Crítica | Thunder Road (2018)

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O longa-metragem Thunder Road (2018) é a expansão do elogiado curta de mesmo título lançado por Jim Cummings, roteirista, diretor e protagonista do projeto, em 2016. Vindo essencialmente de uma carreira de produção e tendo apenas trabalhado como diretor em curtas-metragens, Cummings realiza aqui a sua estreia em formato maior e o faz de maneira brilhante.

No melhor estilo Robert Altman de dirigir (influência admitida pelo próprio Cummings), vemos em Thunder Road a história de Jimmy “Jim” Arnaud (Cummings), um policial disléxico de uma pequena cidade texana. Na abertura do filme, com um plano-sequência em que ele faz um discurso no velório da mãe, conhecemos o personagem e imediatamente nos afeiçoamos a ele, à medida que também nos constrangemos pela sua maneira de lidar com o luto e pelo que ele faz no velório, prestando uma homenagem à mãe com a música favorita dela, Thunder Road, de Bruce Springsteen.

Uma das intenções do diretor aqui foi mostrar um lado humanizado de um policial ao mesmo tempo que também toca no fato de que questões pessoais podem interferir negativamente no trabalho de um profissional como este. A comédia aqui mescla o sentimento negativo de parte dos Estados Unidos direcionado aos policiais (especialmente em 2016, quando o curta-metragem foi realizado) com uma comédia trágica que flerta, em diversos momentos, com o modo de comédia íntima e absurda de Chaplin. No decorrer da fita, temos diversas variantes do humor, entre o slapstick e a comédia inteligente ligada a grandes planos de um personagem num contexto específico. E também diálogos engraçados que, como sempre, em boas comédias, dizem muito sobre a humanidade.

O estudo de personagem que Jim Cummings propõe aqui funciona com perfeição no nível técnico — porque a câmera permite isso — e o mesmo acontece no nível dramatúrgico, porque o ator entrega uma performance totalmente fora da curva (flertando com o teatro do absurdo), criando um policial com quem a gente consegue se afeiçoar, sentir as dores, compartilhar a ira e o abandono, ao mesmo tempo que o sentimos como um indivíduo inacessível. Seus rompantes são um pouco preocupantes, apesar de não vermos nele uma real ameaça. Suas respostas ou reações espontâneas também deixam o espectador tenso, já que nunca se sabe o que virá pela frente. O personagem é ingênuo e impulsivo demais para perceber algumas coisas e, antes mesmo de ter plena noção do que disse, o estrago já está feito, vide a reação dele diante do juiz, na audiência para a guarda da filha.

Vários espaços de ação são visitados pela câmera, colocando o protagonista em contextos e lugares diferentes, onde ele reage da maneira mais espontânea possível. Essa transição de espaços é algo interessante na obra, porque contrasta imediatamente com a tendência aos planos-sequências, criando uma jornada cujo ritmo nos parece bem diferente, no sentido positivo da percepção. E em cada novo lugar, conhecemos ou vemos retornar alguém importante para a vida de Arnaud, criando e explorando laços que, de início, não imaginamos existir. É por isso que a riqueza desse indivíduo nos fascina. Ele não nos repele como persona, mas é um enigma diante do qual temos um certo cuidado, uma constante expectativa e uma perigosa curiosidade, coisas que o roteiro claramente se dá conta e explora até o final. Nisso, as relações vão se estreitando, já na reta final, criando um movimento circular que sai de Arnaud se apresentando no velório da mãe e termina com ele diante de uma situação que jamais imaginou que estaria.

Independente, inteligente e muito engraçado, Thunder Road é um filme sobre o luto, sobre como seguimos em frente, e sobre como adequamos as primeiras crises após o grande choque de perder alguém que amamos. O roteiro talvez se beneficiasse com uma colocação mais efetiva da esposa na vida de Arnaud e da filha Crystal, mas o texto consegue trabalhar muito bem isso, ao final. Não é todo dia que a estreia de um diretor em longas-metragens, trazendo um tema tão delicado como esse ganha uma leitura tão maluca que nos deixa solenemente satisfeitos, como é o caso de Thunder Road. Um filme para ver e rever.
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Leia aqui a crítica de Bruno dos Reis Lisboa Pires

Por conta de um probleminha de comunicação, eu e o Bruno acabamos escrevendo sobre o mesmo filme durante a 42ª Mostra SP. Como a minha crítica já ia entrar no ar, propus a ele adicionar o seu texto ao meu, como um complemento, numa linha de argumentação diferente. E aqui está.

