Crítica | Um Alguém Apaixonado

estrelas 2,5

Abbas Kiarostami é conhecido por forçar o espectador a construir alguma coisa palpável durante a projeção de um filme seu, empreitada cujo objetivo é deixar que o público chegue sozinho a um final particular depois do final oficial. Essa abertura para o pós-filme tem se tornado cada vez mais presente na obra do diretor, que já nos convidava para co-escrever o roteiro em Cópia Fiel (2010), além de brincar com realidade e representação em uma viagem íntima realizada a dois. Agora, em Um Alguém Apaixonado, o cineasta iraniano também traz o amor para a pauta, mas a abordagem é mais complexa e mais exigente do que qualquer um de seus trabalhos anteriores.

Particularmente, tenho ressalvas quanto a essa nova fase de Kiarostami. Não me embasbaquei com Cópia Fiel, como foi o caso de muitos espectadores, críticos, amigos e veículos de imprensa em geral, assim como não me apeguei quase nada a essa nova obra do diretor. Gosto, é claro, dessa sua viagem pelo mundo físico e interior dos personagens, do trabalho de oposição entre o estar junto e o estar sozinho, uma dualidade que é explorada nas entrelinhas de seus roteiros e que se torna cada vez mais potente, embora singela na aparência. Também poderia citar o ponto de ruptura, onde tudo pode recomeçar ou terminar de vez — mas como o diretor já deixou bem claro em entrevista, seu filme “não começa nem termina“.

Um Alguém Apaixonado (2012) é uma dessas histórias kiarostamianas com direito a amor doentio, excelência na configuração técnica, incrível direção de atores e final aberto, o que de cara poderia afastar muitos espectadores, caso soubessem do abrupto e reticente modo como o diretor resolveu dar um “fim” aos acontecimentos da narrativa central. Aqui, uma primeira observação pode ser interessante, o problema não é o final aberto, é o momento escolhido e a ação daquele momento que tornam a opção menos simpática e quase despropositada.

Apesar disso, o roteiro delineia muito bem cada estágio dos protagonistas, apresentando-os (em especial Akiko) na primeira sequência, aprofundando suas questões psicológicas em todo o trajeto de táxi, enquanto ela ouve as mensagens da avó (uma sequência bastante dolorosa de se ver); o encontro com o professor de sociologia; o encontro do noivo com o professor de sociologia; a interferência cômica da vizinha e, por fim, o encontro do professor, do noivo e da protagonista. O filme é exatamente isso e, no que concerne à forma, durante toda a projeção, não peca. Ambientações de som, fotografia e arte parecem ser as coisas mais naturais nos filmes de Kiarostami e ainda assim, falam tanto que chegam a impressionar como se fossem elementos de uma mega produção.

Um Alguém Apaixonado é um filme com muitas camadas para ser explorada, mas que pode deixar um certo desconforto após a exibição. Espectadores preguiçosos e pouco atentos podem ter reações muito nervosas e acabar perdendo o que o filme tem de bom para mostrar. Todavia, munido dessas informações, é possível que um público mais desperto aproveite a parta boa da obra e aplauda o modo como a solidão, a obsessão, o medo e a mentira podem fazer parte de uma mesma história e ainda permitir que ela passe do romance para a comédia e daí para o drama. Não é um filme fácil ou uma obra-prima de Kiarostami (não para mim), mas certamente trará muita discussão para fora da sala após o último acorde da música que acompanha os créditos finais.

Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love) – França, Japão, 2012
Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Elenco: Tadashi Okuno, Rin Takanashi, Ryô Kase, Denden, Reiko Mori, Kaneko Kubota
Duração: 109 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.