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Crítica | Twin Peaks – The Return: Part 2

por Luiz Santiago
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Spoilers! Confira as críticas para Twin Peaks – The Return (2017) clicando aqui. Confira as críticas para todas as publicações do Universo da série, clicando aqui.

Uma das coisas que sentíamos na série original de Twin Peaks é que mesmo com toda a horda de mistérios e questões sobrenaturais então revolucionárias na TV americana, havia um chão para o espectador pisar, um lugar seguro que lhe permitia respirar e se relacionar com o “mundo normal” que, por motivos posteriormente conhecidos, estava mudando. Pois bem. Nesta 3ª Temporada da série (o nome oficial é Twin Peaks – The Return, só para deixar claro), David Lynch e Mark Frost simplesmente resolveram abandonar qualquer tentativa de suavizar as coisas para o espectador. Não existe nada, absolutamente nada nestes dois primeiros episódios do retorno que soe normal.

Até mesmo blocos que poderiam se enquadrar nessa categoria, como o reencontro no bar, que acontece no final do capítulo, tem referências ao Gigante que apareceu para o Agente Cooper na 2ª Temporada, de modo que assistimos toda a sequência — com um ritmo tão preciso, excelente escolha para a trilha sonora, cortes bem realizados e direção tão limpa que não queremos que acabe, mesmo que não aconteça nada ali — já pensando em coisas ruins, em momentos trágicos para os indivíduos que um dia foram tocados, direta ou indiretamente, por BOB.

Se o Episódio #1 serviu para mostrar as primeiras ações das forças do Black Lodge 25 anos depois de sua manifestação ligada a Laura Palmer, este Episódio #2 serve para mostrar como o passado e o presente se relacionam no mundo espiritual e qual é a aparência que o presente tem, antes de ser descortinado, desmascarado. É aí que entram os melhores pontos do episódio: a não entrega de coisas óbvias e, ao mesmo tempo, a sugestão de pistas importantes para pensarmos alguns personagens, como os vividos por Kyle MacLachlan; um, fisicamente semelhante a BOB (o chamado Sr. C); e outro, o Agente Cooper que divisamos no Salão Negro recebendo as visitas de Leland, Laura, MIKE e encontrando pela primeira vez a Árvore da Evolução, uma formação de galhos secos eletrificados e com uma cabeça que tem um pedaço de carne (ou algo parecido com o “bebê” de Eraserhead e com a cabeça da criatura que atacou os jovens no episódio passado) que diz para Cooper ficar de olho em sua réplica.

Agora vejam que mesmo com toda a loucura, temos uma referência importante no enredo, que é a ação do DUPLO. Da literatura de Poe (William Wilson, 1839) e Dostoiévski (O Duplo, 1846) aos tempos da descrição de modelo do estádio do espelho, de Lacan [1. Aquele que eu vejo me olhando no espelho é um outro. 2. Aquele que eu vejo me olhando no espelho não é um outro, mas uma imagem. 3. Aquele que eu vejo me olhando no espelho é a minha imagem. Agora posso brincar com ela.], temos aqui um episódio não só visualmente estonteante — Lynch sabe muito bem como criar uma atmosfera de terror e como colocar a câmera nos lugares mais improváveis de um cenário –, mas um excelente trabalho dramático com essa questão da cópia, que em um só tempo começa a costurar a Série Original com The Return e sugerir que estamos de volta ao jogo das múltiplas dimensões, onde não só Tempo & Espaço são manipuláveis, mas também a percepção de mundo e da realidade que temos entram em parafuso.

A aparição do Cavalo Pálido e a citação do Major Briggs aparecem em uma boa hora, assim como o início das sugestões sobre quem é a pessoa por trás dessa busca por outras dimensões, um bilionário temível que mantém o experimento da Caixa e, ao que tudo indica, outros projetos sobrenaturais em andamento. Em paralelo temos a cópia de Cooper se mostrando consciente de que “será sugada” para o Black Lodge, mas se recusa a isso. Notem que na cena onde Cooper abre a cortina do Salão Negro e, na rodovia abaixo, vemos este Sr. C passando de carro na mesma hora, a Árvore da Evolução (do braço de MIKE, pelo visto — mas ela representa “a voz das cópias” nesse Universo) fica amarela e agressiva, como se estivesse doente, infectada, influenciada por algo maligno. É justamente neste momento que Cooper é expulso do Black Lodge e vai parar na Caixa que vimos no episódio anterior, não necessariamente fechando, mas dando coerência ao círculo de mistérios que rondam este começo de temporada.

