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Crítica | Spartacus (1960): Versão Restaurada Sem Cortes

Uma produção hiperbólica que traduz o romance épico de Howard Fast para a linguagem do cinema na perspectiva criativa do mestre Kubrick.

por Leonardo Campos
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Da mesma maneira que outras versões especiais comentadas e restauradas analisadas por aqui, a edição em questão, do clássico Spartacus, de 1960, é um material valioso para aqueles que apreciam o cinema em duas vias, isto é, como entretenimento e fascínio reflexivo. A filmagem do épico pelo cauteloso Stanley Kubrick, projeto que ele assumiu a convite de Kirk Douglas, se consolidou como um dos épicos hollywoodianos mais importantes das décadas de sua época. A produção foi marcada por bastidores intensos, começando pela demissão do diretor original, Anthony Mann, após três semanas de filmagem, o que levou Douglas, cuja empresa, a Bryna Productions, produzia o ambicioso projeto, recrutar Kubrick, com quem já havia trabalhado no aclamado Glória Feita de Sangue, em 1957. Spartacus, por sinal, é uma obra que permanece como a única na carreira de Kubrick onde ele não deteve controle artístico completo, enfrentando o desafio de gerenciar um elenco verdadeiramente impressionante que incluía Laurence Olivier, Charles Laughton, Peter Ustinov, Tony Curtis, dentre outros. Apesar das pressões do estúdio e da magnitude da produção, que se tornou a maior bilheteria da história da Universal Studios até ser superada pelo “menor” Aeroporto, em 1970, o filme equilibra sua escala grandiosa com um desenvolvimento narrativo profundo e humano.

A trama, que narra a histórica revolta de escravos liderada pelo gladiador Spartacus (interpretado por Douglas), destaca-se por ser imponente sem jamais se render a um heroísmo exagerado, mantendo um toque de intimidade crucial na relação entre o protagonista e a escrava Varinia (Jean Simmons). Esse equilíbrio emocional culmina em um final memorável que evoca tanto tristeza quanto inspiração, ecoando através das décadas e encontrando o tom mais visceral na mais recente versão televisiva do mito, transformado em série. Embora suas mais de três horas de duração original representem um desafio para as audiências contemporâneas, nessa versão, a integridade da obra foi preservada graças ao meticuloso processo de restauração conduzido por Robert Harris em 1991, que recuperou cortes feitos em relançamentos anteriores. É longo, cansativo sim, mas um daqueles filmes obrigatórios para qualquer cinéfilo, mesmo que seja para assistir e dizer que não se envolveu. Ao longo de sua história, Spartacus teve o reconhecimento da crítica e das cerimônias de premiação, através de seis indicações ao Globo de Ouro, incluindo a única indicação da carreira de Woody Strode, bem como a conquista de quatro estatuetas do Oscar, especificamente nas categorias de fotografia, direção de arte, figurino e a atuação coadjuvante de Peter Ustinov, imortalizando o filme como um pilar do cinema épico.

Essa versão restaurada de Spartacus é considerada a forma “definitiva” de assistir ao épico no Blu-ray (e 4K UHD). Esta versão corrige erros de edições anteriores e restaura a integridade visual e sonora do filme. A restauração foi supervisionada com cuidado para preservar a obra original, muitas vezes referida como a versão “Uncut” (sem cortes) restaurada. No processo, temos a mudança na fonte da Imagem, pois foi feito um novo escaneamento em 6K dos elementos originais de película de 35 mm (Technirama) para criar um master 4K. A proporção de tela foi mantida na proporção original de 2.20:1, refletindo o formato grande da época, além da qualidade visual, haja vista a restauração ter eliminado a aplicação excessiva de redução de ruído digital (DNR) que arruinou lançamentos anteriores, resultando em uma imagem com grão orgânico, maior nitidez e realismo nas texturas realistas. Ademais, a paleta de cores Technicolor também foi restaurada, apresentando tons vibrantes e naturais, com a versão 4K a utilizar HDR10 e Dolby Vision para melhor profundidade de preto e brilho. Um dos pontos que podemos observar é a famosa cena da “piscina” (que aborda a bissexualidade do personagem de Laurence Olivier), censurada no lançamento original, foi reintegrada e restaurada digitalmente.

Sobre os importantes detalhes no design de som e demais elementos de áudio de Spartacus, essa nova versão traz uma nova mixagem DTS-X (e DTS-HD Master Audio 7.1 no Blu-ray) que dá nova vida à trilha sonora original de Alex North, sem perder a “essência” da composição. Há também uma notável limpeza, com diálogos mais nítidos e claros, num processo que elimina alguns chiados e problemas sonoros das versões de DVD, oferecendo uma espacialidade maior nas cenas de batalha. E, na zona do enriquecimento intelectual, temos a faixa de áudio com os comentários inestimáveis, gravados na restauração anterior (aprox. 1991) e mantidos por sua relevância histórica. Ouvimos Kirk Douglas trazer relatos pessoais sobre as dificuldades de produção e a polêmica contratação de Dalton Trumbo, postura corajosa que quebrava a “lista negra” de Hollywood, bem como a sua visão sobre o personagem que ele mesmo interpretou, baseado no romance homônimo de Howard Fast. Peter Ustinov, o intérprete de Batiatus, traz como contribuição um tom mais leve e reflexivo, compartilhando histórias sobre o elenco e a atmosfera no set. Robert A. Harris, na posição de restaurador, nos fornece detalhes técnicos sobre como o filme foi salvo da deterioração, tratando ainda do processo de montagem das cenas que tinham sido descartadas. Edward Lewis, produtor, versa sobre os bastidores da produção e a relação complexa entre Douglas e Kubrick, numa faixa riquíssima que ainda inclui Saul Bass e suas explicações sobre a gênese criativa dos storyboards e a concepção artística geral de Spartacus, um dos maiores filmes das carreiras de todos os envolvidos.

O clássico é um épico que permanece como um dos pilares mais significativos da história do cinema hollywoodiano, não apenas por sua grandiosidade técnica, mas pelo profundo impacto político e social que exerceu na indústria da época. Com a presença de Kirk Douglas não apenas como o “galã” protagonista, mas nos bastidores e seus mecanismos de engendramento da narrativa, o filme desafiou frontalmente o macarthismo ao contratar publicamente o já mencionado roteirista Dalton Trumbo, numa postura que buscou quebrar efetivamente o cerco da censura ideológica da época, tal como a bravura do rebelde escravo transformado em gladiador. Sob a direção meticulosa de Kubrick, um gênio na concepção de imagens, a volumosa narrativa de quase quatro horas de duração elevou o gênero “espada e sandália” a um novo patamar de sofisticação visual e narrativa, substituindo o melodrama religioso convencional por uma análise mais crua da interminável luta de classes que vai além da ficção, bem como refletiu sobre a dignidade humana e o custo da liberdade. A icônica cena “I am Spartacus” transcendeu as telas para se tornar um símbolo universal de solidariedade e resistência coletiva contra a opressão, influenciando décadas de cineastas, dentre eles, o admirador assumidamente declarado Ridley Scott e seu épico Gladiador, igualmente emocionante e artisticamente imponente. O legado e o impacto cultural de Spartacus é duplo: consolidou a imagem do herói rebelde que prefere a morte à servidão e serviu como o catalisador que restaurou a integridade.

Spartacus: Versão Restaurada Sem Cortes (Spartacus: Restored Uncut Edition with Audio Commentary by Kirk Douglas, Estados Unidos, 1960)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Dalton Trumbo
Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall, Charles McGraw, Joanna Barnes
Duração: 184 minutos

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