Bem-vindos de volta ao âmbito ardiloso, sensual, violento e sanguinário de Cápua. Esta sem dúvida deveria ser a chamada de Spartacus: House of Ashur, produção em 10 episódios empolgantes que utiliza o cenário da Roma Antiga para espelhar as complexidades das hierarquias de poder e a busca por validação em sociedades marcadas por abismos sociais. Ao colocar Ashur, mais uma vez interpretado por Nick E. Tarabay, um ex-escravo e eterno “estrangeiro”, como o proprietário de um ludus, a trama com diálogos pomposos sabiamente delineia com a dificuldade de ascensão em sistemas que, embora permitam o acúmulo de capital, continuam a negar respeito e pertencimento a quem vem de baixo. O protagonista, aqui, tratado com escárnio e ojeriza mesmo tendo a proteção de uma imponente figura política da região, vive em um estado de vigilância constante, onde o sucesso financeiro não apaga o estigma de sua origem nem a desconfiança das elites romanas, uma clara metáfora para as barreiras invisíveis que minorias e grupos marginalizados enfrentam ao tentar ocupar espaços de liderança no mundo corporativo e político atual. House of Ashur retorna, sem firulas e de maneira afiada, tudo o que o universo de Spartacus sempre nos presenteou: sangue, sexo, poder e personagens estrategistas, desta vez, com novidades: a introdução de uma campeã feminina na arena, bem como reinterpretações das dinâmicas de sobrevivência individualistas de muitos, escolhas narrativas que trazem debates contemporâneos e nos coloca diante do questionamento:
Mas, afinal, o universo ficcional de Spartacus, agora com Ashur numa versão “e se” da jornada, realmente importa?
Afirmo com toda certeza, caro leitor, que sim. Muitas vezes interpretamos a retomada de personagens e seus universos como conteúdos que tentam exaurir ao máximo o potencial de suas caminhadas no âmbito do entretenimento. House of Ashur traz muito do que já vimos anteriormente, mas revigora tudo isso para o mundo atual. O protagonista, diante de suas necessidades dramáticas, demonstra que a sua retomada faz sentido. Mesmo com o apoio de figuras poderosas como Crasso, ele permanece um pária em Cápua. Em sua perspectiva de entretenimento com doses generosas de reflexão, a produção nos mostra que o poder real não é apenas financeiro, mas social e simbólico, refletindo como o “preconceito de origem” ainda dita quem é realmente aceito em círculos de influência modernos. A presença de Achillia (Tenika Davis), uma gladiadora negra em posição de destaque, gerou intensos debates reais sobre diversidade e fidelidade histórica. A série usa essa figura para questionar quem tem permissão para ser um “herói” ou “campeão”, ecoando as lutas atuais por representatividade em espaços historicamente dominados por homens. No passado, tínhamos gladiadoras sim, não com a posição apresentada na série, mas existiam. Se elas eram mulheres negras, sinceramente, isso não interessa, pois esse é um debate estéril que não vai absolutamente para lugar intelectual algum, nesta produção que também reflete questões sobre ética e ambição no “capitalismo”.
Diferente da série exibida entre 2010 e 2013, Ashur e todos aqueles que gravitam com destaque ao seu redor são personagens movidos por sobrevivência e ganância individual, diferente da perspectiva coletiva do herói e seus rebeldes no ponto de partida anterior. Esse foco reflete o cinismo de uma era onde a ascensão pessoal muitas vezes exige a manutenção de sistemas opressores, forçando o espectador a questionar se o sucesso vale o sacrifício da própria integridade ou da liberdade alheia. Na produção, a resposta é um sonoro “NÃO”. Ninguém está interessado em integridade ou correlatos, pois a grande questão é a sobrevivência diante de ventos que sopram ganância, traição e jogos de poder. Nas temporadas “originais” de Spartacus, a eficiente atuação de Tarabay consolidou o seu personagem como o vilão mais detestável e fascinante da franquia, movido por um ressentimento profundo e uma inteligência predatória. Introduzido em Sangue e Areia como um ex-gladiador sírio aleijado por Crixus, ele foi forçado a trocar a arena pela manipulação nos bastidores do ludus de Batiatus. Sua trajetória foi marcada por uma sobrevivência amoral: ele traiu companheiros, manipulou seus mestres e, em Vingança, se tornou o braço direito do Pretor Glaber, sempre buscando ascensão social em um mundo que o desprezava. O “veneno” de Ashur residia em sua carência de pertencimento.
