Crítica | Sem Dor, Sem Ganho

estrelas 2Talvez por estar sob o efeito letal de suas últimas obras, Michael Bay tenha conseguido realizar algo minimamente interessante em Sem Dor, Sem Ganho (2013), um filme de história absurda e real sobre um grupo de fisiculturistas criminosos de trajetória curta, completamente bizarra e com um desfecho de vida absolutamente patético.

Provavelmente por ter os principais ingredientes da história pré-definidos, os roteiristas tenham conseguido criar uma realidade de duas facetas, algo que não deixa de ser interessante: de um lado, o absurdo modus operandi de um trio de idiotas musculosos metidos a gângsters de cinema; do outro, a similaridade de comportamento com muita gente por aí: a) o (ex-)criminoso arrependido que encontrou a luz de Jesus; b) o cara que se entope de esteroides e mesmo muito jovem tem que lidar com disfunção erétil; c) o estúpido que se acha muito inteligente mas que na verdade pensa com o bíceps.

Essa dualidade conseguiu dar ao filme a essência de seu humor, complementado por atuações surpreendentemente atrativas de Mark Wahlberg e Dwayne Johnson e ótima atuação de Tony Shalhoub. Daí ainda podemos tirar a caracterização dos cenários, a fotografia com toques de neon noventista, saturação de cor numa escala que se afasta do quente (o que é irônico, considerando o espaço geográfico do filme) e outras brincadeirinhas de empurrão narrativo como “Esta ainda é uma história real” ou “Estes são os efeitos da cocaína…”. Muito embora tais pontos ajudem a construir uma estrutura sutilmente positiva para a obra, eles não deixam de ter seus problemas e nem a obra é livre de tropeços, muito pelo contrário.

No âmbito do desenvolvimento do roteiro, a narração em off é um grande problema. Com ares de moderninho ousado, Bay acreditou que trazendo várias vozes em momentos distintos da história acrescentaria um forte dinamismo à trama e faria bem ao filme. Delírio bayniano. Os vários narradores, para começar, tornam o motivo da narração inútil, porque esta não se apega a nenhum personagem – o que, a rigor, não dá à história uma identidade particular – e corrompe essa opção de contar os eventos sob um dado ponto de vista. O diretor e os roteiristas ambicionam várias visões de um mesmo fato mas criam, na verdade, um pequeno caos de “quem fala o quê e por quê?”.

Essa estranheza narrativa é acompanhada, do meio do filme para frente, por muitos saltos entre os eventos, uma evidente falha da montagem que poderia tentar equilibrar melhor esses blocos de ação (cortando o supérfluo, cujo objetivo é fazer graça) ou espalhar melhor esses nichos de ocorrências diferentes. Não quero dizer com isso que há incoerência em relação ao tema central, mas as elipses que vemos na reta final mudam o ritmo do filme, e não de um modo positivo…

O sonho americano com o qual Michael Bay brinca é um subproduto do sonho ideológico estadunidense, o lado do sonho processado pelas massas alienadas, uma realidade que é interessante ver na tela, mesmo que trabalhada aos atropelos e sem críticas, só como exposição para entretenimento. E considerando unicamente por esse lado, chegamos à essência de Sem Dor, Sem Ganho, onde percebemos que, vencidos os muitos problemas técnicas da obra, temos um produto final de qualidade regular.

É evidente que esse “regular” ganha uma escala específica para cada espectador, mas não creio que alguém diria que se trata de um filme absolutamente péssimo. A sessão pode ser chateante pelos tropeços de concepção já citados – a não ser que o espectador tenha alta tolerância a esse tipo de coisa – mas ganha pontos pelo humor em boa parte das cenas e pelo bizarro quase inacreditável do roteiro. E mesmo que tudo isso ainda não traga um único sorriso ou um bom divertimento para quem viu o filme, pelo menos temos Gangsta’s Paradise, do Coolio, como música tema, algo que não dá para ficar indiferente, nem que seja por alguns minutos.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.