Um corpo colossal de 20 quilômetros atravessa o vazio interestelar em direção à Terra. Os cientistas dizem que não é asteroide, nem nave. Sua existência simplesmente desafia todas as categorias que a ciência humana construiu para classificar o cosmos. The God Man (2025), do cineasta canadense Andrew Foerster, apropria-se do horror cósmico para subvertê-lo radicalmente neste curta, transformando a indiferença universal de Lovecraft numa possibilidade inesperada de consolo existencial, de maravilhamento, de esperança. O curta adota a estrutura de documentário para narrar a descoberta feita pelo astrogeólogo observacional Jonah Weisman no Lick Observatory durante os anos 1960. O diretor, veterano de colaborações com o TED-Ed e de projetos autorais, além de outro curta importante (Tin Canyon, 2014), conta com a consultoria científica do físico David Lunney e da astrônoma Elinor Gates para garantir precisão nos cálculos; com o design da entidade, feito por Trevor Henderson (autor da criatura Siren Head) e a econômica, mas bela trilha de Jason Stamatyades.
Ao adotar uma entrevista tipo talking head intercalada com filmagens de arquivo granuladas, o cineasta muda as expectativas do público sobre como representar o extraordinário numa animação. Cada elemento visual simula autenticidade (a textura envelhecida das imagens telescópicas, os objetos captados em estilo handheld, o gravador de fita visível), imitando, como produção digital, as imperfeições analógicas. Esse método visualmente artesanal traz coesão estilística para a obra, ajudando a criar uma atmosfera contemplativa e engajar melhor o espectador. Nesse caminho, o roteiro acaba fazendo um ótimo serviço, pois se destaca, em vez da ação. Lembra caminhos clássicos da ficção científica, onde o encontro com a novidade cósmica acaba servindo para reflexões pessoais e sobre a própria humanidade. E há ainda um diálogo bem profundo com 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), já que ambos os filmes compartilham o fascínio por incógnitas celestes de escala monumental e de natureza incompreensível, entidades que existem além dos limites da razão humana sem manifestar hostilidade, provocando terror e reverência apenas porque o homem teme a vastidão do universo.
Aqui, paira a noção de que o universo é indiferente à humanidade. Curiosamente, o protagonista acaba desenvolvendo uma relação parassocial com a entidade que avança em direção à Terra, sentindo esperança (em vez do esperado/imaginado terror) e alívio, apesar de uma dose inclassificável de desespero existencial, propriamente mortal e humano. Esta tese da solidão como condição mais aterradora que qualquer ameaça externa guia cada decisão narrativa do curta. O astrônomo cria vínculo emocional com presença que, mesmo morta, oferece companhia simbólica e indica que coisas colossais, vivas e em processo de evolução estão pelo universo afora. A origem e natureza da criatura seguem enigmáticas até o final (nós temos uma resposta em relação ao que é o objeto, mas não em relação à criatura que saiu dele), preservando o mistério essencial para esse tipo de filme. Quando a entidade atravessa a atmosfera terrestre e se desfaz, o filme atinge seu momento mais emotivamente devastador e reconfortante: Jonah continua grato pela experiência de ter sido testemunha de algo que olhou de volta para a Terra, mesmo sem compreender o que observava. Mas lamenta o gigantesco vazio que este “algo” deixou nele e em toda a humanidade.
The God Man elenca rigor científico com transcendência poética, transformando uma animação de baixo orçamento numa sessão inesquecível. O diretor passa com muita competência a ideia de que o verdadeiro terror está na possibilidade de estarmos eternamente sós diante da imensidão indiferente do universo, e que apenas a casca de um ser enorme tenha, nessa realidade e por acidente, passado por aqui, deixando perguntas, agonia de alma e, ao menos para o protagonista, um lirismo cósmico sem fim. Foerster constrói algo que reconhece nossa fragilidade diante do desconhecido. Ele aceita os limites do conhecimento humano, deixa o niilismo de lado e olha para o vazio interestelar como quem vê potencial para conexão. Seu curta é uma meditação comovente sobre a nossa necessidade de não estarmos sozinhos, coroando essa ideia com o fato de que o cientista em destaque descobriu algo sem preço: enquanto observava através do telescópio aquele corpo colossal pelo cosmos, ele realmente não estava só. Mas como sempre, toda companhia, mesmo as mais distanciadas e percebidas apenas por um lado, chega ao fim.
The God Man (2024) — Canadá, 2024
Direção: Andrew Foerster
Roteiro: Andrew Foerster
Elenco: Pazit Cahlon, Andrew Foerster
Duração: 10 min.