É interessante como o odiávamos nas temporadas iniciais e, agora, depois da mudança de posicionamento, nos tornamos apoiadores de sua causa. Como destacado pelo criador Steven S. DeKnight, Ashur era um homem que, ao ser negado pela “irmandade” dos gladiadores, decidiu que, “se não pudesse servir no céu, reinaria no inferno”. Assim, mesmo depois de morto nos episódios da parte anterior, ele agora retorna em um universo paralelo. Spartacus: House of Ashur subverte seu destino histórico ao explorar uma linha do tempo alternativa onde ele sobrevive ao Monte Vesúvio e mata o próprio Spartacus. Recompensado por Roma, o protagonista herda o antigo ludus de Batiatus, mas descobre que o poder e o ouro não compram o respeito da elite romana ou a lealdade de seus novos submetidos. Nesta nova imersão disponível no MGM+, o ator consegue lidar com a missão de elevar o personagem que vai de um antagonista secundário a um protagonista complexo, cuja vulnerabilidade emerge ao tentar se integrar a uma sociedade que ainda o vê como um escravo liberto. Entre intrigas políticas com figuras como Júlio César e a criação de uma campeã improvável em sua arena, a evolução de Ashur nesta sequência redefine o vilão como uma figura trágica e ambiciosa, provando que sua maior arma nunca foi a espada, mas sua implacável vontade de existir
Originalmente concebida pela Starz como uma série limitada, a produção de Spartacus: House of Ashur rapidamente transcendeu o status de minissérie devido a um desfecho de primeira temporada repleto de pontas soltas, ou seja, arcos narrativos indefinidos como esperávamos. Isso fica delineado desde o episódio 08. Nós nos perguntamos: “como conseguirão encerrar tantas histórias em apenas mais dois capítulos”? No meio de tanta suposição, o próprio Steven S. DeKnight justificou ao revelar que um arco de múltiplas temporadas já estava planejado desde o início. Embora Ashur tenha sido introduzido na série clássica de 2010 como um gladiador ferido e menos fisicamente imponente que seus pares, ele compensava essa “fraqueza” com uma mente afiada e uma falta de escrúpulos que o permitiam navegar pelas perigosas águas sociais do Império Romano. Agora, nesta nova fase, o personagem finalmente alcança o topo da hierarquia social, mas percebe que a vida no comando é significativamente mais árdua do que imaginava, especialmente após passar anos sendo humilhado e jogado de um lado para o outro pelos romanos enquanto buscava desesperadamente uma aceitação que nunca veio. A transição de Ashur para essa nova posição de poder marca o que DeKnight descreve como o personagem “fora da jaula”, pronto para explorar caminhos inéditos em um segundo ano que já está completamente escrito. Aqui, importante compreender que detalhes serão revelados.
Esteja atento se quiser continuar, combinado?
O ato simbólico de matar César funciona como o divisor de águas definitivo em sua trajetória: é a declaração de que ele não deseja mais ser aceito pelas regras romanas, mas sim submetê-las à sua própria vontade, forçando seus antigos mestres a se curvarem diante de sua ambição. A série, que reeditou a épica história do escravo rebelde para a estética da geração de 300, agora foca na evolução desse vilão complexo que, motivado por décadas de marginalização e um desejo ardente de ascensão, utiliza sua inteligência estratégica para não apenas se libertar, mas para dominar o estrato social daqueles que antes o viam apenas como uma ferramenta descartável. Assim, ao ter que enfrentar o desafio monumental de legitimar seu novo status como Dominus na mencionada linha do tempo alternativa, ele precisa navegar pela hostilidade da elite romana, que o despreza por sua origem humilde, bem como o histórico de traição, tudo isso, enquanto tenta revitalizar a escola de gladiadores com a introdução inédita de uma gladiadora feminina, Achillia, personagem de destaque que será radiografada mais adiante. Ademais, junto às pressões políticas e sociais, Ashur batalha para manter o controle sobre seus próprios subordinados e superar o estigma de ser um manipulador em um mundo de indivíduos com sede insaciável de poder, tendo de conviver cercado por inimigos.
