O design de produção, também conhecido como direção de arte, é uma das áreas mais fascinantes e cruciais da indústria cinematográfica, sendo responsável pela concepção e realização da estética visual de um filme. É um setor que não apenas define a aparência física dos ambientes e personagens, mas também serve como uma ferramenta poderosa para contar histórias, evocar emoções e criar atmosféricas. O design de produção engloba uma variedade de elementos, desde a escolha de cores, texturas e móveis, até a criação de cenários completos que ajudam a transportar o público para diferentes épocas e locais. Para Psicopata Americano, o designer de produção Gideon Ponte concebeu cuidadosamente os cenários e a direção de arte, num profícuo diálogo com a direção de fotografia, tendo em vista entregar visualmente os elementos que compõem as dimensões pessoais, sociais e psicológicas do protagonista interpretado por Christian Bale.
Importante ressaltar que o designer de produção é o profissional encarregado de desenvolver a visão visual de um filme, trabalhando em estreita colaboração com o diretor e outros membros da equipe criativa. O designer de produção é responsável por criar o mundo em que a narrativa se desenrola. Essa função requer uma combinação de habilidades artísticas, compreensão técnica e, muitas vezes, um profundo conhecimento histórico e cultural. Assim que o roteiro é finalizado, o designer de produção começa seu trabalho, analisando a história, os personagens e o ambiente. A partir dessa análise, ele cria um conceito visual que guiará todas as decisões posteriores. Isso pode incluir esboços, maquetes e apresentações visuais para comunicar suas ideias à equipe de produção. O seu diálogo com Andrzej Sekula foi fundamental para a concepção visual de Psicopata Americano. O processo de design de produção geralmente começa com a pesquisa. O designer de produção investiga a época, o local e o contexto cultural em que a história se passa. Isso pode envolver visitas a museus, leitura de livros ou entrevistas com especialistas. Uma busca meticulosa por referências visuais é fundamental para garantir que os elementos criados sejam autênticos e coesos.
Após a pesquisa, o designer cria storyboards e mood boards, que são coleções de imagens, texturas, cores e formas que ajudam a definir o tom e a atmosfera do filme. Os storyboards, em particular, são fundamentais, pois ilustram a sequência de cenas e como os elementos visuais se encaixam na narrativa. O design de produção se manifesta principalmente através da criação de cenários e ambientes. Isso envolve o planejamento de espaços físicos onde as cenas do filme são filmadas. O designer trabalha em conjunto com a equipe de construção para criar sets que podem variar de simples interiores a fortificações ou cenários naturais imensos. No caso de Psicopata Americano, a maioria dos cenários aproveitam estruturas já prontas, adaptadas para o contexto da narrativa. Importante lembrar que além dos ambientes físicos, o design de produção também inclui a escolha de locações. Muitas produções optam por filmar em locais externos que oferecem uma estética natural, enquanto outras preferem sets construídos em estúdios para ter mais controle sobre os elementos visuais. Independentemente da abordagem, a escolha do ambiente deve sempre estar alinhada com a visão do filme e a história que está sendo contada.
As cores e texturas desempenham um papel significante no design de produção. Elas são utilizadas para evocar emoções e criar uma associação visual com os temas do filme. Por exemplo, cores frias podem transmitir uma sensação de tristeza ou solidão, enquanto cores quentes podem sugerir felicidade ou calor. Os designers de produção devem ter um entendimento refinado da teoria das cores e de como elas impactam a percepção do público. Como destacado antes, o design de produção não funciona em um vácuo; é altamente colaborativo. O designer de produção trabalha em conjunto com vários outros departamentos, como figurino, maquiagem, iluminação e cinematografia. Cada um desses departamentos traz sua própria expertise, e a colaboração eficaz entre todos é essencial para unir a visão do filme. Por exemplo, o design de personagens em figurino deve estar em harmonia com os cenários criados pelo designer de produção. Uma vestimenta que não se encaixa no ambiente visual pode quebrar a imersão do espectador na história. Além disso, as escolhas de iluminação podem alterar drasticamente a aparência de um set, e o designer de produção deve estar envolvido na discussão de como a luz interage com os espaços que criou. Essa sinergia, em Psicopata Americano, é exposta em cena com muito esmero pelos realizadores, cuidadosos na dinâmica dos detalhes.
Para uma reflexão mais didática, deixo em tópicos alguns pontos preponderantes para um design de produção eficiente no âmbito cinematográfico. Observem:
Direção de Arte: A direção de arte é responsável pela criação do visual do filme, incluindo cenários e elementos visuais. Sua contribuição é fundamental para estabelecer o tom e a atmosfera, impactando diretamente a forma como a audiência percebe a história. Cada detalhe, desde a escolha das cores até a decoração dos ambientes, comunica algo sobre os personagens e suas emoções. Os objetos que compõem o apartamento de Bateman definem bem a sua personalidade opulente, como destacado logo mais em alguns quadros.
