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Crítica | A Marcha de Tóquio

por Kevin Rick
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A Marcha de Tóquio começa com a frase “Tóquio… cidade da cultura e do progresso… mas também capital do vício e da luxúria“, e logo em seguida traz vários shots abertos da metrópole moderna, cheio de carros, trens e indústrias, para então iniciar a narrativa principal em torno de Mychio (Shizue Natsukawa), uma órfã de origem humilde que mora com seus tios, que consideram tornar a jovem uma gueixa para resolver seus problemas financeiros. Dessa forma, desde o início da obra, Kenji Mizoguchi estabelece sua direção de contrastes entre a modernidade e o tradicionalismo, como também o foco nas desigualdades sociais.

Isso é muito bem visto quando alguns jovens afortunados, inclusive Yoshiki Fujimoto (Kôji Shima), estão jogando tênis – aliás, Mizoguchi já demonstra criatividade com a movimentação de câmera na partida, bastante incomum para o período da obra – e deixam a bola cair do outro lado da cerca, um local de moradia pobre e suja, onde Mychio se encontra. Além da cerca, existe um alto muro separando a riqueza da protagonista, e Mizoguchi filma a cena de duas perspectivas: de cima quando estamos nos olhos dos ricos, e de baixo da visão de Mychio, enquanto ela não consegue jogar a bola de volta, em uma genial sequência demonstrando a dificuldade do miserável alcançar a elite social. É nesse momento que Yoshiki se apaixona por Mychio, e volta a encontrá-la em um local inesperado: a casa de gueixas, chamada aqui de Jardim das Flores.

A protagonista acabou concordando com a árdua profissão para ajudar a família desafortunada, conectando-se a eventos reais do cineasta, que viu sua irmã ser vendida como gueixa. É interessante perceber a rapidez que a personagem inicia o ofício, já que a ocupação demanda os mais diversos estudos artísticos e culturais para entreter os fregueses, especialmente homens, mas, em regra, não inclui sexo, logo, a velocidade e amadorismo com o qual a personagem se torna uma gueixa, além de outro indícios de toxicidade masculina, passam a impressão de prostituição.

Nada dentro desta ideia é verdadeiramente explícito, sendo algo mais interpretativo e subjetivo da minha parte, mas realmente parece ser o que Mizoguchi dramaticamente indica com a maneira negativa que a profissão é vista, tanto no meio familiar de Mychio, como também pelos olhos de Yoshiki, além, é claro, da estranhíssima celeridade dos eventos. Esse pensamento soa ainda mais urgente com a problemática da reta final do filme: incesto subentendido. Depois de algumas disputas adversárias entre Yoshiki e seu amigo Sakuma (Isamu Kosugi) para conquistar Mychio, descobrimos, através de Fujimoto Sr. (Eiji Takagi), a grande reviravolta melodramática do romance trágico dos personagens.

Infelizmente, não gosto como o encadeamento dramático acontece posteriormente à revelação, pois, em primeiro lugar, o conflito de classes vai aos poucos se resignando ao melodrama de tragédia Grega entre o quarteto de Yoshiki, Fujimoto, Sakuma e Mychio, em performances exageradamente cômicas, típicas do cinema mudo. Há, de certa forma, o papel melancólico do tradicionalismo japonês em evidência, especialmente na repetição/consequência de situações entre a protagonista e sua mãe que também era uma gueixa, mas o contraste da direção, o discurso de crítica social e a abordagem de conteúdo, e não de personagens, saem de cena para trabalhar um twist sem impacto, seja pela falta de desenvolvimento relacional, as atuações pouco emocionantes, a fuga da temática social para um súbito melodrama romântico e, principalmente, em como Yoshiki se torna o protagonista do desfecho do filme.

Dito isso, acaba por ser uma crítica injusta da minha parte, considerando que a obra de apenas 27 minutos não é um curta, e sim o fragmento existente de um filme originalmente de 101 min., restringindo o desenvolvimento que Mizoguchi provavelmente daria aos diversos núcleos, mas, bem, é preciso analisar a experiência em si, que termina por ser efetiva no campo social, e não tanto na narrativa de tragédia romântica. É curioso como, a despeito de ser um fragmento, o filme é redondinho em seu início, meio e fim, realmente passando o sentimento de conclusão, mérito da edição original, assim como dos restauradores da película.

No fim, Mizoguchi traz uma sequência intrigante ao acompanhar Yoshiki indo embora em um navio, especialmente bacana aos pensarmos na ocidentalização do país na época e em como o personagem parece estar fugindo do tradicionalismo após uma experiência traumática – o próprio título da obra é um indício para essa mudança, e todas as adversidades que a acompanham. O contraste de uma depressão moderna com a melancolia de costumes trágicos retorna em um belo desfecho para uma obra que vale conferir por ser valor histórico, tanto na narrativa social e de diferença de classes, como também na notável direção de Mizoguchi, desde a utilização da forma para indicar problemas culturais desiguais, até uma inventiva movimentação de câmera e a surpreendente utilização de sombras durante o filme, em alguns elementos oníricos e malignos em uma sequência que Mychio “conversa” com a mãe morta e Fujimoto é perseguido por fantasmas do passado. Certamente falta impacto emocional no insosso melodrama de A Marcha de Tóquio, com provável culpa na perda de minutagem, mas a reflexão social e histórica valem a experiência.

A Marcha de Tóquio (Tōkyō kōshinkyoku, 東京行進曲) — Japão, 1929
Direção: Kenji Mizoguchi
Roteiro: Chiio Kimura, Shuichi Hatamoto (baseado em romance de Kan Kikuchi)
Elenco: Shizue Natsukawa, Reiji Ichiki, Isamu Kosugi, Takako Irie, Kôji Shima, Eiji Takagi, Hisako Takihana, Taeko Sakuma, Shunji Kanda, Shôzô Nanbu
Duração: 27 min. (fragmento existente)

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