Crítica | O Ídolo (2015)

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estrelas 3

Dirigido por Hany Abu-Assad, o mesmo diretor do ótimo Paradise Now (2005), O Ídolo (2015) é um filme híbrido. Seu texto é parcialmente inspirado na vida do cantor líbio-palestino Mohammed Assaf, que foi o vencedor da segunda temporada do Arab Idol (2013), sendo ovacionado pelo mundo árabe e contribuindo para que esta temporada do show fosse uma das mais assistidas da TV na região. Paralelo à história de Assaf, o diretor — que assume os momentos de ficção nos letreiros logo ao início da fita –, cria uma base emotiva que explode no final, com a já esperada alegria da vitória.

Considerando o momento político das relações entre Israel e Palestina (+ visão geral do mundo árabe), o filme tem um sabor sutil de provocação. Não uma plenamente política, mas uma emotiva, boa até certo ponto. O roteiro não usa do dia a dia do biografado para emitir opiniões contra ou a favor de ações militares o estatais (a cena da audição de Assaf é excelente, com ele respondendo à pergunta sobre como era viver na Faixa de Gaza: a câmera está ligada? Então depois eu conto). A provocação muda chega com o avanço do cantor na competição e a importância que isso teve para os palestinos.

O drama começa na infância de Mohammed, sempre ao lado de sua irmã e amigos. As brincadeiras, as correrias pela cidade (isso depois voltaria ao filme com as cenas do Parkour em Gaza), e a constante busca para ganhar dinheiro e conseguir comprar instrumentos para a banda marcaram a vida do grupo e a dinâmica entre os atores mirins, bem como a direção de Abu-Assad, que nos mostra com bastante realismo esse ambiente. Um fato curioso é a forma como o diretor expõe, através da irmã de Assaf, o complicado papel da mulher nessa sociedade. Na maior parte do filme a garota veste roupas de menino e usa boné, como formas de “disfarce” para poder brincar livremente na rua e posteriormente fazer shows amadores em casamentos e festinhas ao lado do irmão e dos amigos. De outra forma, isso não seria possível (você sabe o que aconteceria se descobrissem que ela é menina?, pergunta um dos contratantes da banda mirim).

O principal tropeço da direção vem de mãos dadas com a edição, que dão a entender a passagem do tempo através das músicas cantadas pelo protagonista, mas a maneira como as cenas são expostas e os contantes cortes para o presente acabam por descontextualizar o espectador. A obra não chega ao ponto de ser confusa, mas sua composição de tempo não tem um bom princípio, especialmente quando é necessário terminar um bloco e iniciar outro. O momento dos cortes e a sequência das cenas parecem soltas, muitas vezes ruins, culminando com a pior sequência dessa área no filme, que é a exposição em letreiros + imagens reais + cenas filmadas por Abu-Assad para exibir o caminho percorrido pelo protagonista no Arab Idol.

Após uma longa jornada até o Egito, a caminho das audições do programa (trajeto que o diretor poderia ter aproveitado, mas preferiu nos entregar a cena “pronta”, com a chegada de Assaf à fronteira), o protagonista se torna um símbolo de liberdade e resistência para os Palestinos, uma representação de identidade que mesmo os não-nacionalistas acabam tendo vez ou outra, normalmente em grandes competições. Agora imaginem o valor de algo assim para um povo sem “pátria oficial”.

Claro que esse peso social afeta Mohammed Assaf, mas sua história de vida, o símbolo de sua presença no programa e o fato de ser um grande cantor contribuíram para a sua vitória — lembrando que as fases finais, nesse modelo de programa, são decididas pelo voto popular –, que mesmo não tendo uma boa travessia da direção na fase final (e novamente a montagem escorrega ao tentar orquestrar takes de TV com imagens dramatizadas) emociona bastante o espectador. Uma história de vida com grande importância social. Mais um filme sobre o poder transformador da música. Em muitos sentidos.

O Ídolo (Ya tayr el tayer) — Egito, Palestina, Emirados Árabes Unidos, 2015
Direção: Hany Abu-Assad
Roteiro: Hany Abu-Assad, Sameh Zoabi
Elenco: Tawfeek Barhom, Kais Attalah, Hiba Attalah, Ahmad Qasem, Abdel Kareem Barakeh, Teya Hussein, Dima Awawdeh, Ahmed Al Rokh, Saber Shreim, Amer Hlehel, Manal Awad, Walid Abed Elsalam, Eyad Hourani, Ashraf Barhom, Nadine Labaki
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.