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Crítica | Talma Gordon, de Pauline Hopkins

por Luiz Santiago
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A americana Pauline Elizabeth Hopkins foi uma das vozes mais fortes da comunidade negra nos Estados Unidos de sua época (1859 – 1930). Escritora, jornalista, dramaturga, historiadora e editora, ela se destacou pelo pioneirismo com que utilizou de narrativas aparentemente despreocupadas para discutir questões sociais sérias, principalmente o racismo. Em Talma Gordon, conto de 1900 publicado originalmente na The Colored American Magazine, a autora se aproximou dessas questões justamente pelo caminho sociológico e ideológico, começando a sua trama numa reunião de pessoas da alta sociedade americana (pessoas brancas), que discutiam os problemas, as possibilidades ou impossibilidades do casamento interracial.

O leitor ainda nem entrou na história e já está cercado por falas progressivamente nojentas de indivíduos que veem como um grande problema a miscigenação, até que um certo Doutor do grupo, que tem uma opinião claramente diferente de todo mundo ali, conta para seus colegas uma história que acompanhou de perto em seu passado e que aparentemente contribuirá muito para aquela discussão, certamente chocando a todos os presentes. É nesse momento que o texto verdadeiramente engata, após alguns parágrafos de ajuste de tempo, espaço e personagens.

O mistério, verdadeiro foco da história, nos chega através de uma virada brusca nos acontecimentos, que passam de uma intriga familiar simples para manifestações de racismo e uma discussão crítica, nas entrelinhas, sobre colorismo (especialmente porque Talma é negra de pele branca, filha de mãe preta e pai branco, tendo sido adotada por um casal de brancos). Como a construção que a autora faz aqui está bem próxima das narrativas-moldura, o leitor precisa estar atendo para não se perder durante as entradas em “histórias dentro da história“. Essa brincadeira com a nossa percepção faz com que a gente veja o crime como um verdadeiro choque, e a autora, muito consciente disso, desenvolve todo o mistério na trilha da dubiedade, deixando-nos no escuro sobre a autoria do crime (um whodunit com direito a um julgamento estranho e um comportamento social que se assemelha aos grandes escândalos de tribunais da atualidade) e constantemente boquiabertos à medida que as revelações vão aparecendo.

A falha na narrativa está no apontamento do culpado. Por mais que a tal pessoa entre de maneira distanciada na narrativa antes de mostrar-se realmente como a autora do crime, o conto inteiro foi erguido tendo como foco a família Gordon e alguns agregados e conhecidos, de modo que trazer alguém de fora para vestir a casaca mais importante dessa dinâmica inteiramente desenvolvida para outro tipo de indivíduo e grupo de personagens é um daqueles problemas que vira e mexe encontramos em literatura policial e que sempre nos irrita. Se a intenção era fazer a pessoa assassina vir de fora do núcleo central da obra, então que o desenvolvimento do arco do “quem matou?” fosse aberto e não fechado. Assim, o assassino poderia ser qualquer um, e não haveria a decepção com pitadas de anticlímax que trouxe esse indivíduo, roubando uma das cenas nucleares do conto e arrastando a tiracolo uma narrativa secundária que não se encaixou muito bem no enredo não.

Mesmo no final a autora manteve a aura de choque, com a última revelação final do Doutor narrador. É claro que estamos falando de um choque diferente dos outros já tidos no conto, mas mesmo assim é o tipo de declaração que nos faz pensar como ficaria a posição desse narrador frente ao grupo de burgueses branquelos e preconceituosos que o cercavam. O casamento que ele anuncia nesse final não me pareceu forçado e nem com algum tipo de interesse em relação às posses de sua esposa. A posição dele em relação a ela havia sido o tempo inteira empática, carinhosa, de modo que me pareceu um casamento orgânico, vindo de um amor nascido pela convivência em meio às hercúleas tempestades que assolaram e vida de Talma Gordon. Quero crer que ela não tenha ficado mentalmente afetada e que tenha podido aproveitar os anos finais de sua vida em paz. Mas este sou só eu mergulhando em demasia na história e fazendo votos para uma personagem a quem me apeguei bastante. Quem nunca?

Talma Gordon (EUA, Outubro de 1900)
Autora: Pauline Hopkins
Publicação original: The Colored American Magazine
No Brasil: Clube da Caixa Preta (Novembro de 2020)
Tradução: Karine Ribeiro
66 páginas

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