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Crítica | Velhos Bandidos

Cinismo maneirista faz uma chanchada divertida.

por Davi Lima
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Velhos Bandidos

O cinismo do Brasil em envelhecimento demográfico por meio do farsesco cinema de roubo que tanto Hollywood ensinou, misturado com um tom de chanchada moderna, da comédia que ri da situação institucional de preservação dos idosos no país. A história conta sobre um jovem casal de furtadores chamados Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta) das casas de idosos, que se veem numa cilada, pois agora eles teriam que assaltar algo mais difícil, trabalhando para um casal de idosos que eles tanto passavam a perna: Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura). E no meio disso tudo, surge um delegado em aposentadoria chamado Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos), que pode atrapalhar todo o plano “geriátrico” forjado.

É um filme de Claudio Torres, que sabe humorizar as tendências nacionais, enquanto filma como um cinema americano publicitário em seus exageros e de elenco estrelado. A fotografia saturada e o tom moralizante, num drama no limiar da ironia e da farsa, ainda que dependendo de uma câmera lenta e de um close-up novelesco; é um mix de cinema clássico ainda no Brasil e o engajamento estilístico dos EUA. A música de Louis Armstrong “What a Wonderful World”, cantada por Marisa Monte ao final do filme, retrata bem esse tema irônico e cínico do filme. Ele ainda preserva uma certa inocência, ainda mais quando deixa os atores mais experientes como Montenegro e Fontoura transformarem o texto em disfarce para seus assaltos. Marquezine e Brichta se tornam aprendizes disso, ajudando no desenvolvimento dos quatro personagens em retroalimentação de atuação cômica e dramática.

Embora o drama seja bem chinfrim, o filme reconhece isso e evita planos óbvios demais, para não aumentar o melodrama. Quando há um exagero novelesco, existe um pastiche temporal, seja de flashback, seja de flashforward. Talvez Lázaro Ramos seja o mais exigido nessas dinâmicas temporais. O que peca mesmo no roteiro é lidar com o tema do envelhecimento sem enveredar na coragem de uma comédia de punição mais assumida, entregando ao público a tal dinâmica de aprendizado nacional, do tipo que idosos sempre estão ensinando algo. Não deixa de ser um tom americano, ou até mesmo um olhar cuidadoso para um filme com cara de caro para alçar mais público, assim como Claudio Torres bem conseguiu com Homem do Futuro e Mulher Invisível.

Apesar disso, como cinematograficamente Torres faz uma comédia de grife, ele se alinha ao entretenimento do cinema nacional da nova era de influência do streaming, agregando grandes atores que, no final, ressoam para o público a qualidade das cenas de comédia, principalmente. Eles são o que vão levar o público para assistir, assim como Selton e Giovanna em Mulher Invisível, e Wagner Moura e Alinne Moraes. Bruna e Brichta entram nessa vibe, só que por baixo dos idosos famosos da novela e do cinema. É um diferencial que rima com a demografia nacional e os escândalos do INSS sem tirar nem pôr.

Afinal, essa pode ser a vingança contra bancos e corrupção do governo. Isso é uma boa chanchada, que dá riso ao público com os tons decadentes da instituição. Vem a calhar bem nesse momento: idosos espertos que se salvam, enfim, no Brasil. E mais ainda, ter um delegado em aposentadoria e um roubo de uma ambulância, do jeito cômico, muito literalizado com o gás do riso, do jeito que é feito, dá novos ares ao comentário do envelhecimento do Brasil. Se toda a equipe do assalto ao banco no filme é composta por Vera Fischer, Tony Tornado e Reginaldo Faria, nada mais novelesco e envelhecido o cinema nacional numa obra tão quadrinesca.

Velhos Bandidos – Brasil, 2026
Direção: Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres, Fábio Mendes, Renan Flumian
Elenco: Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos, Hugo Bonèmer, Reginaldo Faria, Vera Fischer, Laila Garin, Dhara Lopes, Hamilton Vaz Pereira, Teca Pereira, Mary Sheila, Nathália Timberg, Tony Tornado, Guida Vianna
Duração: 93 minutos

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