- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e, aqui, de todo nosso material sobre Star Trek.
O novo episódio de Star Trek: Academia da Frota Estelar é, até aqui, o mais abertamente interessado em dialogar com o núcleo filosófico clássico da franquia, ainda que o faça dentro da moldura juvenil que a série vem assumindo sem pudor. Ao centrar a narrativa em Jay-Den Kraag e na possibilidade do extermínio Klingon, o capítulo abandona temporariamente a leveza dos trotes e rivalidades escolares para encarar um tema mais denso sobre o que resta de uma cultura quando ela é empurrada à extinção, e quem decide como ela deve sobreviver.
A revelação de que a família de Jay-Den pode ter morrido em um acidente a caminho de um campo de refugiados funciona menos como reviravolta dramática e mais como catalisador da trama. Jay-Den sempre foi apresentado como uma figura deslocada: um klingon que rejeita a violência, que deseja ser médico, que parece existir em atrito permanente com os códigos de honra de seu povo. Aqui, a série busca dar peso histórico a esse conflito ao contextualizar a destruição do Império Klingon durante The Burn e o consequente colapso de uma civilização inteira. Não se trata apenas de uma tragédia pessoal, mas de um trauma coletivo que transforma a escolha individual de Jay-Den em algo politicamente carregado. Não gosto da montagem ou das construções das cenas dos flashbacks, com tudo sendo meio artificial e desajeitado, sem falar do tom caricato com a família do personagem, mas o texto é funcional ao usar esses momentos de base para a solução do episódio.
O capítulo acerta ao estruturar boa parte da trama em debates, resgatando uma ferramenta narrativa que sempre foi cara a Star Trek. As discussões entre os cadetes sobre as possibilidades de sobrevivência klingon, como assimilação, refúgio e reconstrução cultural, são simples, por vezes até esquemáticas, mas cumprem uma função essencial: mostrar que o problema não é logístico, e sim simbólico. Oferecer um planeta “perfeito” como caridade é, para os klingons, uma forma de aniquilação cultural tão grave quanto a derrota militar. A série entende isso e, ao fazê-lo, tenta desajeitadamente ensaiar temas como colonialismo, deslocamento forçado e identidade pós-catástrofe.
A dinâmica entre Nahla Ake e o General Obel Wochak reforça esse embate em escala política. A relação passada entre os dois poderia facilmente cair em melodrama, mas o episódio é relativamente contido nesse aspecto (até humorístico). O foco não está no romance antigo, mas na fricção entre duas visões de mundo irreconciliáveis da lógica federativa da cooperação versus a lógica klingon da conquista como fundamento existencial. O impasse dos klingons só aceitarem Faan Alpha por meio de combate é, em essência, uma armadilha ética clássica de Star Trek: até que ponto respeitar uma cultura significa encenar seus rituais, mesmo quando eles entram em conflito com valores próprios?
A solução encontrada com a batalha simulada, cuidadosamente coreografada para permitir que os klingons “conquistem” o planeta, é elegante e, ao mesmo tempo, profundamente Star Trek, por mais que também parece boba ou óbvia. Não se trata de enganar os klingons, mas de traduzir valores. A Federação não abandona seus princípios, mas os adapta para permitir que o outro preserve os seus. É diplomacia como performance simbólica, algo que a franquia sempre fez bem quando está inspirada. Aqui, funciona justamente porque reconhece que a dignidade de um povo não pode ser negociada em termos puramente racionais.
O arco emocional de Jay-Den encontra seu fechamento nesse contexto maior. A conversa com Cadet Master Thok é bacana, não por ter grandes revelações, mas pela mudança de perspectiva. A revelação de que sua família sobreviveu ao acidente poderia soar excessivamente conveniente, e de fato há um certo conforto narrativo aí. Ainda assim, o impacto da notícia é menos sobre alívio e mais sobre reafirmação temática de que mesmo diante da quase extinção, há continuidade. Sobrevivência não como retorno ao passado, mas como reinvenção.
Outro limite incômodo no episódio está na simplificação de algumas tensões políticas mais amplas. A extinção klingon e a negociação com a Federação mereceriam, talvez, um espaço maior para ambiguidade e consequências futuras. Ainda assim, dentro do formato e do público-alvo da série, o capítulo vende bem a proposta. No fim, este episódio continua demonstrando com clareza aquilo que Star Trek: Academia da Frota Estelar pode ser quando acerta o foco: um laboratório moral, onde dilemas civilizacionais são testados em escala humana; mesmo em suas limitações narrativas e dramáticas.
Star Trek: Academia da Frota Estelar (Star Trek: Starfleet Academy) – 1X04: Vox in Excelso | EUA, 29 de janeiro de 2026
Desenvolvimento: Gaia Violo, Noga Landau, Alex Kurtzman (baseado em personagens criados por Gene Roddenberry)
Direção: Doug Aarniokoski
Roteiro: Gaia Violo, Eric Anthony Glover
Elenco: Holly Hunter, Sandro Rosta, Karim Diané, Kerrice Brooks, George Hawkins, Bella Shepard, Zoë Steiner, Robert Picardo, Tig Notaro, Oded Fehr
Duração: 58 min.
