Crítica | Cemitério Maldito (2019)

Cemitério Maldito (2019)

“Às vezes, morto é melhor.”

Cemitério Maldito é uma refilmagem do clássico de 1989, que por sua vez adaptou material de um dos escritores de horror mais prestigiados de todos os tempos. O próprio autor, Stephen King, refere-se a O Cemitério, fonte dos filmes, como sendo a sua história mais assustadora. A premissa é inspirada em sua infância e a perda de seu animal de estimação, ou seja, um primeiro contato com a morte. Mas é um tanto quanto complicado conseguir extrair essa dimensão apavorante das versões cinematográficas já produzidas do romance que as inspirou. Por exemplo, o primeiro Cemitério Maldito, de Mary Lambert, não é conhecido por ser um dos grandes expoentes do gênero na década de 80. A mesma coisa pode ser dita dessa nova produção, 30 anos após o original estrear nos cinemas. O ansiado resultado, porém, pode ser qualificado como uma piora do que já tinha sido apresentado décadas atrás. O que possuía até um charme, particular de uma época, é transformado numa revisão procurando mais “repetir” o passado do que criar algo melhor.

O pretexto ao horror ganhar forma é o mesmo: Louis Creed (Jason Clarke), como no clássico, novamente compra uma casa à beira de estrada e próxima a um cemitério de animais, onde os bichos de estimação de moradores da região são enterrados a gerações. Depois de passar por experiências sobrenaturais, Louis é apresentado por Jud (John Lithgow), vizinho que se tornou rapidamente amigo da família composta por pai, mãe e duas crianças, a uma terra para além desse cemitério. No misterioso lugar, os mortos postos sob o seu solo terminam retornando. Isso acontece com o gato de Ellie (Jeté Laurence), que morreu acidentalmente, vitimado por um caminhão. Para o azar de Louis, Rachel (Amy Seimetz), sua esposa, sente-se desconfortável em explicar morte para a garota, preferindo optar pela desculpa do sumiço. Já Jud, por motivos que o longa em si não nos convence, se afeiçoou tanto com a menina que irá além das barreiras da vida para, juntamente a Louis, resgatar o gato Church da morte. Entretanto, às vezes, a morte é melhor.

Os passos então dados por Dennis Widmyer e Kevin Kölsch, responsáveis por dirigirem essa versão, são extremamente similares aos dados por Lambert e por King. Existem importantes mudanças no enredo, mas que são simplesmente caprichos, procurando invocar certa novidade em terrenos, contudo, pouco explorados. No grosso mesmo, o roteiro que repaginou a história original, escrito por Jeff Buhler e Matt Greenberg, conseguiu piorar o material. Cemitério Maldito é uma obra que contém um excesso de manivelas horríficas, usadas por King, quem as pensou primeiro, para suprir carências. A assombração de um garoto morto. O passado perturbador da mãe. Com isso, o drama em si dos personagens, um horror pautado na angústia de explicar coisas inexplicáveis para crianças, é sucateado. A amizade de Ellie com Jud é pouco explorada, o que contradiz a maior relevância concedida à garota. Ao mesmo tempo, os horrores dos pais mostram ser externos – a assombração, o passado – ao cerne principal, ou seja, da morte como irreversível.

Enquanto os roteiristas insistem na exploração do cemitério maldito como tendo alguma ancestralidade indígena, até mesmo citando o ser Wendigo em uma das passagens – gratuitamente e expositivamente -, visualmente os diretores não se importam nenhum pouco com a iconografia. Os planos priorizam uma desnorteação em cenas noturnas, sem se preocupar com espaço, tornando o ambiente bastante genérico. O uso das crianças com as máscaras tem um apelo gráfico interessante, mas que é revisitado de formas seguras. O todo é um emaranhado de contraposições. O elenco, por exemplo, é consideravelmente superior ao do original. Jason Clarke é um ator mais competente que Dale Midkiff era, porém, o tratamento ao seu personagem não permite o ator expor a carga dramática que segura em seu peito. A conclusão da obra de 1989, em outra instância, por conta de particularidades que não são retomadas nessa versão, conseguia concretizar bem o ar trágico tão costumeiro ao horror. O gato Church é o único a que se faz justiça.

O encerramento, com as suas pouco significantes modificações ao romance de Stephen King, consegue sintetizar o que é esse Cemitério Maldito: um terror um tanto inexpressivo. A refilmagem tenta ser espertinha, no entanto, mira no surpreendente e acerta no vazio. Os cineastas brincam, assim sendo, com a noção de um espectador que conhece o que aconteceu no clássico. Os demais eventos, portanto, aqueles esperados pelo público familiar, são encadeados por uma velocidade que mina desenvolvimento. Por esse caminho, a montagem do longa-metragem é especialmente um desastre, impedindo a efervescência do drama, tensão e sofrimento ter um sentido sincero ao público. Mudam-se coisas, apenas para que os espectadores retornem ao mesmíssimo tom do antecessor, a mesma abordagem aos temas, só que piorada. Na maior parte das vezes, refilmagens ficam aquém das versões originais. Cemitério Maldito consegue a proeza de redundar a regra. Neste caso, assistir à versão original ou ler o romance original é muito melhor.

Cemitério Maldito (Pet Sematary) – EUA, 2019
Direção: Kevin Kölsch, Dennis Widmyer
Roteiro: Jeff Buhler, Matt Greenberg, Stephen King (inspirado em O Cemitério)
Elenco: Jason Clarke, Amy Seimetz, John Lithgow, Jeté Laurence, Lucas Lavoie, Hugo Lavoie, Obssa Ahmed, Alyssa Brooke Levine
Duração: 101 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.