Crítica | The Big Bang Theory – 12X19: The Inspiration Deprivation

Contém spoilers.

Uma das cenas mais singelas de The Big Bang Theory acontece no décimo-nono episódio de sua última temporada, com a sitcom já se encaminhando aos momentos finais de uma trajetória longa, com crescimentos e quedas vertiginosas. Quando Sheldon (Jim Parsons) acalma Amy (Mayim Bialik), o seriado consegue passar a importância da sequência por meio de uma abordagem cuidadosa. O tom cômico, pontuado com carinho, é usado como muleta para que o teor mais sentimentalista surja sem causar um incômodo ou tornar a cena cafona. O uso de “Soft Kitty” é certeiro e justamente o que precisávamos para que um momento de possível desconforto – com Sheldon abraçando alguém e mantendo-se assim por um tempo -, se tornasse verdadeiramente sereno e comovente. No mais, esse instante igualmente aplica-se no raciocínio de uma última temporada, com o desenvolvimento de Sheldon estando presente. É importante reconhecermos quando devemos nos afastar, quando devemos aconselhar e quando devemos apenas estar perto.

Os empecilhos que nortearão The Inspiration Deprivation continuarão um cliffhanger promissor e cômico que encerrara o bom The Laureate Accumulation. Em meio a uma reunião com vencedores passados do Nobel, acontecendo para que os possíveis nomeados ao próximo pudessem angariar votos, Amy terminou acusando com grosseria, mesmo que corretamente, os homens que provaram acidentalmente a sua teoria. O capítulo será estressante para a cientista, pois, assim como diminui as chances de terminar disputando o prêmio, uma outra questão a incomoda: possivelmente ser uma das únicas mulheres a ganharem essa honraria egrégia. O conforto antecede o confronto. O caso de Sheldon, portanto, é o que um personagem percebe o impacto de suas ações, coisa que já tinha acontecido, pois Cooper, logo no capítulo antecessor a esse, procurou não ser arrogante. Esses episódios promovem uma dobradinha interessante na expansão das nuances que envolvem esse seu relacionamento com Amy, tornando-o o mais consolidado e instigante do seriado, por fim.

Um ponto importante é a sagacidade do roteiro deste episódio, como The Big Bang Theory em si mostrou ser ultimamente, percebendo a nossa sociedade e as suas questões em inúmeras oportunidades, mas sempre com suavidade. Com muita sugestão e paciência até, The Inspiration Deprivation estende o seu cerne para cobrir as pressões que acometem as mulheres, em termos de conquistas profissionais, e não os homens, já precedidos por outros. O pioneirismo é uma carga a mais, mesclado à narrativa através de exímia competência. Por exemplo, experiências incompatíveis são versados pelos personagens, após entrarem em uma sessão de repouso que prometia amenizar os seus ânimos e as suas preocupações. Cooper, no caso, termina viajando pelas ondas de uma sessão com viés psicodélico, muito engraçada e cativante também. Um momento de calmaria. Enquanto isso, Amy, passando pelo mesmo processo, não consegue pensar em outra coisa, senão a sua responsabilidade perante uma geração de meninas. Eis a tempestade.

Leonard (Johnny Galecki) e Penny (Kaley Cuoco), em outra instância, perderam um protagonismo, mas isso não é nenhum problema sinceramente, pois esses atores funcionam bem como apoios às jornadas dos seus amigos. Os aconselhamentos são bons e sempre acompanham um humor, mas nunca como único objetivo proposto, recorrentemente conjugando-se a consequências narrativas engajantes. Howard (Simon Helberg) aqui, em contrapartida, é quem, entre os outros protagonistas da série, tem realmente mais proeminência e um núcleo para chamar de seu, embora seja um destaque menor. O personagem está envolvido em uma trama sobre sentir-se masculino, porém, que é comicamente invertida pela contraposição de sua esposa. Funciona na superfície. Já Kunal Nayyar é terciário, ajudando nas piadas. E aquela sua ex-noiva/namorada? Justiça, mesmo assim, é encaminhada aos espectadores leais à sitcom, que se manteve por muitos anos na programação e precisava, como está acontecendo e como Sheldon respeita Amy, ter uma conclusão de respeito.

The Big Bang Theory – 12X19: The Inspiration Deprivation – EUA, 18 de abril de 2019
Criação: Chuck Lorre e Bill Prady
Direção: Mark Cendrowski
Roteiro: Eric Kaplan, Maria Ferrari, Andy Gordon
Elenco: Johnny Galecki, Jim Parsons, Kaley Cuoco, Simon Helberg, Kunal Nayyar, Mayim Bialik, Melissa Rauch
Duração: 20 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.