Crítica | Os Boas-Vidas

estrelas 5Federico Fellini assumiu pela primeira vez a direção de um filme ao lado de Alberto Lattuada, em Mulheres e Luzes (1950). Dois anos depois ele fez o seu primeiro voo solo, em Abismo de um Sonho, início interessante para uma carreira no cinema, trazendo uma história com elementos de fantasia, sonho, desejos e relações amorosas, além, é claro, do delicioso toque metalinguístico, algo que o diretor sempre prezou e traria à tona na maior parte de suas produções futuras.

Os Boas-Vidas não estava na pauta de Fellini assim que terminada a produção de Abismo de um Sonho. O roteiro que ele tinha pronto e que foi recusado pelo produtor era o de A Estrada da Vida, então taxado de “muito sério”, e escanteado. Em contrapartida, foi oferecido ao diretor um orçamento para que ele realizasse uma comédia, desafio que ele enfrentaria ao lado de outros dois roteiristas, Ennio Flaiano e Tullio Pinelli.

Os Boas-Vidas teve uma acolhida absurdamente calorosa da crítica e do público, sendo indicado ao Oscar de Melhor Roteiro e vencendo o Leão de Prata no Festival de Veneza. A história de um grupo de amigos em uma cidade do interior trazia algumas lembranças caras a Fellini, algo que é ainda ressaltado pela presença de seu irmão no elenco, Riccardo Fellini.

De forma geral, Os Boas-Vidas mostra a vida adulta dos “jovens da guerra”. Sem perspectiva ou vontade de emplacar um projeto familiar, esses adultos ociosos e vagabundos alternam um presente cheio de divertimento, bebedeiras, caminhadas nas madrugadas, carnavais, apostas e relacionamentos casuais, enquanto a idade passa e parece que o amadurecimento deles não acompanha essa passagem. Em dado momento do filme, um dos personagens diz a outro: “nós precisamos casar“, tendo em mente aí o poder do matrimônio como possível iniciador de uma vida de trabalho, compromisso e responsabilidade.

Mas para esse grupo, nem o matrimônio parece o início de uma nova fase da vida, basta atentarmos para o casamento de um deles e o modo como levava sua relação com a esposa, vivendo na casa dos sogros e praticamente entregando a criação do filho à família, enquanto sua preocupação essencial é sentir-se jovem, ter casos com diversas mulheres e viver como um solteiro boêmio.

Durante todo o filme – e essa é uma fala que aparece no desfecho, de maneira direta – aparece a possibilidade de deixarem essa cidade, irem para Roma ou outro lugar, onde um possível emprego ou a mudança de ares poderiam mudar tudo. Mas apenas duas personagens conseguem livrar-se da comodidade do lugar e da vida fácil e sem muitos desafios.

Todavia, existe também o outro lado, o lado pessoal de cada um, a melancolia e angústia que paira em suas vidas, mesmo em momentos de diversão, como é o caso do carnaval ou o concurso de Miss, no início da fita. Mesmo rodeados por pessoas e tendo seus amigos em volta, os boas-vidas vivem às voltas com seus interesses particulares, o evidente marasmo e inutilidade de suas existências, excetuando-se aí a personagem de Leopoldo, o escritor, que consegue ter sua comédia lida por um grande ator, mas que foge deste após segui-lo para uma região escura da cidade e julgar ser assediado sexualmente – a fuga é de uma inocência assombrosa para um homem com a idade de Leopoldo, que normalmente diria ao ator que não era homossexual e a coisa então se resolveria ali.

Fellini faz uma comédia dramática de alcance atemporal. As situações mostradas no filme são repetidas ainda hoje, bem como o destino incerto de boa parte dos jovens que confiam demais nas provisões familiares para se sustentarem.

Com uma fotografia belíssima e ótima trilha sonora de Nino Rota (em sua segunda parceria com Fellini), Os Boas-Vidas é um ode à boemia, a tentativa de jovens alcançarem um caminho socialmente apreciado, o insucesso dessa empreitada, a presente angústia e a incerteza final – o próprio narrador diz que nós podemos imaginar o destino dos outros, mas eis aí a questão, temos cartas demais na mesa para podermos escolher uma só, ou simplesmente a mais fácil. No final das contas, há um grande ponto de interrogação, um término digno de todos os elogios recebidos e a prova máxima de que ali estava o produto de um gênio do cinema.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.