Cenografia: Os cenógrafos projetam e constroem os sets onde a história se desenrola. Uma cenografia bem planejada não apenas contextualiza a narrativa, mas também pode servir como uma extensão dos personagens. Por exemplo, um ambiente desordenado pode refletir um estado mental conturbado, enquanto um espaço impecável pode transmitir controle e ordem, como é o caso do impecável ambiente simétrico do apartamento de Bateman.
Figurinos: O figurino ajuda a definir a identidade visual dos personagens e pode ser usado para simbolizar transformações ou arcos narrativos. A escolha de roupas, acessórios e até mesmo a paleta de cores pode expressar características pessoais e sociais, ajudando a audiência a entender melhor a evolução dos personagens ao longo da trama. Os ternos, as gravatas falocêntricas e os seus calçados delineiam em imagens as suas dimensões psicológicas.
Maquiagem e Hair Styling: A maquiagem e o styling de cabelo podem transformar um ator em um personagem e influenciar a percepção do público sobre a sua jornada. A aplicação de efeitos especiais, por exemplo, pode aumentar a compreensão de mudanças físicas e emocionais, como envelhecimento ou alienação. Bateman, em cena, está sempre impecavelmente penteado, maquiado e ordenado, com exceção das passagens onde a perda de controle se estabelece e o sangue, geralmente em contraste com os espaços de cores mais neutras, se destaca.
Locação: A escolha das locações pode impactar a narrativa de maneira significativa, fornecendo autenticidade e contexto. Locais reais podem fornecer uma sensação de veracidade que cenários criados digitalmente podem não conseguir alcançar. A locação também pode influenciar o estado emocional das cenas, como uma paisagem desértica que evoca solidão. Em Psicopata Americano, temos como principais espaços de interação entre os personagens: o apartamento de Bateman, o escritório, alguns restaurantes e as ruas sombrias da cidade, em sua maioria, contemplada em passagens noturnas.
Iluminação: Embora muitas vezes associada à direção de fotografia, o design de iluminação também desempenha um papel crucial no design de produção. A iluminação pode definir a atmosfera de uma cena, ajudar a transmitir emoções e guiar a atenção do público. Uma luz suave pode criar um sentimento de conforto, enquanto sombras escuras podem evocar suspense ou mistério. A iluminação, em especial, nas cenas de contemplação do corpo de Patrick Bateman, num destaque para a sua postura hedônica, funciona como um importante elemento narrativo.

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E, para encerrarmos essa reflexão panorâmica, os espelhos podem ser considerados os principais elementos simbólicos da narrativa. Desde sempre, os espelhos têm sido uma ferramenta poderosa na cinematografia, não apenas como objetos de decoração, mas como elementos narrativos que refletem e ampliam a complexidade das histórias e dos personagens. Ao longo da história do cinema, seu uso vai além da simples reflexão da imagem. Em casos como a concepção narrativa de Psicopata Americano, os espelhos se eles apresentam como símbolos de dualidade, introspecção e verdade oculta, elementos que compõem a formação da personalidade de Patrick Bateman, afinal, esses recursos da direção de arte funcionam como metafóricos para a identidade e a autoimagem do protagonista, num esquema de escolhas artísticas que desempenham um papel crucial na construção da tensão dramática.

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Quando Bateman é contemplado diante de espelhos ao longo dos 104 minutos do filme, ele não está apenas diante de um espaço físico, mas em um campo de batalha psicológico. A reflexão que o espelho proporciona serve como um lembrete constante de quem ele é ou do que se tornou, intensificando a luta interna e, muitas vezes, a ambivalência moral do personagem. Isso incentiva o espectador a considerar as implicações éticas e emocionais do que está se desenrolando na tela. A utilização de espelhos, como nós podemos observar em alguns quadros destacados por aqui, auxilia na estética do filme, criando imagens visualmente impressionantes que permanecem na memória do espectador. Cineastas como Alfred Hitchcock utilizaram espelhos não apenas para simbolizar temas complexos, mas também para criar cenas visualmente cativantes que elevam a narrativa cinematográfica. A leve dissonância entre o que o espelho reflete e a realidade pode criar uma estranha beleza, intensificando a experiência sensorial do espectador. Mary Harron e sua equipe técnica, que traz o brilhantismo do design de produção de Gideon Ponte, seguem esse caminho. Em linhas gerais, caro leitor, os espelhos na cenografia de um filme são mais do que meros itens físicos; eles são instrumentos essenciais que refletem e simbolizam a complexidade das narrativas, personagens e situações. Por meio da sua utilização, cineastas podem explorar questões profundas de identidade, moralidade e a natureza da realidade. O impacto visual e emocional que os espelhos proporcionam contribui não apenas para a estética do filme, mas também para sua profundidade narrativa, como acontece em Psicopata Americano.
