Crítica | The Boys – Vol. 1: O Nome do Jogo

Nos anos 80, Alan Moore popularizou, na Nona Arte, a pergunta “quem vigia os vigilantes?”, de As Sátiras, escrito pelo poeta romano Juvenal e, nos anos 2000, Garth Ennis trouxe a doentia, violenta e corrompida resposta: os “rapazes” ou The Boys no título original e que foi mantido no Brasil. Na série de 72 edições (compilada em 12 volumes), três a menos do que sua aclamada Preacher e publicada entre 2006 e 2012, o autor lida com uma equipe de agentes da CIA que tem como função manter os seres superpoderosos do mundo em xeque, literalmente vigiando – e chantageando, torturando, espancando, às vezes matando mesmo – os vigilantes.

Em O Nome do Jogo, primeiro encadernado – reunindo as seis edições iniciais – de mais essa sandice de Ennis, ele calmamente nos apresenta a Billy, o Carniceiro, um grandalhão que aparentemente odeia super-heróis, com a missão de mais uma vez reunir um grupo para lidar com esses seres sempre que necessário. Isso já automaticamente cria uma história pregressa para Billy e para os “rapazes”, já que o que vemos ao longo desse começo é a segunda encarnação do grupo. Para contar essa história, Ennis usa como artifício o recrutamento do escocês Hughie (fisicamente inspirado no ator Simon Pegg) para o time, o único personagem sem qualquer experiência e cujo único valor intrínseco inicial é ter trágica e sanguinolentamente perdido sua namorada durante a luta de um super-herói contra um super-vilão.

Quando eu disse que Ennis faz isso calmamente, quero realmente dizer na literalidade. Afinal de contas, o “vai-não-vai” entre Billy e Hughie é repetitivo, mas propositalmente, já que isso serve de cola narrativa que tem como função principal servir de trampolim para que os leitores conheçam esse vasto universo que o autor coloca nas páginas. Não só aprendemos sobre cada um dos “rapazes” – além de Billy e Hughie há o grandalhão Leite Materno, o franzino Francês e a enganosamente tímida Fêmea -, como também sobre Os Sete, o equivalente à Liga da Justiça nesse universo e duas equipes de super-heróis adolescentes representando grupos de sidekicks ou de personagens secundários como Novos Titãs: os Jovens Americanos, mencionados muito brevemente aqui e ali e o Teenage Kix, este com muito destaque no arco por ser o alvo inicial dos “rapazes”.

Quem já leu os trabalhos de Garth Ennis sabe que, para ele, personagem “bom” é tão raro quanto político honesto e, se o caráter bastante duvidoso de Billy fica estabelecido desde o começo por meio de suas atitudes, inclusive o doentio caso que tem com a diretora da CIA, os dos demais vão sendo trabalhados com mais ritmo ao longo das edições. Se a violência extrema e o completo descaso pela vida humana é lugar-comum para quase todos, o sexo parece ser um vício e é tratado como tal por Ennis, com Darick Robertson, na arte, tendo que se desdobrar para arrumar “posições diferentes” e para esconder partes pudendas a cada quadrinho semi-explícito que explode nas páginas.

(1) O melhor cachorro do mundo e (2) Tá na hora do pau!

O nível de doença é tão grande que é até vergonhoso admitir que tudo é muito divertido. The Boys definitivamente não é aquele tipo de HQ que você pode ler cercado de gente se não quiser olhares julgadores, pois se não é alguma transa acontecendo, então são litros de sangue jorrando, dentre outras coisas nojentas como sêmen com sangue debaixo da porta do pulgueiro onde vive Hughie em Nova York. E eu que inocentemente achava que Preacher e o Justiceiro de Ennis fossem o ápice do que a mente doentia (e que precisa ser estuda pela ciência) de Garth Ennis podia produzir…

No entanto, uma leitura mais basal desse volume inicial pode passar a impressão errada ao leitor desavisado. Pode ser que o trabalho de Ennis, aqui, seja interpretado como machista de um lado e como glorificador da violência de outro. Há uma determinada cena em particular que ilustra bem isso: a iniciação de Starlight, super-heroína egressa do grupo Jovens Americanos, n’Os Sete. Para poder fazer parte da equipe que ela genuinamente admira e que ela acha ser virtuosa como toda sua criação fortemente religiosa, ela é obrigada a satisfazer sexualmente não um, mas três membros do grupo e, ainda por cima, simultaneamente. Horrível, sem dúvida, mas o que Ennis escreve é um aviso, uma crítica forte e pesada à indústria do estrelato. Basta lembrarmos dos escândalos de Hollywood nos últimos anos para notarmos que ele está longe – muito longe – de estar errado e, ao colocar isso nas páginas de sua criação, ele não está dizendo que esse ato hediondo está certo. É exatamente o oposto. Criticar é expor, é exagerar, é explicitar. E é exatamente o que Ennis faz. E o mesmo vale para a violência extrema. Ela está presente a ponto de fazer cada página sangrar e de forçar o leitor a parar de mastigar seu lanchinho, mas o choque tem uma função logo abaixo de seu valor de face.

A arte de Robertson é, como afirmei na crítica de Happy!, nada menos do que perfeita para encapsular a podridão que Ennis procura passar com seu texto. O artista faz uso de traços fortes e razoavelmente próximos do realismo para exalar decadência, vilania, sujeira e falência de espírito, algo que está presente constantemente em todas as linhas narrativas, talvez com exceção da de Hughie que, porém, aos poucos vai  sendo “contaminado” pelo que testemunha ao seu redor.

Apesar de algumas vezes lento no trato do relacionamento de Billy com Hughie, O Nome do Jogo é um começo marcante para The Boys. Ao longo de seis edições bem construídas, Garth Ennis nos faz ter vergonha de rir das demências muito verdadeiras que ele escreve e ter vontade de esconder a leitura como se estivéssemos diante de alguma publicação tabu.

P.s.: Acho que eu nunca ri tanto em quadrinhos quanto nas sequências com Terror, o cachorro de Billy. Se um dia eu tiver um cão, eu já tenho um nome para ele e como treiná-lo…

P.s. 2: Essa confissão do primeiro P.s. é embaraçosa.

P.s. 3: Nem leiam esses P.s., vocês vão achar que eu sou um monstro…

P.s. 4: Mas que o cachorro é demais, ah ele é!!!

The Boys – Vol. 1: O Nome do Jogo (The Boys – Vol. 1: The Name of the Game, EUA – 2006/7)
Contendo: The Boys #1 a 6
Roteiro: Garth Ennis
Arte: Darick Robertson
Cores: Tony Aviña
Letras: Greg Thompson, Simon Bowland
Capa: Darick Robertson, Tony Aviña
Editora original: Dynamite Comics (Dynamite Entertainment)
Data original de publicação: outubro de 2006 a fevereiro de 2007
Editora no Brasil: Devir
Data de publicação no Brasil: abril de 2010 (encadernado)
Páginas: 152

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.