Crítica | The Orville – 2X05: All the World Is Birthday Cake

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as nossas críticas dos outros episódios.

Tomando de emprestado para o título uma linha da canção dos Beatles, All the World is Birthday Cake oferece uma perspectiva original sobre um lugar-comum que já pululava em todo canto da ficção científica na época em que Yellow Submarine era um lançamento quentinho saindo das prensas. Trata-se, é claro, de se utilizar de alegorias especulativas para retratar os fenômenos de segregação social. Enquanto é verdade que a franquia Star Trek, musa inspiradora de The Orville, abordou o tema sob tonalidades e escalas variadas desde o icônico episódio Patterns of Force, é raro o conto televisivo que se ocupe da temática de forma lúdica o suficiente para percorrer ângulos de drama e humor de forma tão bem amarrada quanto vemos aqui.

Nossa tripulação recebe um sinal de saudação lançado ao espaço a partir de Regor-2, planeta ocupado por uma sociedade humanoide que ainda não se iniciou na exploração espacial, possuindo um nível de desenvolvimento tecnológico paralela ao nosso. Achei muito divertidas as sequências iniciais, que em um jogo de perspectiva nos colocam inicialmente junto aos regorianos, fazendo da Orville momentaneamente um sonhado “disco voador” na escuta. Nesse ínterim, temos uma breve troca hilária entre Kelly (Adrianne Pallicki) e Bortus (Peter Macon) sobre a possibilidade de uma comemoração compartilhada de aniversário — o moclano não se demonstra nada favorável à ideia.

O assunto se dissipa conforme nossa tripulação se mostra extremamente empolgada com a perspectiva de participar de uma missão de primeiro contato, incluindo aí boas trocas de humor advindas da forma corriqueira com que os tripulantes se preparam para o evento grandioso. Gosto da forma como a série trabalha um humor leve e nonsense em cima da “quebra de protocolo” advinda da forma irreverente com que os tripulantes agem frente a situações como essa, valendo-se da quebra de expectativas mas sem exagerar na caricatura.

Em meio a explicações rápidas sobre as regras da União Planetária a respeito da famosa “primeira diretriz” — a capacidade de contato é estabelecida não apenas com a tecnologia de exploração espacial propriamente dita, mas também para o chamado para as estrelas — a equipe de pouso vai conhecendo mais da cultura local, sem detectar nada que confirme as suspeitas que os uniformes levemente inspirados em Tropas Estelares podem sugerir a respeito da índole política de nossos “primeiro-contatantes”. Mais tarde, Ed Mercer (Seth MacFarlane) inclusive faz um discurso belíssimo plagiando Carl Sagan (e mais meia dúzia de fontes não identificadas), garantindo ao espectador que se deleitar com a cena que a premissa da série tinha sim, afinal de contas, seu público alvo garantido.

A trama consegue construir de forma intrigante um mistério envolvendo um surto de cesarianas e nascimentos prematuros, em meio a uma visita da Dra. Claire (Penny Johnson Jerald) a um dos hospitais “barbáricos” do local. Tudo se torna mais claro quando, durante um jantar diplomático, Kelly não resiste a trazer à tona o evento de seu vindouro aniversário. É com a subsequente prisão escandalosa da imediata e do pobre moclano que tudo fica claro: estamos lidando com uma sociedade que segue com fervor um sistema de segregação baseado em horóscopo!

Se a premissa é irreverente em si, a forma como o capítulo a explora mostra o alcance de The Orville, que astutamente pode dar uma pausa na ficção científica “séria” e puxar da manga a carta de “comédia” quando lhe convém “forçar a barra” em termos das ações e motivações de personagens humanos. Se Patterns of Force possui momentos involuntariamente cômicos devido às limitações do formato televisivo em relação à amplitude da temática abordada, All the World is Birthday Cake mergulha de cabeça no nonsense assumido, sem no entanto se valer do tipo de humor mais escrachado que costuma pipocar nas produções de MacFarlane.

Assim, a construção da trama do sistema astrológico de castas não incorre no erro de pintar os regorianos como nazistas caricatos ou tolos supersticiosos, mas brinca de maneira lúdica com a ideia séria do poder normativo de construções sociais arbitrárias justamente ao “levar a sério” essa premissa absurda e desenvolvê-la sem rodeios em suas consequências mais dramáticas.

Brincando com a dualidade “superstição x conhecimento científico”, o episódio mostra sem pretensões e de forma divertida de que maneira o misticismo barato e o saber empírico podem se entrelaçar de forma mais estreita e fácil do que podíamos imaginar de início. Afinal de contas, a ciência regoriana simplesmente não distingue astronomia e astrologia e faz uso de medições precisas para então correlacioná-las à índole inata e destino prenunciado dos homens — provavelmente sem ferir qualquer critério rigoroso de ciência no processo, já que a tecnologia deixa de responder aos pressupostos rigorosos da ciência quando se torna instrumento de política.

As consequências são retratadas de forma dramática nas sequências em que acompanhamos Kelly e Bortus no campo de concentração destinado aos infelizes nascidos sob o signo de Gilliac. O capítulo consegue dosar muito bem o drama sincero com a aventura galhofa, de quebra dando destaque a um novo pareamento inusitado de personagens, algo que a série sempre faz muito bem. As cenas envolvendo o nascimento de um bebê de outro signo por uma prisioneira de gilliac nos deixam dar uma espiada dramática nos desdobramentos mais cruéis impostos pelo sistema. Uma ótima sequência de protagonismo para Kelly, que aceita as humilhações impostas pelos seus capturadores mas traça sua linha na areia ao ver o sofrimento causado à mãe (após uma sequência de parto muito bem realizada).

Enquanto isso, a tripulação a bordo da Orville tenta contornar as complicações diplomáticas do malfadado primeiro contato. Em ambas as frentes do episódio, o roteiro concede centralidade a nossa nova oficial de segurança, Tenente Talla Keylai (Jessica Szohr), que consegue aproveitar bem seu tempo de tela para comprovar de antemão não se tratar de uma simples reedição de Alara. É dela que vem a ideia engenhosa de resolução do conflito, que brinca com as perspectivas radicalmente distintas entre astrônomos e astrólogos ao inserir um símbolo nos céus de Regor-2 que é capaz de dissolver milênios de perseguição e segregação.

Nesse sentido, All the World Is Birthday Cake acaba tendo um resultado próximo a Mad Idolatry, construindo uma premissa interessante e bem explorada tanto pelo ângulo cômico quanto pelo drama, porém resolvendo-a com uma conclusão apressada que se vale repentinamente do teor comédico da série para escapar pelos fundos sem dar maiores explicações. As reações presumidas dos regorianos desafiam qualquer credibilidade à lógica humana que emprestamos aos seres ao longo do episódio — mas no fim das contas, a jornada é divertida e acaba sendo uma forma ultra-complexa de forçar Bortus a ter que engolir seu aniversário compartilhado (e atrasado), com direito a e-cards e tudo mais.

The Orville – 2X05: All the World Is Birthday Cake — EUA, 24 de janeiro de 2019
Direção: Robert Duncan McNeill
Roteiro: Seth MacFarlane
Elenco: Seth MacFarlane, Adrianne Palicki, Penny Johnson Jerald, Scott Grimes, Peter Macon, J. Lee, Mark Jackson, Chad L. Coleman, Jessica Szohr, Ted Danson, Chris Johnson, Mike Henry, John Rubinstein, Niko Nicotera, Jennifer Landon
Duração: 44 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.