Crítica | A Morte Não Manda Recado

A MORTE NÃO MANDA RECADO CABLE HOGE PLANO CRITICO WESTERN

A produção de A Morte Não Manda Recado (1970) começou quase que imediatamente após o encerramento de Meu Ódio Será Sua Herança e, de cara, impressiona pela diferença de tom entre os dois filmes, de um lancinante, genial e violento Zapata western para um “death of the west film“, ou seja, uma obra daquelas temáticas de decadência que mostravam a transição entre o mundo do Oeste selvagem e o mundo moderno — e sobre esse tipo de abordagem, vale pegar como exemplo a bandeira americana hasteada no filme, que conta com apenas 46 estrelas, o que coloca historicamente os eventos da obra entre o final de 1908 e o início de 1912. De Meu Ódio… vieram para cá os atores L.Q. Jones e Strother Martin, assim como parte da equipe de produção, mas boa parte dessa equipe não ficaria muito tempo no cargo.

O sucesso de The Wild Bunch deu a Sam Peckinpah um temporário momento de confiança frente aos produtores, que já tinham os dois pés atrás com o diretor, que era amplamente conhecido por ser bastante difícil nos sets e também por beber muito. Embora isso nunca o tenha impedido de trabalhar de verdade, suas filmagens sempre atrasavam porque as exigências colocavam atores, técnicos, agentes e produtores em discussão, processo que muitas vezes tinha o azar de combinar com dificuldades climáticas nas locações, problemas de saúde de alguém do elenco e outros pequenos problemas mais ou menos esperados durante a produção de um filme, e em The Ballad of Cable Hogue não foi diferente. Ao longo da produção, o diretor demitiu 36 pessoas da equipe técnica e a única relação harmoniosa e feliz foi junto aos atores, tanto que o diretor nunca escondeu que este era o seu filme favorito e que teve “alguns dos melhores momentos de sua carreira” durante as filmagens.

Em dado momento, o mau tempo impediu que a rodagem continuasse, então o diretor fez questão de convidar a todos para beber e se divertir com ele num bar próximo ao set, gerando uma “pequena contra” de 70 mil dólares. No final, A Morte Não Manda Recado atrasou 19 dias de produção e ultrapassou muito o valor do orçamento inicial, algo que mancharia para sempre a reputação de Sam Peckinpah frente aos estúdios. Com tudo considerado, é até impressionante que o filme, escrito por John Crawford e Edmund Penney, tenha terminado acima da média.

A história tem o caráter sujo e cruel que conhecemos bem dos faroestes de Peckinpah e conta a história de Cable Hogue (Jason Robards), que é abandonado no deserto, sem água, pelos seus parceiros de mineração. A trama de sobrevivência protagonizada por ele, seu plano de vingança e um tipo bem cínico de humor são os ingredientes centrais da obra, que também conta com algumas cenas musicais, das quais gosto apenas da inicial e da final.

Também fazem parte dessa jornada o reverendo Joshua Douglas Sloan (David Warner) e Hildy (Stella Stevens), duas figuras que, com dificuldade, firmam laços com o protagonista, sendo esta uma das coisas mais interessantes do roteiro. A história de amor aqui está marcada por um ponto trágico que cresce à medida que o filme se aproxima do final, mas nunca deixa de lado a aparência cômica, tanto em relação à libido de Hogue quanto a do reverendo Joshua. Também se acerta de forma bastante inteligente o plano de vingança de Hogue contra a dupla que o deixou para morrer de sede no deserto. A direção de Peckinpah na parte final recusa o embate épico mas não tira de cena o “suspense” ligado ao duelo nos faroestes, sendo toda a sequência de retorno dos capangas ao próspero posto chefiado por Hogue o incomum clímax do longa.

SPOILERS!

Pelo título — A Balada de Cable Hogue –, o espectador já deve esperar que uma morte ou algo profundamente solene faça parte do enredo e é nesta camada que o texto assenta o final, talvez com um discurso longo demais e meio chateante de Joshua, mas que na verdade consegue fazer o seu papel de memória para o interessante homem que acabara de morrer. A fita mistura alguns gêneros cinematográficos e desenvolve personagens de uma maneira relativamente incomum para o cineasta, no que concerne à violência, mas todos os outros elementos muito caros ao diretor se fazem presentes. Os momentos em que a montagem não sabe como fazer a passagem do tempo ou os pouco interessantes números musicais no meio da fita não roubam totalmente a nossa diversão e, ao cabo, compreendemos estar diante de mais um marcante filme de Sam Peckinpah, um western de amargo desfecho, claramente acenando o fim de uma Era.

A Morte Não Manda Recado (The Ballad of Cable Hogue) — EUA, 1970
Direção: Sam Peckinpah
Roteiro: John Crawford, Edmund Penney
Elenco: Jason Robards, Stella Stevens, David Warner, Strother Martin, Slim Pickens, L.Q. Jones, Peter Whitney, R.G. Armstrong, Gene Evans, William Mims, Kathleen Freeman, Susan O’Connell, Vaughn Taylor, Max Evans, James Anderson
Duração: 121 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.