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Crítica | Uma História Real (1999)

por Fernando Campos
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Quando um diretor adquire um estilo cinematográfico marcante, é normal esperar por determinadas características, ao assistir seus filmes. Baseado nisso, David Lynch é reconhecido por ser um dos diretores mais peculiares e inventivos do cinema americano, ou seja, sempre esperamos momentos de surrealismo e bizarrice em suas obras. Portanto, não deixa de ser engraçado atestar que, após longas como Veludo Azul e Eraserhead, o cineasta nos surpreenda em Uma História Real, ao trazer um trabalho contido, intimista e tocante, características opostas ao que conhecemos da filmografia de Lynch. Mesmo assim, o filme analisado a seguir possui uma única semelhança com os demais da carreira do diretor: a extrema competência.

A obra conta a história de Alvin Straight (Richard Farnsworth), um homem de 73 anos que efetua uma jornada de centenas de quilômetros usando um cortador de grama como transporte, para fazer as pazes com o irmão que está gravemente doente. Ao ler a sinopse, a trajetória de Alvin pode soar absurda demais para ser verdade, mas, como o título inteligentemente destaca, a trama é verdadeira. Porém, o roteiro, escrito por John Roach e Mary Sweeney, utiliza a viagem peculiar não apenas para explorar o relacionamento do protagonista com seu irmão, pelo contrário, temos aqui um road movie intimista, tornando a viagem um verdadeiro mergulho no passado e em traumas do personagem principal.

De maneira episódica, a obra mostra Alvin encontrando pessoas diferentes pela estrada, utilizando estas oportunidades para dividir experiências e dar conselhos baseados em sua experiência de vida; e são justamente nessas cenas que conhecemos o personagem e os ocorridos que lhe deram tamanha sabedoria. Porém, apesar de ser um road movie, não há velocidade alguma em Uma História Real; Lynch inteligentemente opta por um ritmo vagaroso e paciente que permite ao público absorver cada mensagem transmitida, percebendo como os longos anos de vida do protagonista o desgastaram.

Aliás, a obra também é um estudo sutil sobre a velhice, destacando como o tempo traz sabedoria, mas, ao mesmo tempo, acarreta em diversos arrependimentos por atos cometidos ao longa da jornada. Inclusive, há falas contundentes e reflexivas de Alvin sobre o tema, como na cena em que ele diz ‘‘a única vantagem de ser velho é saber que não há mais nada de novo para ver na vida’’.

Se não bastasse a serenidade do filme, o roteiro ainda apresenta a viagem do protagonista em seu cortador de grama como uma espécie de desconstrução do orgulho, tanto para Alvin quanto para o próprio público, visto que não deixa de ser engraçado acompanhar aquele senhor andando lado a lado com carros, em um veículo tão curioso. Contudo, o que a trama nos ensina é que, mais importante do que o meio de transporte, é saber desfrutar da viagem (mensagem que também serve como alegoria para a própria vida), por isso, Lynch traz vários planos gerais para destacar a beleza das paisagens que cercam Alvin.

Devido a proposta do longa, Lynch entrega uma direção que destoa das demais em sua carreira, mas, ainda assim, é completamente eficiente, optando por composições abertas (como já foi dito), criando composições de encher os olhos e utilizando movimentos de câmera suaves, tornando a experiência de assistir ao longa acolhedora e agradável. Apesar disso, há uma única cena frenética, mostrando o cortador de grama em uma descida, que também merece aplausos. Um destaque fica para a estupenda trilha sonora, composta por Angelo Badalamenti, utilizando em sua maioria instrumentos de corda, do violão ao violino, para criar faixas com estilo característico do interior dos Estados Unidos e inserindo com precisão o tom inspirador e intimista do longa.

Outro ponto alto é a sensível atuação de Richard Farnsworth, com uma composição que traz Alvin como um sujeito cansado, amargurado com a vida, mas extremamente sábio, com um timbre de voz pausado, mas imponente. Já Sissy Spacek também possui bons momentos, mas, infelizmente, sua personagem não ganha destaque como o início sugere, soando até como uma personagem subutilizada.

O fato é que Uma História Real poderia, tranquilamente, ser transmitido na Sessão da Tarde, por exemplo, tamanha a leveza do filme. Contudo, a simplicidade da obra não a torna menor dentro da filmografia de David Lynch, muito pelo contrário, Uma História Real mostra como o diretor pode ser um artista tão versátil quanto é talentoso.

Uma História Real (The Straight Story) – EUA, Reino Unido e França, 1999
Direção: David Lynch
Roteiro: John Roach, Mary Sweeney
Elenco: Richard Farnsworth, Sissy Spacek, Harry Dean Stanton, Everett McGill, John Farley, Kevin P. Farley, Jane Heitz, Joseph A. Carpenter, Donald Wieggert, Tracey Maloney, Don Flannery
Duração: 111 min

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3 comentários

JC 4 de janeiro de 2021 - 14:56

FINALMENTE assisti a esse filme ontem.
Que maravilhoso! 🙂
Nossa, mega tocante, super suave…e que trilha sonora mais maravilhosa.
Minha nossa!

Responder
Luiz Santiago 27 de julho de 2017 - 15:17

Quando eu vi este filme pela primeira vez eu juro que voltei para os créditos iniciais e confirmei se era mesmo do Lynch. Depois fui ver o DVD. Tava o nome dele lá. “Estranho”, pensei. “Muito estranho”. Fui pra internet — na época discada. Também dizia a mesma coisa. E tive que aceitar que era mesmo. E QUE FILME! A delicadeza ao mostrar essa briga entre irmãos e o modo como ela é abordada, dentro de questões de velhice e amadurecimento foi algo que me tocou demais.

Sua ótima crítica destacou bem as mudanças de estilo e tema do diretor. Este filme e “O Homem Elefante” são os mais normais dele, e mesmo fora do “normal” para ele, são ótimos filmes. Nunca que eu imaginaria que Lynch fosse capaz de algo tão fofo quanto esse filme.

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Fernando Campos 27 de julho de 2017 - 17:58

Se eu tivesse assistido sem saber o diretor e me pedissem para adivinhar quem dirigiu, teria chutado o nome de mil diretores e não chegaria no de Lynch. E isso só mostra o quão versátil ele pode ser!

Aliás, confesso que gostaria de vê-lo fugindo de seu estilo mais vezes, acho que renderia ótimos filmes. Pena que, pelo jeito, ele vai ficar só na TV mesmo.

Obrigado pelo elogio sobre a crítica! Fico muito feliz que tenha gostado, principalmente porque é um filme que você admira.

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