Na seara daqueles que o tratam com desprezo e, consequentemente, se tornam perigosos para a sua existência, temos Cossutia (Claudia Black), uma romana astuta e implacável que o despreza e está determinada a manter o protagonista em seu devido lugar (abaixo da nobreza), constantemente a planejar sua derrocada. Proculus (Simon Arblaster), mestre de um ludus rival, vê a ascensão de Ashur como uma ameaça direta ao seu prestígio e sucesso no mundo dos gladiadores, por isso, também luta pela sua queda. Satyrus (Leigh Gill), um gladiador habilidoso e líder dos “Irmãos Ferox” no ludus rival de Proculus é aquele personagem que representa a oposição física e técnica direta nas arenas contra os lutadores de Ashur, também na posição de antagonismo, seguida de Gabinius (Andrew McFarlane), um senador influente e marido de Cossutia, figura ficcional profundamente envolvido nas maquinações políticas da República, representante do poder sistêmico romano que Ashur tenta, muitas vezes sem sucesso, manipular a seu favor. Jackson Gallagher, como Julio César, e sua esposa, Cornelia (Jaime Slater) surgem como uma dupla implacável que subjuga Ashur em sua própria casa. Cornelia, detentora de imensa riqueza e influência, manipula os jogos de poder enquanto César utiliza sua arrogância e força para degradar o antigo escravo publicamente. Como “parceiros no crime”, o casal exibe apetites sensuais e uma sede de domínio que os coloca em rota de colisão direta com as ambições do protagonista, com momentos de tensão que fazem a trama funcionar bem.
Se podemos dizer que Ashur possui aliados? Eis uma resposta complexa. O personagem, no entanto, conta com certa conexão com Achillia, em ótimo desempenho dramático de Davis, a primeira gladiadora central da franquia. Ela é a principal aliada de combate de Ashur, lutando sob seu comando para ajudá-lo a estabelecer a supremacia de seu ludus contra a elite romana. Korris, também ótimo na interpretação de Graham McTavish, atua como o Doctore (mestre de treinamento) do protagonista. Ele é um ex-gladiador responsável por treinar os novos lutadores da casa. Temos também Viridia (India Shaw-Smith), filha do senador Gabinius e Cossutia, jovem que desenvolve uma relação complexa e vulnerável com Ashur, chegando a afirmar que seu coração lhe pertence, apesar das tensões políticas. Ao leitor, não se preocupe: o “amor” surge nas dinâmicas da série, mas não atrapalha as artimanhas políticas. Messia (Ivana Baquero) e Hilara (Jamaica Vaughan), duas escravas que vivem na casa de Ashur, também podem ser consideradas “mais aliadas” ao personagem, pois estão envolvidas em dinâmicas internas de servidão e lealdade dentro da propriedade. Tarchon (Jordi Webber), um novo e habilidoso gladiador que se junta às fileiras de Ashur, reforçando o poder militar de sua escola, também pode ser pensado como alguém mais próximo que inimigo do protagonista.
Dito tudo isso, se torna válido refletir também sobre a pavimentação dos caminhos de Achillia em Spartacus: House of Ashur, arco dramático que nos apresenta a transformação de uma escrava Kushite traumatizada na primeira grande gladiatrix do universo da série. Inicialmente delineada como uma outsider movida por uma determinação feroz de fugir, ela carrega o peso de sentimentos de indignidade e traumas do passado, como a incapacidade de ter impedido o sequestro de uma jovem em sua aldeia. Sob a tutela de Ashur, com quem compartilha uma trajetória paralela de busca por poder em um mundo que os rejeita, Achillia evolui de uma lutadora dependente de ferocidade bruta para uma guerreira técnica e confiante, adotando um estilo não ortodoxo de espadas duplas. Seu desenvolvimento atinge o ápice no final da temporada, quando, após derrotar oponentes formidáveis na arena, ela deixa de lado a mentalidade de fuga para assumir sua autoridade e força, consolidando seu lugar de respeito e liberdade conquistada pelo próprio sangue. Inicialmente a nos deixar em dúvida, a trajetória de Achillia é marcada por um dos desenvolvimentos mais brutais e resilientes da franquia, destacando-se tanto por sua técnica de combate quanto por suas relações complexas no ludus. Ela utiliza um estilo não ortodoxo de espadas duplas, focando em agilidade e precisão para compensar a diferença de força física contra oponentes masculinos.
