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Crítica | Star Trek: Discovery – 1X05: Choose Your Pain

por Guilherme Coral
99 views (a partir de agosto de 2020)

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Por mais que saibamos que Star Trek: Discovery não se passa tanto tempo antes da série original, temos a impressão de que estamos diante de algo bem distante das aventuras iniciais de James T. Kirk como capitão da Enterprise. Dessa forma, não temos como segurar a surpresa e, claro, aquele sorriso, quando notáveis referências às origens de Jornada nas Estrelas aparecem nessa nova série. Em Choose Your Pain tais referências apareceram tanto no caráter de easter-egg quanto como parte direta da trama, com Harry Mudd dando as caras mais uma vez nesse universo, dessa vez interpretado por Rainn Wilson.

A trama nos situa, provavelmente, algumas semanas após os eventos de The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s CryA U.S.S. Discovery já realizou alguns pulos utilizando a tecnologia de esporos, inserindo-se diretamente no conflito entre a Federação e os klingons. Na suspeita de que a raça inimiga já tenha percebido as capacidades da nave, a almirante Cornwell ordena que Lorca e sua tripulação permaneçam fora da guerra, até que o mesmo sistema possa ser replicado em outras espaçonaves. Tais suspeitas são logo confirmadas quando o capitão é sequestrado pelos inimigos, cabendo, portanto, à Discovery, sob comando do primeiro-oficial Saru, resgatar Lorca, tudo enquanto Burnham questiona a utilização do tardigrado, alegando que, a cada pulo, a criatura é enfraquecida.

Embora tenhamos presenciado a nítida elipse entre Choose Your Pain e o capítulo anterior, Discovery mantém sua estrutura não-procedural, fazendo desse a continuação direta dos eventos acompanhados na semana anterior. Com isso, a ressalva de Michael sobre a forma como essa tecnologia é operada é mais do que justificada, possibilitando que a trama, de imediato, seja desenvolvida organicamente. É interessante observar como esse temor da protagonista abre espaço para que a relação entre ela e Saru seja aprofundada, com o temor do primeiro-oficial reaparecendo constantemente, a cada discussão com Burnham.

Esse ponto ainda aprofunda a disparidade entre os oficiais de comando e os de ciência, aspecto que dialoga com o próprio cenário que acompanhamos durante a série, ao passo que a ética é praticamente abandonada nesses tempos de guerra – por mais que Saru tenha demonstrado sua preocupação com a criatura ao longo do capítulo, justificando a notável menção ao capitão Christopher Pike. Dessa maneira, o roteiro de Kemp Powers assume uma postura anti-belicista, ao gerar o desconforto por relacionar o sofrimento do tardigrado com o conflito em questão, deixando bem claro os sacrifícios da guerra e o quanto ela nos distancia de nossa humanidade (por mais que o conflito esteja em nossa natureza). Não podemos, pois, deixar de ansiar pelos tempos de paz, que conhecemos na série original.

Tal percepção é ampliada pelas torturas na nave-prisão klingon. O cruel tratamento dos inimigos com seus prisioneiros de guerra, que garante o título do episódio, faz mais pelo retrato dessa raça como a grande vilã da temporada do que os eternos e arrastados diálogos no idioma alienígena, que, aqui, são substituídos (enfim) por curtas conversas em inglês, com direito a uma referência visual direta a Laranja Mecânica. É importante notarmos, também, como conhecemos mais sobre Lorca e, apesar de sua postura mais agressiva quando se trata da guerra, passamos a percebê-lo como alguém pronto para fazer o que for necessário pela sua tripulação, mesmo que isso signifique matá-los a fim de evitar que sejam humilhados e torturados.

A presença de Harry Mudd, como outro dos prisioneiros, claro, funciona como um belo fan service, mas sua inclusão no capítulo não soa artificial e mais do que explica sua postura em relação à Federação na série original. Além disso, ele mostra que nem todos são tão abertos em relação a essa facção, inserindo, mesmo que brevemente, tons de espionagem na série, o que nos deixa com aquela pulga atrás da orelha quando se trata de Tyler, o soldado resgatado na prisão, especialmente considerando que ele ficara sete meses preso e mantivera relações com a capitã, que, notavelmente, permanece viva, “apenas” ferida no rosto. Aliás, a fuga dos dois poderia ter sido melhor executada, com direito a ferimentos que só causam dor quando conveniente, ponto que não estraga o capítulo, claro, mas incomoda.

Apesar desse deslize, Discovery nos entrega mais um ótimo capítulo, que evidencia os pontos fortes da série, enquanto nos livra dos intermináveis diálogos em klingon. Com a ética mais uma vez sendo colocada em xeque, finalizamos, ao que tudo indica, um pequeno arco, que girou em torno do tardigrado. Resta saber quais serão as consequências da libertação dessa criatura para Saru e os outros tripulantes envolvidos, já que Lorca pode não ficar de acordo com essa decisão.

Star Trek: Discovery – 1X05: Choose Your Pain — EUA, 15 de outubro de 2017
Showrunner:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: Lee Rose
Roteiro: Kemp Powers
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Wilson Cruz, Rainn Wilson
Duração: 48 min.

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6 comentários

Mahatma José Lins Duarte 21 de outubro de 2017 - 17:34

Atento novamente para o fato de que alienígenas falando inglês soa como algo totalmente inverossímil em um contexto de história de ficção científica. Um dos grandes trunfos de toda a saga de Jornada nas Estrelas é justamente a atenção dada à esse elemento de construção de universo ficcional. Afinal de contas, se os elfos e os orcs de Tolkien podem falar idiomas diferentes na tradição da alta fantasia, porque a ficção científica continua presa ao clichê do alienígena que fala inglês culto e casto com fluência? Jornada nas Estrelas está de parabéns nesse aspecto!

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Nilton 17 de outubro de 2017 - 22:29

Gostei do doutor e o cientista, tá rolando algo ….. Gostei

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Marcelo 17 de outubro de 2017 - 20:40

Gosto muito de Rainn Wilson, mas sua auto apresentação ao Lorca foi de uma canastrice que beirou o ridículo.

A série em si está muito boa, inovando a trama como nenhuma outra série Trekker.

Mas não engulo essa horrível alteração nos Klingons e acho muito forçada essa condenação da Burnham. A capitã Georgou tinha uma alta chance de morrer, assim como o almirante dela e já tinha perdoado a amotinação de sua imediata. Aliás, não ter atirado primeiro, seguindo a recomendação de Burnham foi o que condenou mais de seis mil tripulantes. E a coitada que pagou o pato… Saru é um personagem de hipocrisia sem igual ao não tê-la defendido.

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Luiz Santiago 17 de outubro de 2017 - 15:51

Quantos likes essa princesa da foto de destaque merece?

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matheus 17 de outubro de 2017 - 18:54

Kkk.
Ganhou meu dislike.

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Dan 17 de outubro de 2017 - 14:12

Tenho gostado muito dessa série e este foi meu episódio favorito até aqui.

Entendo os trekkers que não gostam dela, afinal nunca antes ST tinha sido tão pessimista e violenta. Até a palavra fuck entrou em uso na Starfeet! Mas eu entendo Discovery como algo novo. Acredito que um dos motivos do fracasso da série Enterprise foi tentar replicar algo que já havíamos visto e revisto nas séries anteriores.

Gosto da coragem e pegada diferente de STD. Claro, não é, e dificilmente vai ser a melhor série do universo do Roddenberry, mas enquanto trazer ótimos episódios como este Choose your pain, vai ser bem vinda.

Abs

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