Crítica | A Garota na Teia de Aranha, de David Lagercrantz

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Em 2004, após a publicação dos três primeiros livros da Série Millennium, Stieg Larsson veio a falecer, vítima de um ataque cardíaco. Já se sabia que ele tinha deixado muito material escrito, com amplas ideias para a sequência da saga até pelo menos o 6º livro (as informações a respeito são confusas e até contraditórias). Antes mesmo da publicação de A Rainha do Castelo de Ar, em 2007, a família de Larsson estava em uma negociação pelos direitos de gerência da obra do autor, negociando a parceira de longa data do jornalista, Eva Gabrielsson. As conversas, obviamente, foram infrutíferas. Por não ser legalmente casada com Larsson, Gabrielsson encontrou um grande número de dificuldades para manter o controle sobre a obra do falecido esposo (que inclusive deixou um testamento dando a ela os direitos sobre sua obra, mas como não foi testemunhado, o documento não teve validade diante da lei sueca), tendo inclusive recusado a oferta de 3,3 milhões feitas pelo pai e irmão de Stieg Larsson para que ela desistisse da disputa e entregasse o notebook em sua posse, onde continha o material original para a sequência da série. A arquiteta e ativista política recusou o dinheiro.

Como resultado da contenda, a família de Stieg Larsson pode continuar com os direitos da obra, desde que contratassem um autor para escrever um material inédito, sem nenhuma relação com o conteúdo literário que o autor original tinha deixado. Foi aí que entrou em cena o também jornalista e já veterano escritor David Lagercrantz, que teve a liberdade para criar a continuação que desejasse desde que mantivesse as características dos personagens e não modificasse ou ignorasse os eventos de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2005), A Menina Que Brincava com Fogo (2006) e o já citado A Rainha do Castelo de Ar. Assim surgiu A Garota na Teia de Aranha, cuja tradução do título original é, na verdade, Aquilo Que Não nos Mata.

Nessa história temos um drama forte ligado às tecnologias de ponta, cyber espionagem, Centrais de Informações e venda de dados de empresas e cidadãos importantes para gangues e governos. Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist estão novamente diante de uma ameaça liderada por forças cujos tentáculos criminosos estão muito bem protegidos pelo Estado e por interesses de fortes personalidades, que lucram acobertando esses crimes e cometendo muitos outros. Neste livro, porém, existe um forte teor humano e sentimental que conduz toda a narrativa, uma das bases mais interessantes do volume, protagonizada por August, uma criança autista, filho de Frans Balder, brilhante cientista da computação. Por mais que o autor se perca um pouco ao relacionar partes do bloco de August, sua mãe, pai e padastro com o bloco de Lisbeth, o resultado nessa seara é majoritariamente positivo, especialmente pela forma interessante como o Savantismo é trabalhado.

Uma das muitas queixas em relação ao estilo de Lagercrantz nesse livro é o tratamento que ele dá a Lisbeth Salander, a personagem que na verdade nos mantém interessados pela Série Millennium mas que aqui ganha uma exposição bastante ingrata, menos impactante, menos interessante, menos digna da própria Lisbeth. E pior: quase sempre em detrimento de Mikael Blomkvist. Inicialmente eu achei estranha a demora da entrada da anti-heroína em cena, mas a construção da prosa e a ótima temática paralela seguraram o meu interesse. Para quem costuma acompanhar notícias ligadas ao mundo da informação e novas tecnologias, o suspense desenvolvido pelo autor aqui é realmente interessante. Vale destacar que não existe um brilho literário que vá maravilhar o público nem nada disso. Mas o autor evita ao máximo os momentos mortos e sempre está criando pontes improváveis, adicionando personagens, montando cenários para que alguma intriga seja percebida. Infelizmente a ação que interessa demora a acontecer e, novamente, fica impossível não reclamar do papel menor de Lisbeth aqui, que funciona mais como uma imagem mítica (ligada ao mundo dos quadrinhos). Sim, ela tem boas cenas no enredo. Mas Lagercrantz definitivamente se desvencilha dela o máximo que pode.

Alguém pode reclamar da “Lis-babá” que temos em uma parte do livro, mas isso não me incomodou em nada. Aliás, a relação entre Lisbeth com August é muitíssimo melhor do que qualquer interação que ela teve com Mikael em todo o livro. Se o problema fosse a presença da hacker ao lado do savant, então não teríamos um problema. Muitas vezes, no decorrer das cenas entre os dois, não pude deixar de criar a imagem do Lobo Solitário e Seu Filhote. Simplesmente adorei essa relação, que acaba se estendendo para epopeias matemáticas, entrelinhas de Física Mecânica, inteligência artificial e os já esperados temas de um livro dessa série, como maus tratos às mulheres, poder destrutivo e construtivo da imprensa, da justiça e da polícia. Para os padrões da Série Millennium, A Garota na Teia de Aranha parece se distanciar demais da árvore que lhe deu origem. Mas é inegável que se trata de um bom livro de suspense.

A Garota na Teia de Aranha (Det som inte dödar oss) — Suécia, 2015
Autor: David Lagercrantz
Editora original: Norstedts
Editora no Brasil: Companhia das Letras (2015)
Tradução: Guilherme Braga, Fernanda Sarmatz Åkesson
Páginas: 488

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.