Crítica | Dor e Glória

O tempo é implacável e transformador, mas também serve como forma para nos entendermos melhor. Para o filósofo Immanuel Kant, o tempo é o modo humano de receber informações, permitindo-nos conhecer a matéria e a nós mesmos. Mesmo discordando da obra de Kant em diversos pontos, é interessante pensar no tempo também como uma forma de autoconhecimento.

Conhecido por abordar problemas do cotidiano em sua filmografia, o diretor Pedro Almodóvar se propõe a debater o efeito do tempo sobre seus personagens, no aspecto físico ou emocional, em Dor e Glória. O filme apresenta Salvador Mallo (Antonio Banderas), um cineasta que se vê incapaz de continuar produzindo devido às suas limitações físicas. Após ser convidado a participar de um evento que homenageia um filme que dirigiu, Salvador reflete sobre o passado e relações antigas, seja com as pessoas ou com a arte.

Logo no início da projeção, durante os créditos iniciais, Almodóvar traz imagens abstratas, passando a impressão de mutação constante, servindo como síntese da temática de seu filme, as mudanças geradas pelo tempo. Por isso, a montagem possui um papel fundamental dentro da narrativa, promovendo comentários através das comparações entre passado e presente. Um dos exemplos mais claros disso está em acompanhar a vitalidade e curiosidade do jovem Salvador contraposta com o cansaço e falta de interesse de sua versão adulta.

Aliás, a dor destacada no título possui um papel importante dentro da história. O filme reserva bons minutos do primeiro ato para destacar todas as enfermidades sofridas por Salvador, proporcionando um momento cômico eficiente. Durante a explicação, narrada pelo próprio protagonista, a obra ressalta que o desgaste físico veio com a idade, consequência do tempo. Por motivos assim, é normal temer a velhice. Porém, na lógica de contrapontos estabelecida pelo longa, Almodóvar observa a velhice sobre um outro aspecto. O tempo acentua as dores do corpo, mas alivia as da alma. O perdão, por exemplo, torna-se mais fácil quando a discussão já está no passado, como pontua a cena em que Salvador perdoa Alberto, e a superação de um amor perdido já não dói tanto, como mostra o momento que o protagonista encontra um ex-namorado.

Essas nuances são ressaltadas pela interpretação de Antonio Banderas. Ao mesmo tempo em que o ator destaca o desgaste físico de Salvador, por intermédio de gestos discretos, como a lentidão ao descer de um carro, ele mostra como feridas emocionais já não doem tanto durante cenas de confrontamento, evitando elevar a voz, estabelecendo uma interpretação lenta e sensível.

Ademais, é possível analisar Dor e Glória sobre outro aspecto, o do artista. Aí entra o caráter autobiográfico do longa. Salvador representa o próprio Almodóvar, inclusive, visualmente. Através do personagem vemos as inspirações do diretor: as experiências pessoais.

Por isso, o roteiro traz diálogos longos e calçados no cotidiano, principalmente com a mãe, dando realismo às relações. Não à toa, Salvador diz durante o longa que tirou das relações a inspiração para as cores de suas obras. Nisso entra a direção de Almodóvar, com as características de sempre, utilizando cores vivas para decorar ambientes e vestir os personagens, como o vermelho, amarelo e azul, dando ares fantasiosos ao conto realista do diretor.

No entanto, atrapalha a forma com que o longa apresenta e descarta personagens importantes dentro da narrativa, sem nenhuma preparação. Após tornar-se companhia constante de Salvador, Alberto desaparece depois de adaptar o monólogo do amigo. Ausente no primeiro ato, Mercedes passar a acompanhar o protagonista na parte final. Já a presença de Federico, sugerida como importante, não dura dez minutos. O desapego do roteiro pelos coadjuvantes atrapalha até o ritmo da obra, apressada em momentos que necessitavam de suavidade.

Apesar dos problemas pontuais, Pedro Almodóvar mostra maturidade em Dor e Glória, assim como a conclusão do arco de Salvador. Esteticamente, o diretor constrói uma obra costumeiramente cativante, mas o destaque aqui está no roteiro tematicamente rico, trabalhando aspectos pessoais e gerais com igual profundidade, abordando a velhice com respeito e otimismo. Definitivamente, o tempo fez bem para Almodóvar.

Dor e Glória (Dolor y Gloria) – Espanha, 2019
Direção:
Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Cecilia Roth, Julieta Serrano, Pedro Casablanc, Asier Flores, Raúl Arévalo
Duração: 108 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.