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Crítica | Superman contra o Incrível Homem-Aranha: A Batalha do Século (1976)

O primeiro crossover Marvel e DC.

por Ritter Fan
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Quando eu era ainda muito pequeno, minha camiseta favorita tinha o Superman e o Homem-Aranha com os corpos levemente de lado, quase encostando os ombros e os rostos para frente. Adorava tanto esse presente que eu o usava basicamente todos os dias e ficava bravo quando ela estava lavando. Para meu desespero, porém, não demorei a crescer e a camisa tornar-se pequena demais, mas minha avó materna, sempre atenta, surpreendeu-me ao me presentear com a arte da camiseta cortada e emoldurada, de forma que eu a pudesse manter em meu quarto para sempre. Nunca me esqueci dela, mas foi somente muitos anos depois, provavelmente lá pelo começo de 1986, quando eu já era ávido leitor de quadrinhos, que a Editora Abril publicou Super-Homem contra Homem-Aranha em seu clássico formatinho e que eu descobri que aquela arte era a quarta capa da revista com lápis de Ross Andru, arte-final de Dick Giordano e cores de Jerry Serpe. Foi uma revelação e uma alegria renovada, um verdadeiro momento nostálgico, já que, quando a Ebal publicou essa HQ pela primeira vez no Brasil em 1977 – e a única vez no formatão original – eu havia deixado passar em branco.

Em 2025, quando, depois de décadas, a Marvel Comics e a DC Comics retornaram finalmente com seus crossovers, começando com Batman/Deadpool, fiquei na expectativa de que haveria republicações dos antigos encontros, começando justamente por esse que é objeto da presente crítica. Dito e feito, exatamente em janeiro de 2026, mês em que Superman contra o Incrível Homem-Aranha: A Batalha do Século (escolhi manter o título originalmente usado pela Ebal, que é a tradução literal do original, só mudando Super-Homem para Superman) fez 50 anos, as duas maiores editoras mainstream dos EUA se cotizaram e publicaram uma edição “fac-símile” da original, ou seja, exatamente como a de 1976, no formato que hoje é conhecido como Treasury Edition, de 27 x 36 cm, que é basicamente como o formato IMAX para os quadrinhos, edição essa que ainda não foi republicada no Brasil – e espero que seja -, mas que fiz questão de adquirir um exemplar físico para minha coleção por seu valor nostálgico para mim e minha boa e velha camiseta que, infelizmente, não tenho mais.

Claro que tive receio em reler, pois tinha certeza de que seria uma decepção. No entanto, talvez pelo formatão que salta aos olhos ou pelo peso da nostalgia, minha experiência na releitura agora, tanto tempo depois, foi absolutamente deliciosa. Sim, é uma linha narrativa básica que coloca Lex Luthor e o Doutor Octopus trabalhando juntos, o que leva o Superman e o Homem-Aranha a também se juntarem, ainda que não antes saírem nos tapa por meio do bom e velho desentendimento inicial e sim, os dois medalhões de suas respectivas editoram só realmente dividem as páginas a partir da metade da edição de 100 páginas, mas nada disso importa diante da arte que considero como uma das melhores para os dois personagens, talvez até a definitiva naquilo que me diz respeito, mesmo considerando os vários gênios criativos que antecederam e sucederam essa publicação. Tenho plena consciência de que Ross Andru, no lápis, teve sua arte profundamente modificada por Neal Adams (que refez todas as aparições do Superman) e John Romita (que refez muitos dos rostos dos personagens da Marvel, além de mexer bastante no Homem-Aranha e que a arte-final de Dick Giordano recebeu apoio do trabalho de Terry Austin e de Bob Wiacek, com nenhum dos  quatro recebendo créditos na época ou mesmo hoje em dia, pelo que, quando falo arte ou quando menciono Andru e Giordano, estou falando em todos aqueles que contribuíram artisticamente para esse crossover, incluindo aí as incríveis cores de Jerry Serpe (reparem como ele conseguiu manter os azuis e vermelhos dos dois heróis perfeitamente identificáveis e separados) e a icônica capa (essa aí da imagem principal com o Azulão e o Aranha prestes a se engalfinharem com uma torre ao fundo) concebida e rascunhada por Carmine Infantino, então editor-chefe da DC e a quem, juntamente a Stan Lee, devemos agradecer pelo evento.

