Muito mais focado nos pormenores industriais e da produção massiva de filmes do que em contexto histórico ou exposição de processos artísticos, A História do Cinema Para Quem tem Pressa teve como início um evento acidental: o crítico, professor e cineasta Celso Sabadin conta que viu a série “Para Quem Tem Pressa“, da Editora Valentina, numa livraria de aeroporto, gostou da proposta e entrou em contato com a editora, que aceitou sua ideia para um volume que falasse de cinema. O livro, lançado em 2018, se propõe a percorrer a Sétima Arte dos irmãos Lumière ao século 21, passando por movimentos cinematográficos, guerras mundiais, o surgimento do cinema falado, das cores, do 3D e a chegada dos blockbusters. O problema é que o texto dedica um tempo desproporcional a aspectos jurídicos, financeiros e contratuais da indústria norte-americana, chegando a pormenores tão específicos sobre a criação dos grandes conglomerados de Hollywood que seria difícil justificá-los dentro de uma obra de proposta tão básica e ampla quanto esta.
Os primeiros capítulos chamam bastante a nossa atenção, porque a origem do cinema é mesmo fascinante, e dissecam a corrida de patentes onde Thomas Edison disputava palmo a palmo com os irmãos Lumière e dezenas de outros inventores o direito de ter inventado o olho mecânico do século. O ritmo dessas páginas iniciais é ágil, curioso, quase de crônica histórica. Mas o autor vai gradualmente se deixando seduzir pelo lado mais contábil dessa mesma história, e o leitor se vê de repente lendo sobre acordos entre estúdios, fusões corporativas, números à perder de vista e disputas de mercado como se estivesse num manual de gestão empresarial do entretenimento. A passagem pelos grandes movimentos é, em contraste, rápida demais: o Expressionismo Alemão, o Realismo Poético, o Neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Dogma 95 aparecem citados, com menção a filmes representativos, mas sem qualquer expansão analítica sobre o que esses movimentos significaram esteticamente, politicamente ou para a própria linguagem do cinema.
Esta, inclusive, é a quebra mais evidente de A História do Cinema Para Quem tem Pressa: o livro cita muito, mas analisa pouco. Sabadin é um crítico experiente, cofundador da Abraccine, com décadas de cobertura de festivais e centenas de textos publicados sobre cinema, e o seu domínio do assunto é inegável. O problema está em como essa vasta informação foi organizada aqui, porque o viés escolhido favorece nitidamente a formação industrial dos grandes estúdios do Ocidente em detrimento dos processos artísticos que tornaram o cinema uma das maiores formas de expressão humana do século 20. A obra teria muito mais a oferecer se deixasse a ânsia industrial de lado e pescasse mais de contexto histórico, de movimento e de estágios de transformação visual e narrativa da Sétima Arte através dos séculos, dando maior coerência à proposta do livro.
Em poucos anos, o volume conquistou uma presença estável em currículos de faculdades de comunicação e cinema no Brasil, e leitores com algum treinamento universitário na área o utilizam principalmente como recurso de apoio, um ponto de partida para aprofundar pesquisas sobre aspectos específicos do desenvolvimento dos grandes estúdios de Hollywood e da Europa. Talvez seja esse o lugar mais honesto para o livro: não como porta de entrada para quem quer entender o cinema de maneira minimamente plural, mas como consulta rápida para quem já navega razoavelmente bem nesse universo e precisa de dados sobre fusões, legados e a engrenagem corporativa que moldou a indústria dos “sonhos em imagens”. Quando encarado como suplemento e não como guia autossuficiente, A História do Cinema Para Quem tem Pressa sobre um degrau e evita frustrar quem esperava uma introdução mais equilibrada entre indústria e arte. A ironia é que o título acaba sendo mais preciso do que parece: Sabadin tem pressa, sim, mas nas páginas erradas… ele atravessa a arte correndo e segura o passo justamente no lado menos artístico possível.
A História do Cinema Para Quem tem Pressa (Brasil, maio de 2018)
Autor: Celso Sabadin
Editora: Valentina
200 páginas
