Crítica | “Something to Remember” – Madonna

Madonna é uma artista que domina o âmbito prosaico e banal da cultura pop há mais de três décadas e comprovou que seu talento vai muito além das faixas sensuais e embates religiosos. Dona de um arcabouço gigantesco de personagens, estilos e temas, a artista é notória por conta da sua transformação constante e adequação aos processos mercadológicos, com posturas corajosas que outras artistas femininas jamais tentaram adotar em suas propostas musicais. Com o lançamento de Something To Remember, em 1995, Madonna trouxe ao agitado palco da cultura da mídia e da sociedade do espetáculo, um novo olhar sob a sua persona: uma mulher mais branda, suave, com novos tratamentos vocais e postura.

Na época, no encarte de seu álbum, a cantora afirmou que jamais se arrependerá dos trabalhos anteriores. As suas escolhas foram pontuais, necessárias para cada momento, mas na era prévia ao embarque do projeto Evita, o ideal era mudar um pouco os rumos. Há, também, por detrás das escolhas, estratégias publicitárias inteligentes, pois sabemos que o lançamento de Erotica trouxe problemas para a imagem pública de Madonna, afinal, os estadunidenses exportam constantemente a sua arte pop em escala global, mas isso não significa que haja postura liberal para se adequar aos temas extremos, abordagens sobre a sexualidade que a sociedade hipócrita não possui traquejo para discutir.

Em seus 71 minutos e 08 segundos (a edição padrão), o álbum produzido por Madonna, David Foster, Massive Attack e Richard Page refletiu as mudanças na carreira da cantora, proposta que saia da sexualidade expressiva e rebeldia para flertar com canções mais amenas. O amor e o melodrama musical ganharam espaço, o que culminou no enclausuramento do sexo por um tempo. Ciente do funcionamento dos mecanismos que engendram a cultura pop, Madonna preferiu adotar o posicionamento como uma forma de garantir que a sua imagem pública estivesse mais próxima do “clássico”, haja vista a empreitada na cinebiografia musical da grande dama argentina.

Mais madura e sofisticada, a artista entregou ao público um de seus melhores álbuns. As faixas acompanham as suas produções de 1984 a 1995. Take a Bow, Crazy for You, Live To Tell, Love Don’t Live Here Anymore, Forbidden Love, Rain e Oh Father foram inclusas, juntamente com as inéditas Something To Remember, título do álbum, I’ll Remember, One More Chance, You’ll See, This Used To Be My Playground e I Want You, sendo a última, regravação de Marvin Gaye.

I’ll Remember, composta pela artista em parceria com o produtor Patrick Leonard e Richard Page é uma faixa que reflete a fase Rain, no estilo e na temática. O seu videoclipe, inclusive, foi dirigido por Alek Keshishian, realizador do documentário Na Cama com Madonna. A faixa compôs a lista de músicas da trilha sonora do filme Com Mérito, drama com Joe Pesci, Brendan Fraser e Patrick Dempsey. One More Chance, composta em parceria com David Foster, traz o ritmo pop para as baladas românticas, numa canção que trata da recuperação após um amor perdido. Com suas 92 batidas por minuto, a faixa aposta na guitarra acústica e no violão cheio de acordes. É uma das músicas que representam a “hora da mudança” proposta pelo conjunto da obra.

This Used To Be My Playground, composta por Madonna, Shep Pettibone e Anthony Shimki flerta com a saudade e a nostalgia entre amigos queridos. É uma das canções mais belas do álbum e nos remete ao filme 00Uma Equipe Muito Especial, de Penny Marshall, produção que tinha no elenco Tom Hanks, Geena Davis e a própria Madonna, noutra tentativa de fazer carreira no cinema. You’ll See, produzida por David Foster, aborda uma mulher diante do empoderamento. Ela se torna dona de si, despedindo-se de um relacionamento frágil e nocivo. Em suas 120 batidas por minutos, a canção mescla piano, violão, cordas sintetizadas, violoncelo e bateria para elaboração da atmosfera melodramática que dialoga com o conteúdo geral do álbum.

You’ll See aponta como uma das principais canções inéditas do álbum, pois representa a imagem que Madonna desejava passar ao demonstrar as técnicas vocais trabalhadas para o musical de Alan Parker. Sua versão em espanhol, “Verás”, também trouxe os mesmos instrumentos percussivos para a composição do arranjo, sendo a mudança de língua a adaptação realizada que contrasta com a faixa em inglês. O desempenho em sua língua materna, obviamente, é bem melhor. Liricamente, a canção trata de uma mulher independente, afastada de uma relação que a fazia mal. Com videoclipe dirigido por Haussmann, a faixa é continuação de Take a Bow, com os mesmos personagens, agora, numa situação diferente, caminhando para as suas despedidas.

Ademais, Something To Remember representou um conjunto de baladas românticas que não estávamos acostumados no consumo do material musical de Madonna. A cantora sempre executou duas, três, em alguns casos, uma faixa romântica em suas produções anteriores. Desta vez, os ouvintes estiveram diante de 15 canções, algumas inéditas, outras já enaltecidas e queridas por seu público. Com encarte branco, dirigido artisticamente por Greg Ross, o álbum apresenta fotografias de Mario Testino e imagens internas, florais, de Dean Chamberlain, equipe responsável pela transposição do conteúdo auditivo para o campo visual, algo que teoricamente chamamos de tradução intersemiótica, salvas as suas devidas proporções, neste caso.

Na dedicatória aos fãs e colaboradores do projeto, Madonna deixa claro que na época de realização havia muita controvérsia em sua carreira. Polêmicas e situações típicas da sociedade do espetáculo tinham retirado a observação alheia musical de sua persona artística, algo que naquele momento, ganharia novos rumos. Faltou ela afirmar que as controvérsias, cabe deixar bem delineado, foram provocadas por ela mesma, sedenta por debates no bojo da cultura da mídia. Isso, no entanto, é um debate biográfico que não pode ser adequadamente discutido numa análise de cunho musical, tamanha a possibilidade de desvirtuar o nosso olhar para um álbum tão doce, singelo e aconchegante. É realmente “algo para recordar”.

Aumenta: Todas as faixas
Diminui: Não ouse diminuir nenhuma, certo?

Something to Remember
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Elenco: 07 de novembro de 1995.
Gravadora: Maverick/Warner Bros.
Estilo: Pop 

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.