Diferente de outros crossovers, esse primeiro não se importou nem um pouco com a justificativa para os dois heróis e demais personagens compartilharem o mesmo universo, uma decisão muito acertada que parte da premissa que tudo é um universo só e pronto. Além disso, como que fazendo um “esquenta” para o grande encontro, a HQ contém três prólogos, o primeiro deles em Metrópolis dedicado ao Superman enfrentando Lex Luthor pilotando um gigantesco robô que ele usa para roubar um MacGuffin do STAR Labs, o segundo em Nova York focado no Homem-Aranha enfrentando o Doutor Octopus que tenta roubar arte de um museu com uma gangue e uma nave que, claro, lembra um polvo e o terceiro promovendo o encontro dos dois vilões na prisão, com Luthor providenciando a fuga deles. Cada um dos prólogos é seguido de uma página não numerada de “apresentação” dos personagens, uma para o Superman, outra para o Homem-Aranha e a última para Luthor e Octopus. Criado o contexto para o crossover, ele então começa no Capítulo Um com um encontro dos alter-egos e dos coadjuvantes de cada herói em uma conferência jornalística que é, então, seguido pelo inesquecível Capítulo Dois em que finalmente vemos a esperada reunião  entre Superman e Homem-Aranha que, com a ajuda de um raio de “sol vermelho” que Lex Luthor atira no Aranha, começa com os dois se enfrentando somente para, logo em seguida, se unirem, com os Capítulos 3 e 4 sendo, então, o enfrentamento dos arqui-vilões para lidar com um plano escalafobético de Luthor que nem mesmo Octopus consegue concordar. E, como não poderia deixar de ser considerando a estrutura, há um simpático epílogo de uma singela página que acaba com Peter, MJ, Clark e Lois saindo juntos para jantar.

Se o roteiro é uma bobagem com um fiapo narrativo para justificar o crossover, ele também não fere de morte a inteligência do leitor. É uma abordagem descomplicada, básica, mas claramente amorosa e respeitosa aos personagens naquele momento tão importante para as duas editoras que só haviam trabalhado juntas antes no ano anterior em, por incrível que pareça, MGM’s Marvelous Wizard of Oz. E o fato de o roteiro de Gerry Conway não atrapalhar já é um grande feito em uma obra desse tipo, pois, com isso, o espaço é aberto para a já elogiada arte de Andru, Giordano e Serpe amplificada pelo trabalho não creditado de Adams, Romita, Austin e Wiacek. E, nesse quesito, confesso que não consigo encontrar nenhum defeito. Aliás, minto. Se existe um defeito é ler essa HQ no formatinho, perdendo a oportunidade de ver o esplendor da Treasury Edition. Os personagens, os cenários e a pancadaria saltam aos olhos e tornam a leitura um absoluto deleite visual que só ganha mais camadas quando vemos os visuais clássicos de cada um dos personagensm, sejam os dois principais em suas personas civis ou super-heróicas e os super-vilões, sejam os demais coadjuvantes, especialmente MJ, Lois Lane, J. Jonah Jameson e Morgan Edge. De rostos a figurinos, Andru e companhia souberam “fundir” universos maravilhosamente bem, convencendo o espectador – que não for o chato de galochas que se recusa a aceitar que eles coexistem em um mesmo universo e pronto – de que Superman e Homem-Aranha sempre estiveram ali, muito pertinho um do outro, mas nunca tiveram a chance de se esbarrar até esse momento.

Sei que existem outros crossovers entre DC e Marvel, pois já li todos menos os de 2025, valendo especial destaque para aquele que reuniu os X-Men e os Novos Titãs, em 1982, mas Superman contra o Incrível Homem-Aranha: A Batalha do Século continua sendo, para mim, o padrão que esse tipo de obra precisa almejar. Óbvio que, aqui, separar a nostalgia da análise mais objetiva é quase impossível, mas diria que o cuidado na concepção desse projeto foi tanto que ele até hoje não tem paralelo nas duas editoras. Ah, se eu ainda tivesse meu quadro feito a partir de minha camiseta favorita…

Superman contra o Incrível Homem-Aranha: A Batalha do Século (Superman vs the Amazing Spider-Man: The Battle of the Century – EUA, 1976)
Roteiro: Gerry Conway
Arte: Ross Andru (Neal Adams e John Romita não creditados)
Arte-final: Dick Giordano (Terry Austin e Bob Wiacek não creditados)
Cores: Jerry Serpe
Letras: Gaspar Saladino
Editoria: Carmine Infantino e Stan Lee
Editora original: Marvel Comics e DC Comics
Data original de publicação: 02 de janeiro de 1976
Editoras no Brasil: Editora Ebal, Editora Abril
Datas de publicação no Brasil: 1977 (Ebal – formatão), janeiro de 1986 e março de 1993 (Abril – formatinho)
Páginas: 100

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