Insano, cheio de humor negro (impossível não rir de nervoso quando a árvore faz o barulho com a “boca”), mergulhado em questões transcendentais, instalações artísticas, psicanálise, drama de mistério e conceitos éticos e/ou esotéricos para o bem e o mal, este episódio é a prova de que nem Lynch e nem Frost estão a fim de fazer concessões e que nesta Temporada eles nos farão passear por pesadelos dentro de pesadelos. The Return é claramente uma continuação mais sombria e mais surrealista (se é que isto é possível) de Twin Peaks. As nossas definições de cérebros explodidos após episódios e de uma temporada de cartazes mentais com letras garrafais escritos “O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO???” foram atualizadas.

Twin Peaks – The Return (3ª Temporada): Part/Episode #1.2 (EUA, 21 de maio de 2017)
Direção: David Lynch
Roteiro: Mark Frost, David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Joe Adler, Mädchen Amick, Steve Baker, Brent Briscoe, Gia Carides, Catherine E. Coulson, Neil Dickson, Patrick Fischler, Balthazar Getty, George Griffith, Cornelia Guest, Michael Horse, Nicole LaLiberte, Sheryl Lee, Jennifer Jason Leigh, Matthew Lillard, James Marshall, Walter Olkewicz, Ben Rosenfield, Frank Silva, Al Strobel, Jessica Szohr, Jake Wardle, Ray Wise, Grace Zabriskie, Madeline Zima
Duração: 55 min.

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27 comentários

JC 26 de março de 2021 - 13:40

Que episódio mais lindo de maravilhoso !
Tô amando tudo, não consigo parar de assistir!
Lynch é um dos meus diretores favoritos, até às bandas que ele gostam são as mesmas que eu gosto!

Cromátics no final! <3

Ele até já fez show com Au Revoir Simone

<3

Nossa, todos atores estão vivos e voltaram(até agora...), Que emoção ver James!

O tempo passa para todos nozes!

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Luiz Santiago 26 de março de 2021 - 13:45

Essas cenas finais do Bang Bang Bar são maravilhosas! Até fiz um ranking pra elas!

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Victor Garcia 6 de julho de 2017 - 21:59

Estou convencido de que a “arvore da evolução do braço de mike” não é uma arvore, e sim um neuronio. Tem o “nucleo da celula” (a cabeça) e o axonio cheio de eletricidade

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Luiz Santiago 7 de julho de 2017 - 07:47

Se isso se tornar realidade e for bem encaixado na série… será maravilhoso.

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Felipe 2 de junho de 2017 - 05:08

Uma coisa que eu to gostando é que eles estão focando mais no Black Lodge do que na serie original e eu sempre quis ver mais.

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Luiz Santiago 2 de junho de 2017 - 13:28

Acho que pela questão mais sombria dessa nova série, estão expondo essa nova face do Salão. Eu também tô adorando isso.

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André 29 de maio de 2017 - 01:11

No início dos anos 90, na TV aberta que nem tinha tradição para séries e sendo uma série estreante o Lynch já criou toda aquela mitologia. Imagina agora em pleno século XXI com Twin Peaks sendo já um “clássico” e na TV fechada sem precisar de se preocupar se vai afastar o público. O resultado é esse episódio e como você disse agora não há necessidade de transmitir um ar de normalidade. Só aguardo ansiosamente pelos próximos episódios dessa MARAVILHA. PS: Cadê você Audrey Horne?

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Luiz Santiago 29 de maio de 2017 - 01:48

Exatamente! Sem amarras de qualquer tipo, o nível de criatividade, mistérios e loucuras ultrapassa todas as linhas possíveis!

Audrey deve aparecer em breve! A atriz Sherilyn Fenn está mais do que confirmada nesse retorno!

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curiosa gospel 25 de maio de 2017 - 17:51

sonífera

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Luiz Santiago 25 de maio de 2017 - 18:56

elabore

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Marta Souza 24 de maio de 2017 - 14:16

Este episódio me deixou completamente sem chão. Nunca imaginaria o Ou me fazendo esse bandido agressor. Um desafio para ele na série que tem um personagem tão bacana como o Cooper.

E tô vendo muita gente reclamar que a série está muito espiritual. Mas eu vejo tudo mais como uma mistura disso com ciência e filosofia como vc aponta no texto Luiz. O que acha?

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 14:20

@disqus_sezpmZcwTu:disqus eu também tenho visto muita gente reclamar disso. E sim, acho que é uma mistura de tudo, a série não é essa bolha que só cabe a parte esotérica. Tem muito mais coisas envolvidas! Dá uma olhada no ótimo comentário do @tiagocecconellosebben:disqus abaixo!

