Crítica | A Arte da Guerra – Estratégia Militar de Sun Tzu

Desloque-se apenas se perceber que há uma vantagem. Conheça o seu inimigo e conhecerá a si mesmo. Jamais subjugue o seu inimigo antes da luta. Evite enfrentar pela força, use a fraqueza do outro para derrota-lo. Como consigo atingir o “outro” com o menor número de manobras possíveis? Essas e outras sugestões estão descritas na filosófica seleção de regras de conduta do oriental A Arte da Guerra, de Sun Tzu, compêndio de estratégias milenares tão astutas quanto as peculiaridades de Ulisses na Odisseia de Homero.

Ciente do potencial do livro, produtores do History Channel veicularam um documentário sobre os seus ensinamentos, algo que segundo o taxativo autor, era pra ser seguido na vida em sociedade, afinal, caso os seres humanos belicosos resolvessem ignorar o seu conteúdo durante um conflito, provavelmente “lutaria na escuridão”. Filosofia holística coesa, A Arte da Guerra inspirou a criação deste eficiente documentário. O ponto de partida básico da reflexão é que a “guerra é coisa de vida ou morte”.

Segundo os dados históricos remotos, começou quando um rei em desvantagem acabou ganhando projeção num combate, mesmo tendo apenas 30 mil homens em seu exército, número dez vezes menor que o de seu inimigo. Tratado escrito há cerca de 500 anos a.C., A Arte da Guerra é uma série de ensinamentos sobre as estratégias ideais para o alcance de sucesso dentro de uma “batalha”. Filosoficamente elaborado num contexto bélico, o material sobreviveu com força na contemporaneidade e é utilizado constantemente em discussões sobre Liderança e Empreendedorismo no mundo dos negócios, dos esportes, da política, etc.

Clássico lido por administradores, comunicólogos, advogados, professores de literatura, dentre outros, A Arte da Guerra ganhou um documentário escrito, dirigido e adornado por efeitos especiais que mesclam o didatismo e o entretenimento, numa das melhores produções do History Channel, ao menos de acordo com a totalidade de realizações que tive a oportunidade de conferir, numerosas por sinal.

Sob a direção de David W. Padrusch, também responsável pelo roteiro, juntamente com David Baemuler, A Arte da Guerra – Estratégia Militar de Sun Tzu apresenta em seus 90 minutos, detalhes importantes sobre o contexto histórico de veiculação do “tratado”, analisado de maneira aplicada, por meio de observações comparativas com as estratégias adequadas e inadequadas da devastadora guerra do Vietnã e nos conflitos globais da Segunda Grande Guerra Mundial.

Escrito em hideogramas chineses, por meio de tiras de bambu de verticais com 21 centímetros, o já clássico material é um guia para as diversas áreas apontadas anteriormente, espécie de manual de segredo para o sucesso. Alguns especialistas adotam cabalmente, outros acham que as ideias são deturpadas e não adaptadas adequadamente para o nosso contexto. Entre opiniões contrárias e favoráveis ao seu uso, os entrevistados, em consonância com o roteiro do documentário, analisam A Arte da Guerra dentro da perspectiva dos acontecimentos históricos dos conflitos na Segunda Guerra e no Vietnã.

Interessante a relação que a produção faz entre dois jogos: o xadrez e o go. No xadrez, o foco é “matar o rei”, com as peças já estabelecidas. O go parte do vazio, tendo em vista conquistar inteligentemente espaço. São metáforas utilizadas pelo roteiro para demonstrar que o foco do livro de Sun Tzu é dar mais importância para inteligência, diferente do que muitos acreditam, isto é, o foco estar na centralização do poder sem estratégias sagazes.

