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Crítica | Um Homem Bom

por Marcelo Sobrinho
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Se eu tivesse que escolher um filme sobre a ascensão do Terceiro Reich que considero muito subestimado pelo público e pela crítica, o primeiro título que me viria à cabeça seria Um Homem Bom, produzido em 2008, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim e protagonizado por Viggo Mortensen. Bastante criticado na época de sua realização por “seu ritmo enfadonho”, pela “falta de engenhosidade de seu roteiro” ou por “não desenvolver as ideias que enuncia”, o longa-metragem britânico foi desprezado em sua estreia e somente a atuação de Mortensen recebeu os devidos elogios. Nem o tempo fez jus ao filme de Amorim, que hoje, mais de uma década após seu lançamento, está praticamente esquecido pelo grande público e desperta interesses muito focais dentre aqueles que se atraem pelo tema da nazificação da Alemanha.

Há quem reclame que o tema da eutanásia, que surge marginal durante o filme e assim permanece por toda a projeção, deveria ter recebido um olhar mais atento dos roteiristas. Há quem reclame que as relações familiares de John Halder (Viggo Mortensen), professor universitário e escritor alemão que começa a ser seduzido pouco a pouco pelos nazistas, tem pouca importância na construção do protagonista. Há ainda quem acusa o filme de ser uma grande pilha de temas sobre o Terceiro Reich que jamais são desenvolvidos. Acho todos esses argumentos muito frágeis na leitura de Um Homem Bom. Sinto que a única pretensão do roteiro e do diretor era mesmo a de abordar como um homem bem intencionado, que inicialmente resiste tão bem ao crescimento da barbárie, pode se render a ela e tornar-se igualmente bárbaro. Para mim, o longa-metragem apenas passa por alguns temas não por considerá-los pouco importantes, mas por saber bem o que quer dizer e aonde pretende chegar, mesmo tendo que fazer alusão a alguns pontos fora desse escopo.

Um Homem Bom não é um filme sobre o mal em sua grande estrutura do poder nem sobre as suas vítimas. Se às vezes ele parece frio e algo calculista é porque ele não se debruça de fato sobre o sofrimento delas. Do mesmo modo, Hitler, Goebbels e Himmler são apenas nomes a que a obra faz referência, mas esses homens sequer aparecem no filme – nem mesmo em fotos, filmagens ou gravuras. Os campos de extermínio, que surgem no desfecho da obra, sequer são explicados e seu maiores horrores não são explicitados na tela nem referências (mesmo as mais sutis) se fazem a eles. Não, o filme não se acovarda, mas assume peremptoriamente o ponto de vista do personagem principal, que ainda não sabia de tudo o que acontecia ao seu redor, mas que vai assistindo in loco ao eclodir gradual do ovo da serpente. O sentimento de desorientação e de angústia vai tomando conta de Halder e o ritmo narrativo cadenciado, sem pressa, me parece ideal para engendrá-lo. O momento mais crítico, em que a consciência chega definitivamente para o personagem, é a cena final, que conta com um lindíssimo plano-sequência, em que a câmera parece tão atônita quanto ele, realizando panorâmicas de fazer prender a respiração.

O ambiente familiar de John Halder – que contém um casamento fracassado, uma esposa absolutamente relapsa, que passa todo o tempo arpejando irritantemente ao piano e uma mãe senil, que lhe demanda exaustivos cuidados – não pode ser desprezado como solo fértil à aceitação da barbárie. Indivíduos em vidas medíocres, ressentidos e melancólicos, são presas fáceis de regimes fascistas. O filme demonstra claramente como há um conjunto de coisas que levam um homem íntegro a aceitar o caos e as sombras. Infelicidades pessoais, ressentimentos históricos, aspirações profissionais e acadêmicas (o caso do filósofo Martin Heidegger não me deixa mentir) e o sentimento de que poderá haver compensações ao mal, nos tornam a todos bárbaros em potencial. Afinal, é sobre esse sentimento que a amante e depois esposa Anne (Jodie Whittaker) afirma: “um regime que faz as pessoas tão felizes não pode ser ruim”. Tornamo-nos verdadeiramente bárbaros quando não medimos mais os custos para atingir tal felicidade. É precisamente disso que trata o filme de Vicente Amorim, ainda que não seja tão didático.

Ainda que o filme recorra a algumas passagens quase caricaturais para tratar desse ambiente, que convenceu um homem tão lúcido e intelectualizado a aderir à barbárie, acho seu ritmo, sua construção narrativa (em que os próprios personagens nazistas são anônimos, trazendo à baila a questão da banalidade do mal) e seu fechamento precisos o suficiente para dar o seu recado. Em seu miolo, também não faltarão diálogos inspirados entre Halder e seu amigo judeu Maurice (Jason Isaacs). Quem souber dar uma chance a Um Homem Bom, sem exigir dele mais do que a própria obra se pretendeu a entregar, certamente tirará proveito de um filme competente em advertir sobre o modus operandi da barbárie. Sobre os seus métodos para nos fazer a todos não só cúmplices, mas agentes dela. Há claramente durante o filme certa anestesia na admissão do mal. Anestesia prolongada o bastante para que, somente em sua última fala, Halder expresse a consciência total do que fizera: “É real!”. Não há mesmo outra conclusão possível depois de assistir a essa subestimada obra. O mal é real e a civilização, um desafio muitas vezes fracassado.

Um Homem Bom (Good, Reino Unido – 2008)
Direção: Vicente Amorim
Roteiro: John Wrathall
Elenco: Viggo Mortensen, Jodie Whittaker, Jason Isaacs, Mark Strong, Anastasia Hille, Gemma Jones
Duração: 95 minutos

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