Crítica | Vingadores Selvagens: Vol. 1 – Cidade das Foices

O brasileiro Mike Deodato Jr. despede-se da Marvel Comics para dedicar-se a projetos autorais com Vingadores Selvagens, um dos mais aguardados títulos novos da editora que reúne, em um grupo só, os mais sanguinários anti-heróis desse universo, incluindo e, especialmente, ninguém menos do que Conan, o Bárbaro, que voltou para sua casa original de quadrinhos em janeiro de 2019, depois de décadas na Dark Horse Comics. O resultado, mesmo que escrito pelo pouco inspirado Gerry Duggan, é exatamente o que se poderia esperar desse encontro: sangue, tripas e armas de todo o tipo em uma sucessão insana de violência para divertir os leitores e horrorizar os pudicos.

Para quem não sabe, Conan está no presente do universo Marvel desde abril, quando a minissérie semanal No Road Home acabou e ele foi deixado, sozinho, na Terra Selvagem, lugar que, claro, é perfeito para o halterofilista de tanga e espada. Duggan, então, aproveita essa oportunidade para juntá-lo com um time que é fofura pura: Elektra, Justiceiro, Venom, Wolverine e Doutor Vudu. Claro que o último personagem está um tanto quanto deslocado, mas, como era necessário um herói místico, ele foi o escolhido por ser mais low profile do que, por exemplo, o Doutor Estranho.

Como todo arco que se dedica a criar um grupo novo, somos apresentados a um pano de fundo razoavelmente simples – um mago, com a ajuda do Tentáculo, tenta conjurar um demônio alienígena na Cidade das Foices, na Terra Selvagem e, para isso, precisa sacrificar seres humanos de destaque e/ou poderosos – que funciona como a “cenoura” para atrair cada um dos componentes da equipe, cada um com sua razão específica. Conan quer roubar um amuleto, Wolverine investiga o paradeiro de um amigo, Elektra vai atrás do Tentáculo e assim por diante, o que leva ao usuais combates breves de apresentação e a formação da aliança final.

Confesso que esperava algo mais rasteiro vindo de Duggan, mais ou menos na linha da decepcionante saga Guerras Infinitas, mas, para minha surpresa, o autor consegue ir um pouco além, entregando uma história que vai ganhando complexidade e que não se furta de fazer uso de elementos realmente macabros e doentios, como a forma como Frank Castle é atraído para a armadilha ou uma determinada “operação” que Wolverine faz em Vudu. Além disso, o grande vilão – e não, não é spoiler – o feiticeiro Kulan Gath, eterno nêmesis de Conan, empresta uma dimensão maior ao arco e, no cliffhanger, promete um futuro expansivo para essa série, ainda que eu não consiga vislumbrar como essa equipe permanecerá junta por tempo indefinido para justificar uma publicação mensal contínua.

Minha maior reclamação em termos narrativos é que quase toda a violência é cometida contra os ninjas vermelhos genéricos do Tentáculo, tornando muito fácil o empilhamento de corpos por uma equipe que, junta, provavelmente já matou o equivalente à população da China ao longo das décadas. Mas não tinha muito jeito, na verdade, e Duggan precisava arrumar buchas de canhão razoáveis para garantir que as páginas sangrassem e os ninjas até que funcionam razoavelmente bem.

Mike Deodato entrega um trabalho muito bonito e dinâmico, não economizando em momentos icônicos de ação violenta extrema. Sua pegada em relação aos personagens é belíssima e poderosa, especialmente Conan e Wolverine, que formam a primeira dupla do arco. Seu comando da progressão narrativa, com o uso de quadros variados é espetacular, tornando fácil a leitura e chamando atenção para a história mesmo nos momentos mais óbvios ou clichês do texto de Duggan, em um daqueles exemplos de arte que amplifica a experiência.

A ideia de se juntar os maiores assassinos do Universo Marvel em uma equipe de “Vingadores” (as aspas se justificam, pois eles não são exatamente Vingadores) é simples e, francamente, deliciosa. Duggan e Deodato, em mais uma parceria, criam uma boa desculpa para essa improvável reunião e entregam até mais do que se poderia esperar. Mesmo não vendo como essa publicação perdurará por muito mais do que alguns poucos arcos, a julgar pelo que Cidade das Foices apresenta, a jornada será muito divertida e muito, MUITO sangrenta.

Vingadores Selvagens: Vol. 1 – Cidade das Foices (Savage Avengers: Vol. 1 – City of Sickles, EUA – 2019)
Contendo: Marvel FCBD 2019 e Savage Avengers #1 a 5
Roteiro: Gerry Duggan
Arte: Mike Deodato Jr.
Cores: Frank Martin
Letras: Travis Lanham
Editoria: Tom Brevoort, Alanna Smith, Shannon Andrews Ballesteros
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação (em banca): 1º de maio a 4 de setembro de 2019
Páginas: 123

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.