Foram elegíveis para esta lista, apenas: o que foi OFICIALMENTE lançado nos cinemas brasileiros em 2025; o que foi lançado nos streamings e VODs OFICIALMENTE acessíveis no Brasil em 2025; o que foi exibido OFICIALMENTE em Festivais brasileiros em 2025 ou filmes de festivais que foram OFICIALMENTE acessíveis a partir do Brasil.
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Minhas credenciais cinéfilas neste ano, de acordo com meu letterboxd, seguem adiante: vi cerca de 168 filmes, sendo 55 deles aptos para essa lista uma vez que foram lançados oficialmente no Brasil em 2025. Minha seleção de filmes favoritos deste ano, infelizmente, está bem menos plural que a dos últimos anos em termos de diversidade de países e temas. Minha lista está bastante dominada por filmes hollywoodianos, que em grande parte receberam investimento e divulgação minimamente consideráveis. Prometo para o próximo ano explorar de forma mais exaustiva filmes fora do eixo americano (olha uma meta de 2026 já aparecendo aí). O lado bom é constatar que em 2025 Hollywood realmente produziu muita coisa interessante, ainda que poucos deles tenham obtido um bom retorno nas bilheterias.
Existem dois destaques bem claros que preciso fazer. Primeiro, sou um grande fã de terror e tivemos um dos melhores anos recentes para o gênero, na minha humilde opinião. Tanto que encontrará filmes do gênero entre as primeiras posições da minha lista. Segundo, nunca fui um fã inabalável de Kleber Mendonça Filho, mas a experiência de O Agente Secreto é nada menos que extraordinária, um verdadeiro orgulho para o cinema nacional e que diz muito sobre o povo brasileiro.
Por fim e para além do terror, o bom e velho drama clássico também me conquistou esse ano. Seja por mais um belo conto marginal de Sean Baker (que já é um dos meus diretores preferidos da atualidade), ou o retorno de Paul Thomas Anderson com um dos melhores de sua carreira. Um padrão interessante é como pelo menos três obras de minha lista aprofundam muito bem na polarização, nas hipocrisias e dilemas da sociedade americana. Mas como nem só de crítica social vive o homem, minha lista ainda conta com dois acertos em cheio de duas franquias divertidíssimas em 2025. Confira logo a seguir minha seleção e deixe seus comentários!
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10º – A Ordem
Justin Kurzel | Canadá, Estados Unidos, Reino Unido | 2024

A Ordem não é um filme fácil. É denso, incômodo e desprovido de alívio. Em tempos em que ideologias extremas voltam a circular com novas roupagens, revisitá-las no contexto de sua gênese histórica é um ato de lucidez. O filme mostra que o terror não nasce do nada, é cultivado em discursos, legitimado por omissões e normalizado pela indiferença. No cômputo geral, ainda penso que o material não foge tanto de ser um eficiente thriller policial, com personagens convencionais (mas ainda bons dentro de clichês, vale ressaltar), mas com um contexto político e social que ajuda a tornar a produção uma discussão que vai além da perseguição de gato e rato da trama. No meio da busca policial, temos o retrato de um país à beira de um colapso moral, e de um homem tentando contê-lo enquanto ainda acredita em instituições que já começaram a ruir.
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9º – A Verdadeira Dor
Jesse Eisenberg | Estados Unidos, Polônia | 2024