Hitler, segundo informações, era um péssimo líder. Controlava todo o processo e era quem dava a palavra final, mesmo quando os seus generais acreditavam que determinadas táticas não deveriam ser adotadas. Segundo os depoimentos, não soube adotar os princípios de Sun Tzu. No caso do Vietnã, o documentário reforça que a derrota dos estadunidenses se deu por falta de estratégias coerentes e coesas dentro do projeto conflituoso. Como uma localidade menor que o estado de Montana conseguiu derrotar um exército que sempre se gabou de reforçar a sua soberania?

Conforme os depoimentos, os mandamentos de Sun Tzu já tinham “previsto” tal derrota por conta da insistência dos invasores da América em partir para o ataque direto, ao invés de pôr ênfase em questões intelectuais, de manobra, etc.  Os entrevistados reiteram que o exército dos Estados Unidos aprendeu a lição sobre a não dependência apenas de seu poderio militar, pois os complexos de túneis dos vietnamitas, repleto de reservas de suprimento, espaço para repouso dos combatentes, escavados com ferramentas agrícolas, bem embaixo dos acampamentos estadunidenses, minaram as expectativas dos ocidentais e determinaram a sua derrota.

Vergonhosamente fracassados, os estadunidenses ao menos foram mais inteligentes durante a Invasão da Normandia, pois na utilização do engodo como prática de guerra, conseguiram alcançar a vitória na destruição de seus inimigos. Mensagens radiofônicas falsas, exército fantasma com marcas de pneus no chão, indicadoras de avanço dos inimigos, quando na verdade eram apenas plantadas para distração. Juntamente com os agentes duplos, chamados por Sun Tzu de infiltrados, tornaram o conflito bem sucedido por quem estava mais bem planejado no que tange aos elementos estratégicos. Garçons, prostitutas, motoristas. Enquanto executavam as suas funções, observavam as ações das “linhas inimigas”.

Importante observar que para dar ritmo ao roteiro e aos fatos narrados por James Campos, o documentário conta com os efeitos especiais supervisionados por Christopher Werth, fundamentais para o sucesso narrativo, indo além dos estereótipos sobre efeitos como distrações superficiais para histórias com pouco conteúdo. Além de aparentemente ser econômico, pois as ilustrações demandariam grande quantidade de mão de obra e figurantes, os efeitos estão de acordo com o que é narrado e refletido pelos entrevistados, numa escolha acertada que permitiu, ao meu ver, a produção de um dos melhores documentários veiculados pelo canal.

A direção de fotografia de Mike Parry capta bem os atores das simulações, devidamente apresentados por meio de ângulos altos e baixos, a depender da situação em que estejam comentados em cena. Parry também é competente ao registrar os depoimentos no clássico modelo do primeiro plano e plano médio, com entrevistados elegantemente dirigidos no que tange aos seus figurinos, trajes com cores e cortes encorpados e sem discrepância com os efeitos especiais inseridos posteriormente, tendo em vista deixar o plano de fundo com tons que nos remetem ao fogo, linguagem metafórica do livro de Sun Tzu.

Com design de som assinado por Lou Esposito, o documentário insere elementos sonoros que reforçam a temática, associados ao bom trabalho de Stuart Kollmorgen na composição da trilha sonora original, simples, mas adequado para a condução narrativa sobre os fatos históricos de guerras sangrentas que mudaram a geopolítica mundial. E diante disso tudo, um dos maiores ensinamentos: se o grupo estiver com apoio “moral”, ou seja, apoio do povo, das grandes massas, tudo pode dar certo. Guerra é questão de estratégia. Infelizmente, temos manuais dessa linha para nos ensinar a sobreviver, já que a existência pacífica é utopia.

A Arte da Guerra – Estratégia Militar de Sun Tzu (Art of War/Estados Unidos – 2000)
Direção: David W. Padrusch
Roteiro: David W. Padrusch, David Baemuler
Elenco: Jason Batzer, Gary J. Bjorge, Charlies Currier, Michael Hom, Eliver Ling, Malay Kim, Thin Sham, Josh Bradley, Josh Calvin
Duração: 90 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.