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Crítica | Short Trips – 6.X: Caído para Sempre

A tragédia de um ponto fixo no tempo.

por Luiz Santiago
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Nem sempre quando o Doutor oferece ao vilão uma chance de redenção a coisa termina em bons termos, e isso não necessariamente tem a ver com o vilão, especificamente, mas com o fato de que a sua miséria, a sua condição, o seu ponto de não retorno ou provação era, em qualquer realidade, um ponto fixo no tempo, com poucas variações possíveis a depender do que fosse mudado. Em suas centenas de anos de existência, o Senhor do Tempo aprendeu que a natureza humana tende a repetir padrões destrutivos, mesmo diante de oportunidades de mudança. Caído para Sempre, audiodrama vencedor do Paul Spragg Memorial Short Trip Opportunity de 2016, inverte essa lógica com uma premissa que, à primeira vista, parece ingênua: e se o antagonista aceitasse mudar? Isso faria alguma diferença para o mundo? Para ele? Joshua Wanisko, estreante na Big Finish Productions, constrói sua narrativa a partir desse ponto de vista, explorando as consequências de uma escolha que deveria, até por redenção do personagem, mudar tudo. Mas as coisas aqui parecem bem mais cheias de meios-tons do que imaginávamos.

A história acompanha Sean Calvin, cientista que desenvolveu um dispositivo capaz de remover o livre-arbítrio de toda uma população do planeta. Quando está para “apertar o botão“, aparece o 7º Doutor, que lhe oferece uma alternativa. Sean aceita. Durante 9 anos, o Doutor e Ace retornam anualmente para acompanhar a evolução de sua decisão. Nessa dinâmica de visitas anuais temos cenas maravilhosas, com diálogos bem polidos, e algumas oportunidades mal aproveitadas ou simplesmente… perdidas. A estrutura cronológica fragmentada funciona como instantâneos da vida de Sean e lembra bastante A Christmas Carol em sua progressão temporal, mas carece da densidade emocional que tornaria cada encontro verdadeiramente impactante. A manipulação característica dessa encarnação do Doutor e aquela qualidade sombria que o define nas melhores histórias da Big Finish aparecem de maneira leve aqui, nunca plenamente exploradas. O roteiro segue um tom mais depressivo do que o necessário (e olha que eu não sou do time “amo um final feliz“, mas tudo tem limites…), como se temesse celebrar demais a redenção de seu antagonista ou ao menos validar a porta de salvação que, à guisa de muita luta, o protagonista escolheu. Me deu a sensação de não termos a compensação necessária, já que este era o dilema central.

O desfecho traz Sean sendo julgado pelos crimes que planejou, mas nunca executou, levantando questões filosóficas sobre responsabilidade moral que mereciam maior desenvolvimento (e, de novo, diante de tudo o que foi apresentado e como foi construído, não acho que esse final compense o dilema). Ace questiona a utilidade de terem perdido tanto tempo naquela situação se nada verdadeiramente iria mudar, e o Doutor responde que a filha de Sean, Odessa, possui esperança de ser alguém verdadeiramente incrível nesta linha temporal, justamente pelo andamento das coisas como foram. É uma conclusão que funciona no nível conceitual, mas deixa o ouvinte com a sensação amarga. A narração de Nicholas Briggs é um pouco menos forte do que eu esperava, criando um distanciamento que me incomodou um pouco. Gosto muito das narrações de Briggs, mas aqui, faltou mais dinâmica. Caído para Sempre cumpre seu papel como tributo ao assistente de produção Paul Spragg e como experimento narrativo, mas por pouco não termina abaixo da linha das histórias “ok”. É potencial demais perdido. Infelizmente.

Short Trips: Caído para Sempre (Forever Fallen) — Reino Unido, 29 de dezembro de 2016
Direção: Neil Gardner
Roteiro: Joshua Wanisko
Elenco: Nicholas Briggs
38 minutos

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