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Crítica | A Espada do Imortal (O Habitante do Infinito)

por Ritter Fan
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A Espada do Imortal, também conhecido por aqui como O Habitante do Infinito* é a primeira adaptação live-action do mangá que Hiroaki Samura escreveu entre 1993 e 2012 e, considerando-se a premissa que lembra à de Highlander, um samurai imortal com “fator de cura” como o Wolverine (mas resultado de “vermes” inseridos em seu corpo por uma mulher misteriosa e não de uma mutação), a presença do prolífico Takashi Miike na direção foi uma escolha precisa, especialmente se lembrarmos dos excelentes remakes de 13 Assassinos e Harakiri que ele comandou em 2010 e 2011 respectivamente. No entanto, o longa passa longe de cumprir sua promessa.

Entre o magnífico prólogo de origem de Manji (Takuya Kimura) com fotografia em preto e branco de alto contraste em que o samurai, antes de se tornar imortal, deixa bem claro, ao longo de 12 minutos, suas habilidades ceifadoras de vidas, algo que Miike tem grande prazer em mostrar em todos os mínimos e sanguinolentos detalhes de praxe e os 30 minutos finais em que basicamente vemos a versão inchada desta mesma luta, só que com fotografia em cores e o que parece ser basicamente toda a população masculina adulta do Japão da época como inimigos, A Espada do Imortal anda em marcha lenta e sem efetivamente contar uma história minimamente coerente. Diria que boa parte do problema foi a inabilidade de Tetsuya Oishi em extrair uma linha narrativa coesa e lógica do vasto material fonte disponível, com um roteiro que, no lugar de seguir por um caminho certeiro, salpica ideias novas e introduz personagens a cada 10 minutos sem realmente torná-los relevantes, o que só leva à confusão e à perda total de foco.

Não que o filme precisasse de uma história complexa para servir de desculpa para as várias lutas estilizadas com os mais variados instrumentos cortantes, mas isso é bem diferente do que fixar um norte e caminhar sempre na mesma direção, sem digressões que apenas esticam a duração da fita sem acrescentar muita coisa. Ou seja, muito diferente de querer complexidade (que poderia existir, mas não desse jeito), o que eu gostaria mesmo de ter visto era justamente o contrário, ou seja, que A Espada do Imortal fosse bem mais simples e objetivo, com a jornada de Manji, contratado como yojimbo (guarda-costas) e assassino pela menina Rin Asano (Hana Sugisaki), que deseja vingar a morte de seu pai e o desaparecimento de sua mãe pelas mãos do grupo vilanesco Ittō-ryū liderado pelo inclemente Anotsu Kagehisa (Sôta Fukushi), sendo algo mais objetivo, que levasse o personagem do ponto A ou B.

E não me venham aqueles que leram o mangá afirmar que a história é mais complexa que isso, que o filme foi feito para ter continuação e assim por diante, argumentos vazios e que de forma alguma “curam” o que Miike colocou nas telas. Cada filme, mesmo adaptações, precisa ficar de pé por seus próprios méritos e A Espada do Imortal não fica para além das duas sequências de ação que destaquei no começo. Manji e Rin são personagens que individualmente geram pouquíssima empatia, algo que também reputo ao roteiro perdido e, juntos, eles não são mais do que uma dupla com química próxima de zero, difícil de gerar uma “torcida” pelo sucesso da empreitada, até porque a relação mestre-pupila que é mencionada no longa inexiste na prática. E os vilões são meros recortes em cartolina que não só não ganham desenvolvimento algum – o que não é um problema mortal, que fique claro – mas também não dizem a que veio e revelam motivações no mínimo infantis para suas brigas.

Por outro lado, a direção de arte é excelente, assim como toda a estética do longa. A reconstrução de época é eficiente, os figurinos são condizentes com a pegada histórico-fantasiosa, ou seja, dão-se a vários exageros que são bem-vindos para criar a mitologia de Manji e Rin, o que significa, por exemplo, aceitar que o quimono do samurai é que nem o cabelo do Urso do Cabelo Duro, ou seja, é capaz de armazenar as armas mais extravagantes possíveis que aparecem quando ele quer. Além disso, a direção das sequências de ação por Miike destacam-se, com o diretor soltando as rédeas da pancadaria que talvez devesse ser apenas mais constante, já que Manji, depois que se torna imortal, parece, na prática, parece perder a habilidade que demonstra nos minutos iniciais, o que é uma decepção. Também vale lembrar da fotografia de Nobuyasu Kita tanto no já várias vezes citados preâmbulo em preto e branco, como também em todo o restante do filme, especialmente quando ele tem a oportunidade de usar planos gerais com belíssimas composições de cena ou ângulos radicais de câmera, especialmente plongées.

Não foi dessa vez, portanto, que Highlander perdeu seu posto em termos de longas com espadas e humanos imortais. Mas é uma pena, pois Miike tinha tudo colocar nas telonas algo com potencial de ser inesquecível. Infelizmente, de inesquecível mesmo só os 12 minutos iniciais, o que é muito pouco considerando os outros 129 que seguem…

Sobre os títulos em português: A Espada do Imortal é a tradução quase literal do título americano do mangá de Hiroaki Samura, Blade of the Immortal (Lâmina do Imortal) enquanto que O Habitante do Infinito é, até onde pude apurar, a tradução quase literal do título original japonês do mangá, Mugen no Jûnin. No Brasil, o mangá foi publicado como Blade: A Lâmina do Imortal.

A Espada do Imortal / O Habitante do Infinito (Mugen no Jûnin – Japão/Reino Unido/Coréia do Sul, 2017)
Direção: Takashi Miike
Roteiro: Tetsuya Oishi (baseado em obra de Hiroaki Samura)
Elenco: Takuya Kimura, Hana Sugisaki, Sota Fukushi, Hayato Ichihara, Erika Toda, Kazuki Kitamura, Chiaki Kuriyama, Shinnosuke Mitsushima, Ichikawa Ebizō XI, Min Tanaka, Tsutomu Yamazaki
Duração: 141 min.

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