Crítica | Tempo de Matar (1996)

Os fins justificam os meios? Uma pessoa pode burlar o sistema judicial e a depender da situação, agir por conta própria, ao fazer justiça com as próprias mãos? Eis o mote de Tempo de Matar. O livro é de 1989. O filme de 1996. O tema, por sua vez, está na pauta do dia em 2018, haja vista os casos de racismo que transbordam nos telejornais, documentários, produções literárias e cinematográficas, séries televisivas, videoclipes, teatro e indústria fonográfica. Dirigido por Joel Schumacher, cineasta que teve como guia o roteiro de Akiva Goldsman, dramaturgo que contou com notas e sugestões de John Grishman, o filme nos apresenta ao advogado Jake Tyler Brigance (Matthew McConaughey), designado para defender um homem que burlou o sistema judicial e agiu por meio da citada “justiça com as próprias mãos”, ao matar os dois responsáveis pelo estupro de sua filha de 10 anos.

A sua entrada neste processo pode custar a sua carreira e até mesmo a sua vida, ambas colocadas em risco em prol da sua crença na justiça e na manutenção de sua imagem enquanto advogado eficiente em busca de sobrevivência em seu acirrado campo de atuação. Assim, Tempo de Matar estabelece o seu clima logo na abertura. Dois homens brancos, bêbados e com os sentimentos racistas aflorados, degradam alguns espaços por ondem passam. O desfecho dessa onda de atos de vandalismo termina de maneira trágica. O que poderia ser uma manhã simplória para a família de Carl Lee Hailey (Samuel Lee Jackson) se torna o seu maior pesadelo. A sua filha Tonya (R. Larrymore Kelly), garotinha de apenas 10 anos de idade, ao retornar com as compras solicitadas na mercearia próxima, é estuprada e espancada pelos dois homens. .

A notícia choca os familiares, bem como alguns habitantes, apesar do clima racista que torna as relações cotidianas extremamente tensas em Canton, no Mississipi, não permitir que muitos integrantes da população branca admitam o absurdo da situação. Carl Lee é informado sobre o acontecimento enquanto trabalhava. Ao chegar a sua casa, depara-se com o estado deplorável de sua filha, uma sobrevivente marcada pelas sequelas físicas e psicológicas do ato abominável.  Um sentimento de ira e vingança toma o personagem, delineando as suas necessidades dramáticas ao longo do primeiro ato do filme de 150 minutos.

Ao disparar contra os algozes de sua filha, Carl Lee não apenas feriu questões judiciais, mas também atingiu o policial que guiava os criminosos para a sentença judicial. Cego diante do sentimento de vingança, o pai amargurado pela desgraça que acometeu sua filha tinha a certeza da parcialidade do tribunal, pois conforme os fatos do cotidiano na cidade, os homens brancos provavelmente seriam libertados, já que todos os personagens da narrativa tentam sobreviver ao opressor ambiente racista, típico do imaginário sulista dos Estados Unidos, fruto das ramificações da Guerra Civil Americana.

Cheio de dívidas, Brigance vai contar com o apoio da esposa Carla (Ashley Judd), do seu mentor Lucien Wilbanks (Donald Sutherland), da secretária Ethel (Brenda Fricker), do sócio Harry Rex Vonner (Oliver Platt) e de Ellen Roark (Sandra Bullock), uma estudante de Direito branca e privilegiada, desde o início interessada no caso como estratégia de aprimoramento dos estudos, desinteressada em questões financeiras, pois alega vir de uma família abastada. Brigance resiste bastante, principalmente por conta do charme e beleza da estudante, o que pode ser uma distração para o caso e para seu casamento, mas logo depois cede, pois as contribuições da personagem alavancam bastante o desenvolvimento das situações no tribunal, espaço de tensão, reforçada pela eficiência da promotoria, representada por Rufus Buckley (Kevin Spacey), homem interessado no caso por questões que vão além da “justiça”.

Um dos problemas é que as tensões não ficam apenas no tribunal. A cidade se torna um fervoroso caldeirão de ódio e segregação. Negros pedem liberdade, brancos pedem pena de morte. Carl Lee pede justiça e amparo diante da situação incomum ao qual foi submetido. Freddie Lee Cobb (Kiefer Sutherland), irmão dos estupradores, assume o posto de arauto da onda de ódio, ao reorganizar um grupo da Klu Klux Klan em Canton. Os envolvidos no processo precisam lidar com ameaças externas, situação que alavanca a carga dramática da narrativa, drama com imagens captadas pela direção de fotografia de Peter Menzies Jr., conduzido musicalmente por Elliot Goldenthal e eficiente design de produção de Larry Fulton.

No desfecho do último arco dramático, o personagem de Matthew McConaughey faz uso da tríade retórica, isto é, Ethos, Pathos e Lógos, e convence o júri tendencioso na escolha da sentença “ideal”. Em seu percurso argumentativo bastante sedutor, o personagem percorre os recursos da metáfora e da metonímia, entoa seu ponto de vista num tom dramático e profundo, hesitações propositais, tendo em vista captar o público pela emoção, pausas milimetricamente pensadas, além de tomar para sua fala aspectos da injunção, da exposição e da subjetividade dos membros do júri, ao refletir sobre religião, multiculturalismo e valores morais.

Ao apelar para aspectos emotivos, em detrimento do agendamento formal de linha jurídica, Jack Brigance. É uma visão alegórica do tribunal, mas pertinente para o discurso cinematográfico e suas liberdades artísticas. Por fim, sabemos que a narrativa é longa demais, mas ainda assim impactante e mista no que diz respeito aos elementos do entretenimento, do didatismo e da reflexão. Tempo de Matar traz um elenco unificado em prol da cadência dramática dos fatos. Samuel Lee Jackson e Matthew McConaughey cumprem bem os papeis que lhe foram designados, assim como Sandra Bullock, atriz em ascensão na época, num ensaio para os personagens mais significativos que viriam nos anos seguintes.

Tempo de Matar (A Time To Kill, Estados Unidos – 1996)
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Akiva Goldsman, John Grishman
Elenco: Matthew McConaughey, Samuel L. Jackson, Sandra Bullock, Ashley Judd, Brenda Fricker, Darrin Mitchell, Donald Sutherland, Kevin Spacey, Kiefer Sutherland
Duração: 150 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.