos 45 minutos. No enredo da temporada anterior, Lúcia (Debora Bloch) retorna à Escola Estadual Carolina Maria de Jesus após um longo hiato, onde assume a turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Sua missão é desafiadora: ajudar alunos com passados complexos a completarem sua formação, contando com o apoio dos professores Jaci (Paulo Gorgulho), Marco (Silvio Guindane), Eliete (Thalita Carauta) e Sônia (Hermila Guedes). Com momentos emocionantes, a produção explora não apenas os obstáculos enfrentados pelos alunos em um ambiente escolar, mas também as histórias pessoais que cada um carrega, criando uma narrativa rica que reflete as dificuldades e esperanças da educação pública brasileira. Assim, em sua segunda jornada, a série se destacou como um importante espaço de reflexão sobre a realidade social e educacional do país, além de entretenimento.
Com o ambiente escolar como pano de fundo, Segunda Chamada busca apresentar uma crítica contundente à educação brasileira, abordando questões sociais urgentes como prostituição, imigração, machismo, transfobia, encarceramento, intolerância religiosa, violência contra a mulher, tráfico de drogas, aborto e a convivência com pessoas em situação de rua. Esses temas são explorados e, em alguns casos, até resolvidos dentro da dinâmica da escola, que se torna um microcosmo das problemáticas sociais do país. Na segunda temporada, novos personagens se juntam ao elenco, destacando-se o senhor Gilsinho (Moacyr Franco) e o enigmático Hélio (Ângelo Antônio). Os professores permanecem firmes na defesa da educação pública, enquanto convivem com os dilemas e os desafios pessoais dos alunos, criando um espaço de diálogo e reflexão.
Com a escola ameaçada de fechamento devido à falta de alunos, a série apresenta novos desafios que surgem com a inclusão de pessoas em situação de rua, acolhidas na tentativa de garantir o número mínimo necessário para o funcionamento da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A professora Lúcia é uma figura central que enxerga o potencial desses novos alunos, transformando a crise em uma oportunidade de aprendizado e crescimento, tanto para os estudantes quanto para a própria comunidade escolar. Essa iniciativa traz uma nova dinâmica à narrativa, com os novos alunos apresentando desafios únicos que alimentam o debate no ambiente acadêmico. Assim, a produção seriada não apenas preserva a abordagem realista da primeira, mas também intensifica as discussões sobre as variadas realidades sociais que permeiam a educação no Brasil. Com a mesma estética apurada de antes, Segunda Chamada é um entretenimento popular televisivo de primeira linha, visualmente impecável.
Para esta segunda jornada, a direção enfatiza uma abordagem realista, que reflete as dificuldades enfrentadas pela população no último ano, especialmente em relação à educação pública e noturna. A série aborda a escassez de recursos, a degradação das condições de vida das pessoas em situação de rua, algo que cresceu durante a pandemia de covid-19, e o aumento da violência contra as mulheres, temas que se entrelaçam e formam a base das tramas. As narrativas captam o cotidiano conflituoso dos estudantes, propondo não apenas discussões e aprendizado, mas também possíveis soluções para os desafios que enfrentam. A escola se apresenta como um espaço de transformação, onde é possível reelaborar a realidade e buscar mudanças significativas na vida dos alunos.
Nesse contexto, a educação é retratada como um meio vital para a conquista da dignidade e a reversão de condições adversas, sendo o caminho mais direto para a realização dos sonhos das classes populares. A série associa as experiências vividas na escola à estrutura social injusta que as condiciona, buscando criar um diálogo entre a realidade cotidiana e as barreiras sistêmicas que devem ser superadas. A narrativa, marcada por um forte apelo didático e engajamento, reforça a ideia de que a educação pode ser a chave para o enfrentamento das adversidades e para a construção de um futuro mais equitativo. Assim, Segunda Chamada se solidificou como um importante espaço de reflexão e ação, onde as complexidades da realidade social são abordadas com sensibilidade e compromisso, que merecia ter ganhando um terceiro ano.
Diante do exposto, essa segunda temporada se apresenta em um contexto social alarmante, com um feminicídio a cada seis horas e meia, mais de 200 mil pessoas vivendo nas ruas, 11 milhões de cidadãos analfabetos e em torno de 17 mil escolas públicas fechadas desde 2011. Esses dados preocupantes são o pano de fundo da narrativa, que se desenrola nas paredes desgastadas da escola, onde os personagens, com histórias bem construídas, convivem e compartilham suas experiências de vida. A iluminação de temas como maternidade, analfabetismo, violência sexual, racismo e trabalho infantil ocorre de forma orgânica, trazendo à tona as memórias dolorosas dos alunos a cada episódio. A série opta por explorar essas realidades sem recorrer a artifícios desnecessários, permitindo que as experiências dos personagens sejam envolventes. Apesar de algumas tramas paralelas que podem não ter sido tão envolventes quanto na temporada anterior, a produção se destaca ao ressaltar que a verdadeira protagonista é a escola. Este espaço se torna um microcosmo de interações e interconexões, onde vidas que, ao sair do portão escolar, nunca se cruzariam, se encontram. O trágico feminicídio da professora Sônia e as homenagens a ela geram uma forte carga emocional, reforçando a urgência do debate sobre a violência contra a mulher. Esse evento dramático serve como um poderoso catalisador para a reflexão e o engajamento dos personagens e dos espectadores, sublinhando a importância da educação como um meio de transformação social e pessoal. Assim, a série não apenas narra histórias individuais, mas também se torna um espaço de luta e resistência, onde a escola é vista como um potencial agente de mudança.
Segunda Chamada – 2ª Temporada (Brasil, 2021)
Criador: Carla Faour, Julia Spaldaccini
Direção: Joana Jabace
Roteiro: Giovana Moraes, Jô Abdu, Maíra Motta, Victor Atherino
Elenco: Deborah Bloch, Paulo Gorgulho, Sara Antunes, Rosalva Vanessa, Gabriel Diaz, Sara Antunes, Vinicius de Oliveira, José Trassi, Ingrid Gaigher, Georgette Fadel, Linn da Quebrada, Linn da Quebrada, Thalita Carauta, Teca Pereira, Mariana Nunes, Silvio Guindane, Carol Duarte, Artur Volpi, José Dumont, Leonardo Bittencourt, Hermila Guedes, Thalita Carauta
Duração: 06 episódios de 45 minutos
