Crítica | A Proposta (2009)

Como lidar com sentimentos no ambiente corporativo? No bojo do capitalismo, as relações tornam-se mercadoria de valor. A ambição e o sucesso não dialogam com as distrações do amor, pelo menos é o que diversos livros, filmes e séries nos apresentam, principalmente quando retratam personagens que abdicaram do estresse corporativo para viver uma “existência normal”. Na lógica deste pensamento, o sentimentalismo distrai e traz prejuízo aos envolvidos no processo produtivo. Ao menos é o que aparenta ser a postura da personagem de Sandra Bullock em A Proposta, uma mulher conhecida por ser  o diabo em forma de gente, até ter a oportunidade de conhecer o seu “grande amor”.

Escrito por Peter Chiarelli e dirigido por Anne Fletcher, a comédia romântica é ideal para duas situações, por sinal, conectadas. Com roteiro esquemático, a estrutura romântica do filme traz o esperado final feliz, elimina burocracias que atrapalham a felicidade do casal protagonista e põe em cena os elementos já consagrados pelo subgênero que até a época era talvez o mais rentável da indústria cinematográfica hollywoodiana. É uma maneira, inclusive, de observar como o paradigma de Syd Field colocou muitas produções numa camisa de força bastante desconfortável, tamanha a rigidez de suas amarras. Do começo ao fim, surgem para os espectadores as situações que colocarão os personagens num desafio rumo ao verbo principal da ação: amar.

Ao longo de seus 108 minutos, A Proposta trata de uma história já contada outras vezes. E não foram poucas. Duas pessoas não se suportam. Margaret Tate (Sandra Bullock) e Andrew Paxton (Ryan Reynolds). Um é o humilhado e o outro é o exaltado. Funcionário da editora-chefe conhecida por sua postura fria, calculista e arrogante, Paxton trabalha há três anos sem aumento ou projeção de carreira. Ele inclusive pensa em publicar um livro que a megera não domada até então sequer conferiu para reprovar. Tate é o estereótipo de chefe militar autocrática aos extremos. Lidera por meio do abuso de poder e espalha medo em seu ambiente de trabalho.

As coisas, no entanto, vão mudar, afinal, pela cartilha hollywoodiana, a malvada precisa ser colocada em seu lugar para que assim, possa mostrar o outro lado de sua personalidade, algo que poderá transformá-la em uma das boazinhas. Com o aviso de deportação emitido pelo órgão responsável por sua presença nos Estados Unidos, Tate precisa arrumar um bom motivo para garantir a sua estadia em terreno nova-iorquino. O que fazer? Casar com o seu funcionário oprimido há tempos? Essa é a sua ideia inicial. Para isso, será preciso comprovar o relacionamento e convencer na entrevista. Uma pergunta, no entanto, ressoa nas estruturas dramáticas da trama: será que Andrew vai topar? Quais os rumos que a narrativa ganha com esse ponto de virada?

Diante do desafio, Andrew se aproveita da situação e coloca as cartas na mesa. Além de uma promoção, deseja também que ela publique um livro de sua autoria. Essa é a condição inicial. Tendo em vista se conhecer melhor, ambos seguem para uma viagem inusitada, ignorada, inclusive, quando Andrew pediu folga: a comemoração do aniversário de 90 anos de sua avó, Annie (Betty White), em Sitka, cidade do Alasca, região distante dos grandes centros urbanos onde os protagonistas costumam circular. Distante dos ambientes corporativos que exalam estresse para todos os lados, a viagem será o momento ideal para os inicialmente antagônicos se apaixonarem.

Para contar a história, Anne Flecther conta com uma equipe competente. Oliver Stapleton assina a direção de fotografia que capta uma quantidade grande de imagens internas que dialogam com os efeitos visuais de pós-produção, utilizados para a simulação do que se vê pelo lado de fora da janela da belíssima casa da família de Andrew no Alasca. Caso não tivéssemos o design de produção elegante de Nelson Coates, provavelmente sentiríamos mais o artificialismo das imagens do Alasca virtual, disfarçadas pela composição visual dos ambientes externos. Lançado em 2009, A Proposta traz personagens que precisam se desafiar para conseguir o que desejam. Ela quer o visto permanente, ele quer sossego e melhoria profissional. Ambos estão a um passo de alcançar os seus objetivos, tendo como crédito o encontro com o amor, sentimento que não faz parte da dinâmica de suas vidas no tóxico ambiente de trabalho.

Tate, durona, demonstrará a sua fragilidade, e Andrew, como um bom garoto que veio do interior e conquistou espaço em Nova Iorque, demonstrará que consegue reconhecer o lado bom da chefa que apesar de sua imagem pública monstruosa, lê Charles Dickens todo final de ano e passa os festejos natalinos na solidão, pois não tem família. Não fossem algumas cenas desnecessárias, tais como o striptease com um latino que revela a visão estereotipada do exotismo sul-americano, juntamente com a fraca dança ao redor da fogueira, bem como as soluções fáceis para uma história que seria mais ousada se seguisse a linha de O Diabo Veste Prada, a comédia romântica em questão seria mais atraente, creio. Mas, no final das contas, o interesse dos realizadores é no triunfo do amor e na aderência do público diante de um filme que precisa se pagar. É como podemos entender e aceitar algumas escolhas narrativas de A Proposta, romance escapista para um mundo rodeado de desamor.

A Proposta (The Proposal – Estados Unidos, 2009)
Direção: Anne Fletcher
Roteiro: Pete Chiarelli
Elenco: Sandra Bullock, Aasif Mandvi, Betty White, Craig T. Nelson, Denis O’Hare, Malin Akerman, Mary Steenburgen, Oscar Nuñez, Ryan Reynolds,
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.