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Tiago Cecconello Sebben 24 de maio de 2017 - 14:15

Cara, o conceito do duplo é interessante. Eu acho que Twin Peaks caminha para uma mistura de ficção científica com espiritualidade. O que para uns é uma questão espiritual, para outros é científica. Mas eu acho que o black lodge é um local onde o presente, o passado e o futuro se encontram, e que existe uma mistura entre espírito e física quântica. A caixa é um portal que eles conseguiram criar onde espíritos e pessoas podem viajar no tempo.
O Major, por exemplo, nunca viu a coisa como sendo “espiritual”. Ele via como sendo científica, física etc.
E pode ser as duas coisas mesmos. A relação entre espíritos, black lodge e a física é perfeitamente possível.
Quem garante que quando morremos nosso espírito não vai para uma “dimensão paralela”, que os cientistas dão um nome e os nativos americanos chamam de black lodge?
Suspeito que o dono do projeto da caixa possa ser o filho do Major que enriqueceu e quis estudar o que pai tanto pesquisava. Acredito que essa temporada terá muita física quântica.

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 14:22

Excelentes colocações, mano! Acho que muita gente precisa levar em conta essa interpretação. O pessoal ainda parece estar meio viciado em um único olhar, sabe, um tipo de ideia fixa, de ver a série como uma coisa engessada quando na verdade tem toda essa riqueza que vc bem apontou no seu comentário.

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Ricardo Gelatti 24 de maio de 2017 - 10:38

O que fiquei encucado nesses dois primeiros episódios foram a fala do gigante pro cooper:

Ele está na nossa casa agora
Lembre-se 430
Richard e Linda, dois passarinhos com uma única pedra
Você está longe

E a da log lady para o Hawk dizendo que o que ele tem que encontrar tem a ver com a origem dele.

Detalhe pra primeira cena de nudezsexo na série, pelo que me lembro.

Vocês vão revisar os episódios na época que sair na netflix? Pq acho que já saíram 4 episódios, não é isso?

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Marta Souza 24 de maio de 2017 - 13:48

Ah então foi isso que aconteceu! Mas foram vazados ou é lançamento oficial? Na Netflix só tem 2!

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 13:59

Isso eu não faço ideia.

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gabriel vefago 24 de maio de 2017 - 22:17

A Showtime disponibilizou no seu serviço de streaming os episódios 3 e 4.

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 13:53

@ricardogelatti:disqus, essas falas também me encucam. Eu tô anotando todas para poder fazer relações à medida que as coisas começarem a se encaixar.

Eu vou fazer na época que lançarem na Netflix sim. Até porque não quero que acabe logo, daí nem vou atrás dos que lançarem fora da rede. Esperarei até a próxima segunda, mas confesso, com dor no coração ahhaahah

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Ricardo Gelatti 24 de maio de 2017 - 19:48

uahhua tb prefiro assim. Apreciar moderadamente, mas admito que ja baixei um release se bater uma síndrome de abstinência.

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Maze 24 de maio de 2017 - 04:17

Admito que fiquei meio assustada com esse tom misterioso, com elementos de eraserhead e estrada perdida. Mas cada vez que penso sobre essa nova temporada, acho melhor.

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 04:26

Tô indo por este mesmo caminho, @disqus_tKTUub8X3x:disqus. Eu normalmente gosto de tramas estranhas e admiro demais o cinema do Lynch, então eu não estranhei a dinâmica. Mas não esperava que essa nova versão tivesse ESSE NÍVEL de insanidade. Tô em estado de graça com essa temporada, já.

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rodrigocunha 24 de maio de 2017 - 01:35

Acabei de ver esse episodio 2. Ainda estou juntando os cacos do meu cérebro que ficaram esparramados no chão. Episódio nada menos que brilhante! E sinceramente, MEUS PARABÉNS pelas analises até agora. Estarei aqui nos comentários em todos os próximos episódios. Um abraço!

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Luiz Santiago 24 de maio de 2017 - 02:34

Muito obrigado, parceiro! Seja sempre muito bem-vindo ao Plano Crítico!
E cara, esses episódios me deixaram exatamente como você relatou: juntando os cacos do cérebro. Como é bom entrar nessa loucura de Twin Peaks de novo!

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gabriel vefago 23 de maio de 2017 - 11:12

Só me resta satisfação em acompanhar novamente as maluquices desse velho insano chamado David Lynch; Aqueles (como eu) que esperavam a mesma vibe da série clássica quebraram a cara, mas se olharmos bem no fundo, nas entrelinhas, ainda é Twin Peaks.

* A cena da Log Lady, em tom de despedida, foi de arrepiar.

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Luiz Santiago 23 de maio de 2017 - 15:49

Com certeza! Ele trouxe algo mais sombrio, colocando muito mais os embates entre o bem e o mal e mergulhando em um negócio de mistério + sci-fi + coisas sobrenaturais. Eu juro que não sabia o que esperar, mas imaginava que seria algo na linha da série original. Quebrei a cara. Da melhor maneira possível hahahahahahha.

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Marta Souza 24 de maio de 2017 - 13:49

Ainda mais a gente sabendo que a atriz faleceu. É mesmo muito de arrepiar.

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