Crítica | A Malvada

Fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy night!
– Channing, Margot

Diz a lenda que o poderoso produtor Darryl F. Zanuck queria manter o “grande” segredo de A Malvada até bem lá na frente da projeção, ou seja, revelando que a vilã era a atriz iniciante Eve Harrington, vivida por Anne Baxter e não a veterana Margot Channing, vivida por Bette Davis, algo reforçado pela própria presença de Davis em tela, atriz que se notabilizou por papeis arriscados, com personagens desagradáveis. Essa intenção de Zanuck, aliás, foi a principal razão para que Birdie (Thelma Ritter – não, não é parente, mas gostaria muito que fosse, pois eu adoro a atriz!), assistente de Margot, criminosa e literalmente desaparecesse da obra um pouco depois de sua metade.

Mas a grande verdade é que o roteiro de Joseph L. Mankiewicz, baseado em conto de Mary Orr que absurdamente não levou crédito algum, simplesmente não foi imaginado para essa reviravolta. A inocência exacerbada de Eve, logo nos primeiros minutos de projeção, em um trabalho fenomenal de Baxter, já anuncia sua ambição e seu jogo manipulador que, comendo pelas beiradas, vai sufocando Margot por todos os lados, deixando-a literalmente sem saída em seu próprio jogo. E a história é essa: a escalada ambiciosa de Eve, uma maria-ninguém, para quase que literalmente tomar o lugar de Margot, atriz de meia idade muito bem estabelecida no meio teatral.

E é claro que, apesar da qualidade do trabalho de Baxter, reunindo muito bem um lado angelical sob um fundo demoníaco, o gigantesco destaque de A Malvada é, sem dúvida alguma, de Bette Davis. Seu papel, em muitos aspectos, é autobiográfico ou, no mínimo, metalinguístico, já que ela realmente já tinha uma idade para lá de “ideal” no imaginário popular e, além disso, havia passado por diversos filmes fracassados pela Warner, com seu contrato com o estúdio recém-encerrado. Na verdade, Davis não foi nem a primeira, nem a segunda e nem a terceira escolha original para viver o papel e, quando ela finalmente foi escalada, Mankiewicz reescreveu Margot para a personagem combinar com a personalidade mais forte de Davis, resultando na que considero a melhor performance da atriz em sua longeva carreira.

O ar blasé, de atriz que conhece o meio em que vive e que acha que seu status é inabalável, apesar de ter consciência clara da idade já chegando, encaixa-se à perfeição para Bette Davis que simplesmente é um ímã para os holofotes e câmeras da produção. Se Margot está em cena, não existe mais ninguém, nem mesmo Marilyn Monroe que faz uma ponta quase também autobiográfica, como uma das convidadas na festa de aniversário de Bill Sampson (Gary Merrill), companheiro de Margot e diretor de sua peça atual na Broadway, inteligentemente intitulada Aged in Wood (em tradução livre, “Envelhecida em Madeira”, referenciando o envelhecimento de bebidas alcoólicas em barris de madeira nobre).

Tematicamente, A Malvada guarda muitos paralelos com Crepúsculo dos Deuses, curiosamente lançado no mesmo ano (e apenas dois meses antes!) e mais curiosamente ainda compartilhando inesquecíveis – ainda que bem diferentes – cenas em escadarias, mesmo que a obra focada no final de vida de uma atriz já esquecida por Hollywood seja mais dramática e triste. Mas A Malvada é sobre a efemeridade do sucesso e o quanto as estrelas desse meio são fungíveis, ou plenamente substituíveis, do dia para a noite, pela próxima grande promessa. O lado promíscuo e machista desse meio fica muito latente nos personagens que cercam Margot, incluindo o já citado Sampson (talvez o mais “inocente” de todos), além de Lloyd Richards (Hugh Marlowe), escritor da peça dirigida por Sampson e estrelada por Margot, Karen Richards (Celeste Holm), “apenas” a esposa de Lloyd e amiga de Margot e quem catalisa o filme ao apresentar a “pobre fã” Eve Harrington para ela, cuja personalidade é imediatamente farejada por Birdie. Além disso, há o produtor Max Fabian (Gregory Ratoff) e, mais relevante na segunda metade, o crítico teatral Addison DeWitt (George Sanders), todos parte de uma enorme e complexa engrenagem que pode ser resumida na palavra showbiz.

Mas A Malvada também é sobre orgulho, sobre classes sociais e sobre a conexão entre a arte dita nobre do Teatro e a arte dita “suja” do Cinema, em uma abordagem inversa à que vemos em Birdman, algo que fica muito evidente logo cedo no discurso de Sampson, que está prestes a ir para Hollywood para dirigir um filme, para Eve, ainda no camarim de Margot, no dia em que as duas se conhecem.

O roteiro de Mankiewicz, porém, apesar de criar personagens e diálogos inesquecíveis – a frase que está no começo da crítica é uma delas – não sabe quando parar. A conexão tardia de Eve com Addison não só demora a ocorrer, como é muito lentamente desenvolvido, quebrando um pouco o passo narrativo que vinha sendo impresso até a fatídica festa de aniversário de Sampson. Além disso, desnecessariamente, quando o enquadramento acaba (o filme é, todo ele, um flashback enquadrado por cenas no presente, durante uma cerimônia de premiação), vem um epílogo que passa ao espectador a óbvia mensagem de que tudo o que vimos não passa de um ciclo vicioso típico das artes dramáticas (e, convenhamos, da vida em geral). Esse momento não só é longo demais para realmente funcionar como um epílogo, como também repete algo que já estava mais do que óbvio, além de não se encaixar exatamente com tudo o que vimos, dada a diferença de idade e as circunstâncias que conectam as personagens. Teria sido muito mais interessante e desafiador que tudo acabasse na premiação mesmo.

A Malvada, mesmo talvez se alongando mais do que deveria, é uma delícia de filme que nos brinda com Bette Davis no auge de suas habilidades dramáticas, além de um belíssimo trabalho de Anne Baxter e, devo ser sincero, de todo o maravilhoso elenco. Uma inesquecível obra sobre o preço da fama que é tão ou mais atual hoje quanto foi em 1950 e que, diferente do que Zanuck achava, não precisou se valer de reviravoltas baratas para encantar o público.

A Malvada (All About Eve, EUA – 1950)
Direção: Joseph L. Mankiewicz
Roteiro: Joseph L. Mankiewicz
Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merrill, Hugh Marlowe, Thelma Ritter, Gregory Ratoff, Marilyn Monroe, Barbara Bates, Walter Hampden
Duração: 138 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.