Crítica | The Flash – 6X14: Death of the Speed Force

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Depois de criar um núcleo interessante em torno de Iris (Candice Patton) e nos presentear com um bom episódio de Gorila Grodd, o mais novo feito da equipe produtiva de The Flash envolve ninguém menos que Kid Flash (Keiynan Lonsdale). O que poderia parecer mais uma “volta dos que não foram (que ninguém pediu que voltassem)” teve o benefício tanto de acontecer em meio à boa fase atual do programa, quanto da redenção que o personagem recebeu durante sua passagem por Legends of Tomorrow. Ainda assim, Wally pode ser considerado uma “ponta solta” do passado da série que dificilmente justificaria uma revistação interessante o bastante, né? Né…?

Bom, considerem-me positivamente surprendido! Se no passado a versão televisiva desse gigante dos quadrinhos deixou (bastante) a desejar, e ainda que sua ausência em momentos-chave recentes dificilmente possa ser justificada de forma convicente, eis que chamaram o cara de volta para dar um pontapé em um arco realmente interessante! Por si só, a cena inicial do resgate aéreo já me vendeu a ideia de que, afinal de contas, não tem nada de mais em trazer de volta um ou outro velocista extra. Felizmente, mais do que nos presentear com boas sequências de ação velocista, o capítulo também aponta para uma direção que há tempos eu desejo ver ser tomada para o Velocista Escarlate nessa série.

Antes de falar disso, vale marcar: fiquei cabreiro, de início, com a perspectiva de estarmos diante de um dramalhão envolvendo a emancipação do Wally, em sua nova fase bicho-grilo, em relação à sua posição como eterno “Kid” Flash. Naquela cena em que ele começa a moldar flores de lótus com relampaguinhos e metralhar reflexões profundas e não requisitadas tal qual um aposentado em grupo de WhatsApp, temi que a coisa toda fosse se tornar mais um jogo de ciumeira bobo entre os meio-irmãos/cunhados velocistas.

Felizmente, a rixa pessoal entre os dois acaba sendo explorada de um jeito bem mais interessante do que o padrãozão passado da série, contrastando não apenas suas personalidades, mas duas maneiras diferentes de se pensar na Força de Aceleração e, com isso, preparando o que tem potencial de ser um desenvolvimento decisivo para a estagnada versão “grantgustiniana” de Barry Allen. Se eu achava que a partida de Wally em uma jornada de auto-conhecimento espiritual não passava de mais uma das desculpinhas mequetrefes de sempre (alguém lembra do Julian?), o gancho acaba sendo bem aproveitado ao mostrar a busca ativa de Wally por contato e respostas em relação à Força de Aceleração. Com isso, temos o pano de fundo para encarar uma característica até então pouco explorada de Barry: sua postura passiva/reativa frente aos fenômenos “velocísticos” que o circundam.

Claro que, mediante uma ou outra Crise anunciada, o Team Flash se desdobrou e adotou posturas ativas frente às suas ameaças. Porém, de maneira geral, além da postura reativa generalizada da equipe(lembra da eterna “perseguição” ao Pensador?), o fato é que o próprio Barry acabou sempre deixado de lado em termos da criação de soluções e tecnologias para expandir sua atuação como Flash. Com as explicações pseudo-científicas ficando sempre a cargo de Cisco (Carlos Valdes) e Caitlin (Danielle Panabaker) após a partida do tutorzão querido Wells, tivemos muito pouco espaço para explorar o lado cientista do próprio Barry — seu veio mais criativo e proativo que é uma das marcas do personagem nos quadrinhos. Barry é um cientista forense — só que Cisco e Caitlin são melhores como cientistas e Dibny é melhor como detetive do que ele. O que sobra para o cara fazer fora dos momentos de ação, senão ficar eternamente marinando suas questões motivacionais mais profundas?

A subtrama da morte da Força de Aceleração, embora traga na premissa algo que evoque momentos menos brilhantes da série no passado, acaba servindo como ponto de partida para resolver esse problema. Barry e Wally acabam entrando em rota de colisão por conta do erro de Barry, alimentado por sua postura sempre passiva em relação à Força. A piadinha que ele faz ao imitar Yoda é significativa: por mais que tenha vivenciado tudo que vivenciou, Barry ainda recusa encarar de frente seu papel como parte da Força de Aceleração, acomodando-se com as responsabilidades de sempre em Central City que, verdade seja dita, acabam sendo um fardo o suficiente para o cara carregar. Porém ele percebe, no fundo, que há algo de errado, mas usa-se de seu lado racional como defesa contra essa preocupação. Até que o desastre se torna inegável e, então, ele se força a finalmente dar um passo necessário em sua carreira heroica — ao invés de usar da razão para negar o “misticismo” correto de Wally, trata-se de encontrar uma solução para o desastre iminente: criar uma Força de Aceleração para fazer frente à criação sombria do Flash Reverso. Afinal de contas, o Barry que acompanhamos semanalmente muitas vezes está mais para Savitar do que para o cara que construiu Gideon, não é? É muito bom ver o personagem finalmente dar passos decisivos para se tornar o lendário Flash futurista, deixando de lado essa adolescência alongada pela qual tem passado desde a segunda temporada (!) da série.

Numa tacada só, temos uma subtrama super interessante para nosso protagonista que ao mesmo tempo justifica o retorno de seu arqui-inimigo, preparando o cenário para um conflito que tem tudo para evoluir o Flash a um novo nível de relação com seus poderes. Embora eu continue um tanto cético em relação à série abraçar seu lado mais sci-fi, já que o drama pessoal dificilmente deixará de ser o foco principal da coisa, ao menos o roteiro tem mostrado uma preocupação bem realizada em amarrar o passado da série com os eventos atuais. A forma como o episódio equilibra suas subtramas continua a ser muito interessante, evitando as arrastações de sempre e explorando elementos dramáticos interessantes: Iris não podendo se encontrar com Wally na prisão do espelho, o retorno de Wells no corpo de Nash, o “sacode” que Wally leva de Joe — pequenos momentos de personagem que adicionam consistência à narrativa e ao mundo de The Flash, felizmente longe do “esquema Power Rangers” das temporadas passadas.

Combinando bem os elementos que têm dado certo, Death of the Speed Force é mais um bom capítulo na ótima fase atual da série, construindo subtramas de forma orgânica e resgatando potencial esquecido de diversos cantos do universo televisivo. Ah, se a gente pudesse ter uma “Crise das Infinitas Emissoras” que retroativamente transformasse certas temporadas anteriores em algo mais próximo disso!

The Flash – 6×14: Death of the Speed Force — EUA, 10 de março de 2020
Direção: Brent Crowell
Roteiro: Sam Chalsen, Emily Palizzi
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Jesse L. Martin, Tom Cavanagh, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Efrat Dor, Victoria Park, Keiynan Lonsdale, Michelle Harrison, Tess Atkins,  Elizaveta Neretin
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.