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Crítica | Turma da Mônica em A Sereia do Rio

Uma sereia, um jacaré e outras histórias maravilhosas da turma da Mônica.

por Leonardo Campos
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A Turma da Mônica, criada há décadas por Maurício de Sousa, dispensa grandes apresentações. As histórias em quadrinhos envolvendo Cebolinha, Cascão, Magali e Mônica, bem como um grandioso número de personagens gravitacionais, atravessou a infância de muitas gerações do século XX aos dias atuais e nos processos de convergência midiática, comuns ao âmbito da indústria cultural, o universo teve a sua adaptação para o suporte audiovisual. Lançado em 1987, A Sereia do Rio é uma animação de 56 minutos com várias histórias, sendo a narrativa envolvendo a figura mitológica do título a de maior destaque. Sob a direção de Walter Hugo Khouri, realizador que se pautou no roteiro escrito por Arnaldo Galvão e Mário Matoso Neto, acompanhamos a saga de Mônica diante de uma situação inesperada. Logo no começo, ela caminha pela rua do Limoeiro e observa um cenário todo branco mais adiante. Curiosa, resolve investigar, da mesma maneira que fiz, ao escrever esse texto, e buscar algumas referências sobre a sereia na cultura brasileira, investigação exposta no parágrafo de desfecho desta análise, não necessariamente em diálogo completo com o filme, mas um punhado de observações elucidativas para compreendermos melhor a presença destas criaturas míticas em nossa cultura, sempre bastante aberta ao processo de inserção de elementos estrangeiros, oriundos da colonização e da globalização.

Ao passar pelo local, acaba numa área florestal. Lá, a jovem encontra uma fada (Tetê Espíndola), uma figura feminina que se diverte cantarolando na floresta. Durante o desenvolvimento da narrativa, a fada se transforma em diversos animais, até revelar a sua identidade de sereia próximo ao desfecho. Enquanto isso, antes de chegarmos na história da sereia, passeamos por três pequenos segmentos: primeiro, em A Gruta do Diabo, temos uma lição aprendida pelos teimosos Cebolinha e Cascão, assustados por figuras aparentemente diabólicas, mas que na verdade, eram presenças celestiais querendo pregar uma peça para os meninos; no divertido Jacaré de Estimação, um réptil cresce e cria vários problemas na casa de Cebolinha, após fugir do quarto do garoto, local onde era criado como lagartixa; já em O Tocador de Sinos, um homem abalado por uma situação em sua vida vai parar na rua do Limoeiro e depois de algumas trapalhadas, torna-se amigo de Cebolinha e Cascão e juntos, criam um show para arrecadar dinheiro e ajudar o tal senhor. São as três histórias que antecipam a narrativa sobre a sereia.

Na história principal, nomeadora do filme, temos Mônica e Cebolinha indo para uma atividade de pescaria em um lago. Lá, a garota quer provar para o amigo que sabe pescar e entra num desafio que culmina com a presença de uma sereia em sua linha e anzol. A figura mitológica, presente em nossa cultura por meio do mito de Iara, é uma bela mulher que sai apenas a noite, para se embelezar, e vive no fundo de um rio. Encantado com a figura, Cebolinha decide que vai mostra-la ao mundo. Ele anseia TV, Oscar, Grammy, enfim, todos os prêmios possíveis. Várias confusões acontecem e no final de tudo, Mônica percebe a insatisfação da personagem e decide solta-la. Presente nas histórias da Turma da Mônica em outras ocasiões, quando aparece nos rios e lagos próximos da rua do Limoeiro, ela lembra a lenda indígena de Iara, a sereia brasileira, personagem que também aparece nas histórias deste universo com o mesmo nome, mas não é a tal sereia que aparece no desenvolvimento desta narrativa breve, envelhecida, pouco interessante, mas inofensiva e talvez relevante para o público consumidor de animação na década de 1980.

Assistir ao filme pode não ter sido tão prazeroso quanto imaginado ao descobri-lo, mas me fez resgatar a lenda indígena e compreender ainda mais as diversas narrativas acerca do mito das sereias, presentes nas mais diversas culturas ao redor do planeta. Iara é a sereia brasileira, de lindos cabelos negros e olhos castanhos, emissora de uma melodia que atrai os homens e os hipnotiza com sua voz doce e melodiosa. Por ser bela e uma corajosa guerreira, os seus irmãos decidem matá-la. Habilidosa, no entanto, ela consegue driblar a situação e inverte as coisas, matando-os, mas fugindo por medo de seu pai, o pajé, castiga-la. Ele a encontra, por sua vez, e a joga no rio, mas os peixes decidem salvá-la e com a presença da lua cheia, a jovem se torna uma sereia. Ela conquista os homens e depois os leva para o fundo do rio, onde morrem afogados. Aquele que consegue escapar, segundo a lenda, precisa passar por um pajé para mudar a força do feitiço. Quando não se encontra a atrair homens, Iara fica nas rochas, penteando os cabelos e admirando-se no reflexo das águas. Causadora da Pororoca, também conforme o folclore, o encontro das águas entre rio e mar, com ondas de até 30 km/h e seis metros de altura, Iara, segundo o renomado Câmara Cascudo, surgiu na cultura europeia e foi trazida pelos colonizadores portugueses pra cá, inspirado na Moura Encantada, sereia da cultural de Portugal, versão que mescla parte humana e parte peixe, diferente das sereias “aves” da cultura grega.

Mônica e a Sereia do Rio — Brasil, 1987
Direção: Walter Hugo Khouri
Roteiro: Mário Matoso Neto, Arnaldo Galvão
Elenco: Marli Bortoletto, Angélica Santos, Elza Gonçalves, Paulo Cavalcante, Tetê Espíndola, Orlando Viggiani, Denise Simonetto, Marcia Gomes
Duração: 56 min.

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