Eisenberg obriga o espectador a carregar as mesmas incertezas e dilemas de seus personagens, fazendo com que o desconforto não termine com os créditos, mas continue ressoando como uma melodia interrompida, como uma valsa de Chopin pairando no ar, como uma estadia longa num aeroporto barulhento. Em vez de buscar um encerramento catártico, o diretor nos lembra que a dor — real ou metafórica — não desaparece com o tempo, apenas se transforma, moldando nossas relações, lembranças e escolhas de formas que nem sempre podemos compreender. Contudo, essa história de deslocamento, memória e descoberta é bem mais interessante em suas potencialidades do que no real conjunto do longa, que é bom, mas não extraordinário (algo que também digo da atuação de Kieran Culkin, por sinal). Mesmo assim, ela nos faz refletir que a redenção honesta não está em superar todo o passado, mas em aceitar o fato de que ele jamais deixará de nos acompanhar. Será um parceiro incômodo que, se verdadeiramente compreendido, não atrapalhará a nova vida que possivelmente surgirá depois de identificada e discutida a verdadeira dor.
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8º – Extermínio: A Evolução
Danny Boyle | Reino Unido, Estados Unidos | 2025

Em linhas gerais, se o primeiro Extermínio revitalizou o subgênero de terror ao introduzir uma nova dimensão à metáfora de que os verdadeiros monstros são, muitas vezes, a própria humanidade, nesta sequência, as deslumbrantes paisagens das montanhas escocesas que emolduram a história, apresentadas por meio da direção de Danny Boyle, que se mostra madura e eficaz, criando a tensão necessária para um filme de terror impactante. Ao reimaginar os zumbis como uma ameaça rápida e implacável, Extermínio: A Evolução não só reforça a pertinência de seu discurso no contemporâneo, numa produção de entretenimento que também reflete sobre a natureza humana em um cenário de desespero e sobrevivência. É um filme que se destaca por combinar ação, emoção e uma crítica social pertinente em um ambiente aterrorizante. Os realizadores evitam as armadilhas da nostalgia pura e apenas à serviço dos fãs, entregando uma jornada de horror que também toca nas cordas sensíveis de nossa existência, tal como luto e amadurecimento diante das tentativas e erros.
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7º – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
Rian Johnson | Estados Unidos | 2025

Se Glass Onion era o excesso autoconsciente do espetáculo, Vivo ou Morto é o recuo contemplativo que ainda não encontrou sua forma definitiva. Não é um fracasso, tampouco um retorno à excelência do primeiro filme. É uma obra irregular, ambiciosa e interessante, que sugere caminhos novos para Benoit Blanc, mas ainda tropeça na própria necessidade de provar o quanto é inteligente. Ainda é um bom filme porque o diretor/roteirista segue afiado em determinados momentos, sabe como construir puzzles que chamam a atenção e tem um uso esperto, ainda que já meio cansado, dos clichês desse tipo de trama. Talvez o verdadeiro mistério da franquia Knives Out, neste ponto, seja descobrir quando Rian Johnson permitirá que suas histórias respirem sem precisar se explicar tanto.
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6º – Valor Sentimental
Joachim Trier | Noruega, França, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Reino Unido | 2025

No balanço, Valor Sentimental é um filme maduro, engraçado quando precisa ser, triste sem chantagem emocional e tecnicamente refinado de ponta a ponta. Ele talvez não vá até o fundo do poço emocional que insinua, mas talvez essa seja a escolha estética de Trier: filmar a dor com a mesma civilidade e sutileza com que a família tenta esconder que está quebrando. Mesmo com suas contenções, fica a sensação rara de ver um drama que entende que memória não é passado: é uma casa em que a gente continua morando, mesmo quando diz que já foi embora.
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5º – O Agente Secreto
Kleber Mendonça Filho | Brasil, França, Países Baixos, Alemanha | 2025

No entanto, um encerramento menos do que perfeito de um épico de outra forma quase irretocável não é um problema realmente sério e O Agente Secreto triunfa como um thriller de queima lenta que nos deixa ver um aspecto pouco explorado da ditadura em meio a uma história carregada de vigor narrativo e apuro estético, com um fenomenal trabalho dramático de Wagner Moura. Kleber Mendonça Filho, com “apenas” seis longas em sua filmografia, sedimenta-se como um daqueles raros cineastas modernos incapazes de oferecer menos do que pérolas cinematográficas aos espectadores, algo que já fica evidente aqui antes mesmo de a cena no posto de gasolina de beira de estrada acabar, mas que é reiterado sucessivas vezes até os créditos começarem a subir.
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4º – Uma Batalha Após a Outra
Paul Thomas Anderson | Estados Unidos | 2025

