Crítica | Sun Dogs (2017)

Jennifer Morrison 2017 luiz santiago plano critico sun dogs netflix

Marcando a estreia de Jennifer Morrison na direção de longas-metragens, Sun Dogs (2017) é uma história de persistência, reconhecimento de dificuldades pessoais e alheias, enfrentamento de dificuldades de relacionamento e compreensão do mundo à nossa volta, em uma trama sobre conviver e ser feliz. Escrito por Raoul McFarland e Anthony Tambakis, o roteiro conta a história de Ned Chipley, um jovem adulto que tem um sonho: entrar para o Exército americano. Ele quer salvar vidas. Este é o seu seu almejado propósito. Mas as coisas não são tão simples para ele.

Sun Dogs nos apresenta Ned (muitíssimo bem interpretado por Michael Angarano), a quem observamos fazer exercícios físicos, se engajar em tarefas de cunho militar, empenhar-se para ganhar massa muscular, ler os relatórios dos ataques de 11 de setembro ao WTC… mas não entendemos muito bem qual é o propósito dessa amostra de cotidiano ou o que está acontecendo. Só depois perceberemos que existem duas formas de olhar essa questão, duas formas que na verdade funcionam em conjunto, e não por exclusão. A primeira, é que faz bem não sabermos o que está acontecendo de imediato. Isso cria uma curiosidade constante em relação a Ned, que diante da interpretação adorável de Angarano, nos faz imaginar uma série de coisas a respeito do que o impede de entrar para o Exército. Claro que é possível suspeitar de algum notável problema cognitivo, mas não temos certeza, então, aguardamos com curiosidade pelo desenvolvimento da trama. Mas aí entra a segunda forma de olhar a coisa. E ela é um empecilho para a história: a revelação dura o filme inteiro para acontecer.

Ao chegar no momento final, quando a personagem insossa de Melissa Benoist descobre a verdade sobre Ned, o público está muito mais interessado no drama pessoal, na ligação de Ned com a família e com a própria Tally do que mergulhar na condição de desenvolvimento mental do personagem, que é interessante e, devido a alguns bons diálogos no terceiro ato, acaba sendo consideravelmente bem exposto, mas não sem antes passar pelo estabelecimento de quase uma nova linha narrativa na metade final, o que não é algo bom para o roteiro. Como disse antes, são partes de uma mesma moeda, então impressionam pela surpresa e decepcionam pela demora em abordar o caso, fazendo-o em um momento em que a história não comportava uma nova entrada dramática.

A compensação, porém, valida esse impasse do roteiro. Ned é um personagem por quem nos apaixonamos e um apaixonado pela vida. O caráter humanista do enredo, pontuado por uma dificuldade do próprio protagonista diante das coisas é o que traz a reflexão para o que as pessoas são ou não capazes de fazer. O texto vai nos levando e nos acostumando com algumas dessas situações através de uma trilha parcialmente romanceada, mas efetiva na criação da atmosfera de empatia. Não se trata, porém, de um filme onde a condição de um indivíduo, por mais obstáculos que tenha à sua frente, é utilizada como uma “jornada de duras penas”. Não. A vida de Ned é tão dura, guardadas as devidas proporções, como qualquer outra vida. E é este tratamento que se delineia ao longo da obra.

Há uma beleza de olhar impossível na película, seja pelo contraste com a guerra, pela fotografia harmoniosa, cheia de convidativos marrons e cores quentes — exceto quando o mundo de Tally é evidenciado –, seja pela persistência do protagonista em arranjar ou readequar o propósito de sua vida; isso, de maneira tão elegante, que o espectador consegue passar pelos diálogos fracos, pelas conveniências e pelo arco da “mãe independente” que atrapalha bastante a reta final do filme. Sun Dogs (2017) é um convite ao entendimento do que cada um é capaz e à tomada de uma ação. Com os pés no chão e criatividade, é possível encontrar-se e agir no mundo, fazendo a si mesmo e aos outros felizes.

Sun Dogs (EUA, 2017)
Direção: Jennifer Morrison
Roteiro: Raoul McFarland, Anthony Tambakis
Elenco: Allison Janney, Melissa Benoist, Jennifer Morrison, J.R. Ramirez, Eric Christian Olsen, Michael Angarano, Ed O’Neill, Xzibit, Niko Nicotera, Alexander Wraith, Fernando Chien, Chuck Saale, Nicholas Massouh, Soledad St. Hilaire, Al Burke
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.