Ainda na seara do feminino em Spartacus: House of Ashur, destaco por aqui o arco dramático de Viridia e Cornelia, figuras ficcionais que estabelecem um contraste fascinante entre facetas opostas do poder feminino na Antiguidade. Enquanto Viridia é moldada como o pilar da virtude romana, personificando uma ética inabalável, educação refinada e um senso de justiça que busca manter a integridade dentro de um ambiente brutal, Cornelia surge como seu contraponto sombrio e maquiavélico, nalgumas vezes, novelesca demais, a única fragilidade no desenvolvimento da produção. Na pele da esposa de César, essa antagonista utiliza sua posição para tecer uma rede de influência marcada pela falsidade e por uma natureza serpentina, agindo de forma sorrateira para consolidar planos corruptos. Essa dinâmica não apenas impulsiona o conflito político da trama, mas também explora a dualidade entre a retidão moral e a sobrevivência implacável, onde a luz da conduta de Viridia colide constantemente com as sombras das ambições predatórias de Cornelia. O problema é que o texto dramático não permite o mínimo de oxigenação e, assim, a personagem não apresenta nada além de sua personalidade apodrecida, com necessidades dramáticas descuidadas. Não é algo que compromete o programa, mas que desloca a nossa atenção e nos faz apenas torcer por seu fim desastroso para compensar o ódio que nos transmite em cada aparição. Talvez seja o tempero da dramaturgia que é popular, mas eu não gosto.
Por fim, mas não menos importante em hipótese alguma, a estética visual de Spartacus: House of Ashur é um triunfo de coordenação técnica, onde a direção de fotografia de Andrew McGeorge, David Garbett e Andrew Stroud estabelece uma composição de quadros e movimentos de câmera meticulosamente planejados para a integração fluida dos efeitos visuais da equipe de Kahurangi Hingston-Mill. Esse rigor técnico é amplificado pelo design de produção de Iain Aitken, que concebe cenários de uma opulência brutal, servindo de palco para as composições empolgantes de Joseph LoDuca, cujas textura percussiva eleva a tensão épica de cada confronto. A imersão nesse mundo romano é aprofundada pelos figurinos assertivos de Barbara Darragh e pela maquiagem visceral de Dan Perry, que utiliza a pele dos gladiadores como um mapa de cicatrizes e violência. O design de som, sob a supervisão de Gareth Van Niekerk, atua em simbiose com esses elementos táteis, afinal, cada golpe e jorro de sangue ressoa com uma fidelidade inquietante, transformando o horror das arenas em uma experiência sensorial completa que transcende o mero impacto visual e atordoa os ouvidos com o realismo do combate. Essa sinergia entre fotografia, design de produção e efeitos visuais cria um ambiente imersivo, também intensificado pelos figurinos de Barbara Darragh, profissional que contribui para o estabelecimento de uma mixagem entre a autenticidade do período e sua liberdade criatividade, enquanto a maquiagem de Dan Perry aprofunda a narrativa visual, transformando cada cicatriz e ferimento em um testemunho da dureza da vida de gladiador.
No geral, um programa que entrega entretenimento e reflexão na medida certa. Preferível que fosse uma minissérie com mais episódios, mas desfecho e dignidade para seus personagens, mas vamos, no entanto, aguardar o que está programado para a elasticidade dramática de sua possível continuação. Você, leitor, o que acha?
Spartacus: House of Ashur (Estados Unidos – 2026)
Criação: Steven S. DeKnight
Direção: Rick Jacobson, Michael Hurst, Maja Vrvilo, Mark Beesley, Robyn Grace, Debs Paterson, Julian Holmes
Roteiro: Henry G.M. Jones, Eliana Pipes, Diya Mishra, Adam T. Bradley, Aaron Helbing
Elenco: Nick Tarabay, Graham McTavish, Tenika Davis, Claudia Black, Ivana Baquero, Jordi Webber, Jamaica Vaughan, India Shaw-Smith, Dan Hamill, Jackson Gallagher, Dan Hamill
Duração: 58 min (cada um dos 10 episódios)