Mesmo assim, o saldo final é mais do que positivo. Uma Batalha Após a Outra é uma obra ambiciosa, cheia de destaques formais e com uma tremenda energia narrativa, que arrisca sem perder a coesão, que mistura humor, choro e tensão de forma ousada, até mesmo flertando com a sátira. É um filme que seduz pela sensação de que o cinema ainda pode ser aventura e ideologia, não apenas espetáculo vazio, caminhando num terreno atualmente quase infértil entre crítica social e cinema inventivo. Se não é obra-prima, é obra grande; e obras grandes merecem ser vistas, debatidas, somadas e inspiradas. Gosto de pensar que, para Anderson, esse é o filme em que ele tomou o caos como matéria-prima. E, mesmo entre tropeços, deu certo.
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3º – Anora
Sean Baker | Estados Unidos | 2024

Após uma montanha-russa de emoções, a protagonista não sabe realmente o que fazer. Ela tenta encobrir seus sentimentos e traumas através do sexo banal, mas com Igor, isso não é possível, existe uma barreira que ela não consegue ultrapassar. E então é forçada a olhar para dentro e colocar para fora o que estava guardado. Sean Baker deixa para o final a real manifestação da alma da personagem principal, retirando dela o véu do confronto, da força, deixando-a completamente desarmada diante do silêncio honesto, após a perda de uma vida de luxo e a possibilidade do encontro de um verdadeiro parceiro para a vida. Talvez o único momento de honesta realização que Anora teve em muito tempo. Uma realização diante da qual faz todo sentido chorar.
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2º – A Hora do Mal
Zach Cregger | Estados Unidos | 2025

Chegar ao ápice da história, quando a linha entre o humor mórbido e o absurdo, as alegorias visuais e o sentido por trás do título tomam forma, é quase como ver um novo clássico do terror surgindo. Cregger faz um conto suburbano sobre crianças desaparecidas, pais paranoico e luto ser uma das melhores adaptações de King sem ele sequer ter escrito, mas adicionando a isso uma proposta narrativa inventiva que se choca com desfecho inesperado. É ótimo ver que mesmo a reviravolta estando em alta, de alguma forma, o ato final como o momento de explorar o conceito tem voltado — a exemplo de Pecadores — por isso, o que Cregger faz nesse desfecho é algo inesperado, insano e impagável em um nível sombriamente cômico e ousado como se O Iluminado encontrasse Madrugada dos Mortos. Em suma, Weapons é masterpiece.
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1º – Pecadores
Ryan Coogler | Estados Unidos | 2025

Mesmo com essas ressalvas, Pecadores é inegavelmente uma obra que foge do padrão para seu típico filme vampiresco, não tanto pelas criaturas ou a mitologia em torno delas, mas do que está por trás do terror e do ataque dos bebedores de sangue, que, aqui, representam destruições de outra ordem, acompanhados por um trabalho musical e histórico que encanta em suas sensações líricas e que te faz pensar em seu subtexto denso e rico. Ryan Coogler sempre foi um diretor que soube andar entre o autoral e o enlatado de grandes franquias, então é apropriado que sua primeira obra de grande porte completamente (ou pelo menos parcialmente, porque ainda é um filme de um grande estúdio) sem amarras seja sua produção tematicamente mais madura, profunda e provocativa, além de ser muito divertido de assistir em toda sua variedade de estilos e mistura de narrativas. Quando o pesadelo acaba, a resistência cultural e social parece ter uma vitória agridoce, porém sensível no sacrifício, enquanto a imortalidade artística jaz na condenação da alma. Não dá para julgar, até porque o pecador muitas das vezes é produto do seu meio, mas fica claro que o acordo com o diabo cobra alto. É triste quando a fuga da opressão é a corrupção.
