Crítica | The Flash – 5X19: Snow Pack


– Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios de The Flash, aqui.

Ao contrário do que o título possa sugerir, Snow Pack não apresenta nenhum desenvolvimento realmente interessante para a subtrama familiar de Caitlin Snow (Danielle Panabaker), que vinha cambaleando com explorações fracas já há algumas temporadas mas parecia se encaminhar para algo interessante (e com importância central) com o recente ressurgimento do papai Thomas Snow (Kyle Secor) — ou melhor dizendo, a casca gelada que sobrou do experimento maluco que também deu origem a Nevasca. Embaralhando o que deveria ser um pequeno arco resolutivo dessa frente com outros desenvolvimentos (também desajeitados) da trama principal da temporada, o resultado é um misto sem centro que não empolga muito para além de momentos pontuais e conceitos bacanas.

Começando surpreendentemente bem, o conflito entre Iris (Candice Patton) e Barry (Grant Gustin) tinha tudo para funcionar melhor do que a cena dramática média da série. Como espantoso ver esses atores realmente expressando emoções humanas e fazendo uma briga carregada de sentimento de verdade, fugindo do chororozó sonífero que costuma praguejar toda e qualquer tentativa do gênero. Aqui prova-se a diferença da atuação/direção: o diálogo continua fraquinho e desnecessariamente explanativo como sempre, mas a interpretação mais acertada dá um contorno bem mais envolvente à coisa toda. Infelizmente, o momento só não funciona 100% justamente por conta da premissa já estar totalmente drenada: embora seja interessante a divisão entre o casal, levando-se em conta que Iris era vista por Nora como vilã e o pai idealizado, o fato é que ver o Grant Gustin com cara de desespero já não significa mais nada. A parte humana do super-heroi é sempre muito bem-vinda como tempero extra para as tramas de ação, mas aqui acabou banalizada a um termo caricatural. Meu caro casal, acredito que ninguém se importa mais!

A partir de então o episódio segue em duas frentes: a jornada de Nora (Jessica Parker Kennedy) no futuro, tentando voltar para o tempo atual e a frente dramática de Caitlin, às voltas com o retorno de seu pai. A parte de Nora é a que melhor funciona, ao menos em conceito, e potencialmente merecia um episódio inteiro para ser melhor desenvolvida. Dibny (Hartley Sawyer) recebe um raríssimo protagonismo bem bacana aqui, e as breves cenas em que trabalha ao lado de Iris mostram um pouco do potencial desperdiçado da série em explorar pareamentos e situações mais interessantes com seu elenco.

A premissa, no entanto, não deixa de ser trabalhada de forma superficial e um tanto preguiçosa: o motivo pelo qual Nora não pode voltar ao presente carece de pelo menos um pouquinho de pseudo-ciência para ficar mais crível, por exemplo. Tivesse Barry feito alguma espécie de “trava automática” na Força de Aceleração, não apenas isso seria resolvido mas também teríamos um recheio dramático mais interessante na discussão com Iris. Do jeito que tivemos, acabou ficando meio assim: “Menina você está de castigo aqui, e se aparecer de volta lá em casa tú nem imagina o que eu vou fazer! Fui!”. Poxa, além de Nora ser uma adulta (embora a produção pareça esquecer disso vira e mexe), o fato é que Barry — por mais que tenha em parte razão no seu ato — age de forma ao mesmo tempo insensível e preguiçosa demais. Não parece que ele está fazendo isso por pensar na segurança de todos e para escapar de lidar com o fardo pessoal de descobrir o que aconteceu com a filha no futuro, mas mais para se livrar de um incômodo de curto prazo sem ter que pensar muito nisso. É bem pouco heroico e nada inspirador!

Por fim, a introdução da Força de Aceleração Negativa cumpre possibilitar uma virada da parte de Nora para o lado sombrio da Força. Além de introduzir o elemento um tanto tarde demais, a exploração da ideia também é feita de forma um tanto burocrática. Que seja reconhecido o comprometimento de Tom Cavanagh como Eobard Thawne, o fato é que a explicação do conceito é superficial e desinteressante, assim como o é a “queda” da velocista a partir do confronto birrento com Iris. Resta muito pouca empolgação com a frente velocista dessa trama central.

A família Snow, por sua vez — coitados! Forçados a inexplicavelmente dividir o episódio com uma trama secundária que rouba a cena, o núcleo familiar pouco justifica todos os prelúdios lançados pela série ao longo da exploração (sempre preguiçosa) do personagem de Caitlin. Seu conflito com a mãe é reeditado aqui com sequências até divertidinhas, mas tudo muito requentado para justificar a revisitação. A pegada do pai-vilão Geada, por sua vez, destoa completamente da tonalidade que o núcleo vinha cultivando: ao invés do drama familiar pedregoso preludiado pelo flashback de Caitlin na temporada passada, o cara parece ter saído diretamente das cenas deletadas de Batman Eternamente

O que quase faz valer toda a empreitada são as duas sequências de ação super-heroica: o duelo de escorregadores aereos de gelo a la Bobby Drake e o resgate em fase da Dra. Snow (Susan Walters). O sacrifício de Geada vem encerrar a coisa toda da pior forma possível, lançando mão de um clichê totalmente saturado (em geral, mas especialmente no contexto dessa própria série) e aparentemente encerrando uma história que foi muito preparada mas que simplesmente não sabia muito onde queria chegar.

No balanço geral, Snow Pack não é dos episódios menos assistíveis de The Flash na memória recente — a parte mais aventuresca funciona razoavelmente bem e as subtramas dos personagens ficam a uma execução um pouquinho melhor delineada de realmente chegar lá. No entanto, para as alturas em que nos encontramos na temporada, a falta de um centro narrativo minimamente sólido torna a coisa toda um show de redundâncias sem fim, sabotando até mesmo o que poderia funcionar melhor.

The Flash – 5×19: Snow Pack — EUA, 23 de abril de 2019
Direção: Jeff Cassidy
Roteiro: Jonathan Butler. Gabriel Garza
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Hartley Sawyer, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, Jessica Parker Kennedy, Danielle Nicolet, Sarah Carter, Susan Walters, Kyle Secor, Bruce Crawford, Everick Golding
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.