- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
A primeira temporada de Primal, lançada no já longínquo ano de 2020, foi puro deleite audiovisual pré-histórico de Genndy Tartakovsky. A segunda temporada, de dois anos depois, apesar de alguns episódios isolados sensacionais, foi, em seu conjunto, um negócio muito estranho, para não dizer decepcionante, como se o animador russo tivesse se perdido em sua ambição de expandir o universo anacrônico que criou, com direito a um final com uma “transa moribunda” que se tornou inesquecível por todas as razões erradas. Durante os três anos que se seguiram à segunda temporada, histórias circularam sobre o retorno de Primal em um formato de antologia que, porém, parece ter sido descartado pelo caminho, abrindo espaço para uma escolha inusitada: uma continuação direta do que veio antes, mas com Spear como zumbi.
E é exatamente isso o que acontece. Logo no início de A Vingança da Morte, vemos um xamã acordar em meio a seu vilarejo completamente destruído, matar um dos atacantes com máscara de caveira e fazer um feitiço usando o sangue de seu algoz que resulta em um coração verde místico que, então, é levado para onde Spear está sepultado, revivendo-o como um zumbi controlado pelo feiticeiro que faz do “neandertal” seu instrumento de vingança. Tudo leva a crer que o vilarejo destruído é o mesmo que vemos no último episódio da temporada anterior, onde Mira e seu povo vivia e que o xamã é o último sobrevivente de um ataque terrível. Quanto tempo passou desde a última vez que vimos Spear vivo é difícil de estabelecer, até porque o epílogo de Ecos da Eternidade contém um salto temporal de anos, em que vemos a filha dele com Mira já grande o suficiente para cavalgar um dos T-Rex filho de Fang, também muito crescido.
Mas o encaixe exato com o que vimos antes, muito sinceramente, não interessa muito. O que interessa é o novo status quo, especialmente depois que o xamã é morto e Spear parece congelar, sem um comando determinando o que ele tem que fazer, para onde ele tem que ir. Tartakovsky usa o silêncio e a imobilidade como magníficos instrumentos narrativos, não só permitindo lampejos ao zumbificado Spear, que reage à luz do sol e a esboços de lembranças de seu passado, como também pedindo ao espectador para aproveitar o presente, para compreender que, agora, estamos em uma “fase seguinte” do projeto criativo desse fascinante universo. Claro que ficam todas as reticências deixadas pela temporada anterior, todos os descaminhos de Tartakovsky para tentar abrir o leque de possibilidades, mas tenho para mim que não adianta ficar chorando pelo proverbial leite derramado. Temos que seguir em frente e o que podemos fazer – mesmo que exija esforço, o que, confesso, não é meu caso – é aceitar que, a partir de agora, acompanharemos um Spear zumbi lentamente lembrando de seu passado e indo atrás dele.
Em termos de ação, não há o que reclamar. Mesmo que seja estranho ver Spear, de repente, no que parece ser uma savana africana dos dias atuais, com direito a elefantes, zebras e gazelas, o que nos permite a momentaneamente indagar se teve viagem no tempo, somente para lembrarmos, no momento seguinte, que Primal se passa em um mundo pré-histórico que só existe na mente de Tartakovsky e que, por isso, tudo pode acontecer, o que vem a partir daí é ação visceral do jeito que nos acostumamos na série. Não só o extermínio anterior do grupo mascarado que atacou o vilarejo foi um breve momento da mais alta qualidade primitiva, com direito até mesmo a um “momento Kill Bill de escalpelamento”, como o acolhimento de Spear por uma colônia de leprosos depois que ele salva um deles tem toda aquela qualidade “doentia” (literalmente) que aprendemos a esperar de Tartakovsky. Obviamente que a paz de Spear não dura quase nada e um grupo de beduínos(?) ataca a colônia, somente para Spear, claro, trucidá-los em seguida, o que o leva ao final, a mais lembranças especialmente de Fang e o que parece o começo efetivo de sua jornada que, não duvido nada, acaba com a reversão completa de sua morte.
Agora é esperar, com cautela, mas também com excitação, o que vem por aí, pois esse começo parece querer nos dizer que não há um caminho pré-determinado para absolutamente nada e que o retorno de Primal pode ser tanto uma história organizada como foi a primeira temporada, quanto um balaio de gatos como foi a primeira ou, claro, alguma coisa no meio do caminho. Seja como for, uma coisa é certa: a série, mesmo com seus problemas, é irresistível e ver um Spear zumbi é tão estranho quanto fascinante e eu com certeza estou muito curioso para ver o que Tartakovsky tem planejado para o personagem.
Primal – 3X01: A Vingança da Morte (Primal – 3X01: Vengeance of Death – EUA, 11 de janeiro de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Genndy Tartakovsky, Darrick Bachman
Elenco: Aaron LaPlante, Boise Holmes, Fred Tatasciore, Vanessa Marshall
Duração: 23 min.