Thunder Road (2018)

por Bruno dos Reis Lisboa Pires

O valor da consciência.

Thunder Road é um dos filmes mais estranhos do ano. Não sei se é necessariamente algo bom ou ruim, mas é bem diferente de tudo que o cenário independente americano vem produzindo na década, ao mesmo tempo que é igualzinho. Jim Cummings, roteirista diretor e estrela do filme, tem todos os vícios e obsessões de um autor indie, formalmente e tematicamente falando, mas por trás de um trabalho que supostamente seria genérico, sua abordagem é muito autoral dentro desse formato, e não tem medo de ir além do que o expectador está domesticado a aceitar.

Baseado num curta de mesmo nome, o filme conta a história de Jim, um policial enfrentando um divórcio complicado e sofre com a morte de sua mãe. A princípio poderia ser algo austero, sobre a dor do luto levando Jim a isolar-se e, consequentemente, levando o tom da obra para um lado mais sombrio. O tom mantem-se o mesmo, mas o caminho que Cummings toma para isso é um pouco mais interessante. Seu interesse é muito mais na tentativa de Jim em superar todas suas dores, quando, na verdade, chafurda cada vez mais no sofrimento. A tentativa de estar no controle é falha, e gera momentos que, sem controle algum, variam entre o cômico e o trágico.

É um personagem claramente problemático, que não deve ser justificado ou levar uma “passada de pano” por causa de sua situação atual, mas o diretor trata-o com o devido desprezo que se deve ter de alguém que age de forma impulsiva e violenta, hora sendo engraçado ou dramático, mas sem perder uma modulação ridícula no ar, graças a interpretação espalhafatosa de Jim Cummings. É como se Xavier Dolan resolvesse dirigir Will Ferrell, um filme que tenta ser sério, mas acaba sendo avacalhado, mas não para pior.

É justamente a consciência que o autor tem no ridículo que reverberam seus talentos. Não, Cummings não tem boa mão para o drama, você não se interessa pelo problema com o divórcio, guarda da filha ou mesmo a morte de sua mãe, mas há um anti-carisma em seu personagem que conserva um sabor amargo, porém interessante, que consegue trazer momentos de descontração para instantes ridículos de seriedade vindouras da dominação da estética e argumentos do cinema independente americano. O filme que tem como opção o tempo inteiro a fuga dos problemas, como seria de praxe no cenário atual, mas opta pelo enfrentamento, sem medo de dar a cara a tapa e expor seus próprios problemas.

No fim, procura-se uma redenção, que mesmo funcionando dentro do filme, não é o suficiente para o expectador mais ativo. Justificam-se todos os problemas que Jim causou? Ele é apto a cuidar de sua filha sozinho? Não, mas o filme não busca redimi-lo como santo de forma alguma, até mesmo seu último monólogo ou seu close final mostram sua personalidade volátil e problemática. Mas o filme importa-se o suficiente com o que tem em mãos que deixa claro o caráter cíclico que seu protagonista passa, e nada mais humano que sempre tentar ultrapassar seus problemas e barreiras. Não se tenta higienizar, é tudo muito concreto e áspero. Talvez por isso destaque-se tanto dentro do próprio cenário americano, e por consequência seja um filme tão bizarro.

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Thunder Road (2018) — EUA, 2018

Direção: Jim Cummings
Roteiro: Jim Cummings
Elenco: Jim Cummings, Kendal Farr, Nican Robinson, Jocelyn DeBoer, Chelsea Edmundson, Macon Blair, Ammie Leonards, Bill Wise, Jordan Ray Fox, Frank Mosley, Jacqueline Doke, Chris Doubek, William Kevin Olliff, Tristan Riggs, Marshall Allman
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.