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Crítica | A Segurança Interna

por Gabriel Zupiroli
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Desde as primeiras cenas, A Segurança Interna nos insere em uma atmosfera no mínimo desconcertante. Com um estilo similar a seu contemporâneo Michael Haneke, o diretor Christian Petzold apresenta em tela a vida nada comum de uma adolescente de 15 anos, Jeanne, que vive uma vida de constante deslocamento e fuga com os pais, ex-guerrilheiros procurados na Europa toda. Ao longo do filme, seguimos a trajetória desta família por diversos lugares e como se dá o crescimento da filha em meio a essa vida errante, com sua visão de mundo sendo constantemente alterada pelas situações. Petzold, através de uma trama que se assemelha a um road movie, encontra aqui uma maneira de jogar luz sobre as dinâmicas de seu país (Alemanha) no efervescer social e político das transformações do século XXI.

Há duas linhas discursivas que se interconectam no filme, uma bem evidente, a outra um pouco menos. Por um lado, há o olhar sobre o crescer e as transformações que ele implica na perspectiva de uma adolescente que finalmente começa a questionar sua situação minimamente esdrúxula. Jeanne, tendo passado aparentemente toda sua vida nesta condição migrante, vive um constante conflito entre suas próprias concepções do que é viver, herdadas de seus pais, e aquelas que apreende pelo mundo ao seu redor. Podemos dizer que, nessa linha, Petzold constrói uma espécie peculiar de coming of age, cujo grande interesse é observar justamente o confronto entre uma suposta normalidade e o deslocamento perpétuo, em eterna mudança de identidade.

Por outro lado, há uma segunda veia discursiva que aparece um pouco menos óbvia, mas com um incisivo olhar constante, ainda que presa aos detalhes. Trata-se de uma visão sobre a própria condição daquela sociedade alemã (ou mesmo, em uma generalização grosseira, europeia) sob a influência das mudanças proporcionadas pelo recém-inaugurado século XXI. Cenas sutis reforçam periodicamente esta visão: plano da bandeira da Alemanha tremendo com o vento, a sessão de cinema exibindo um filme sobre as consequências do nazismo, etc. Em um país que respira a recente superação da ideologia nazista, assim como a ainda mais jovem unificação de sua capital (a queda do Muro de Berlim), vaga uma garota perdida em sua própria identidade desterritorializada, que carrega em si o peso de um passado por ser herdeira de dois ex-guerrilheiros fugitivos que ainda são perseguidos. Ou seja, o passado não está morto, ele vive, respira e é mais latente do que nunca. E é nele que a visão de Petzold sobre aquela sociedade e de Jeanne como portadora da história se conecta.

A junção destas duas perspectivas é o que torna o filme de Petzold tão interessante. Isso porque o diretor transita muito bem entre os elementos, dando um claro protagonismo à perspectiva das transformações adolescentes de Jeanne, mas constantemente carimbando a visão fria e, de certa forma, sarcástica sobre sua própria nação. Diversos motivos visuais e narrativos reforçam essa perspectiva, sendo que a própria condição de fugitivos é o que mais acentua o drama tanto político, quanto intimista. Adentramos completamente a visão da personagem e somos jogados em meio ao dilema moral de entender a posição de seus pais – que, querendo ou não, fazem tudo pela filha – e, ao mesmo tempo, compreender Jeanne e seus desejos, sua raiva, seu descaso colérico pela própria existência que faz com que repreenda os progenitores por ter nascido.

E Petzold escolhe representar tudo isso com uma frieza gigantesca. Compõe a mise-en-scène de maneira constantemente distanciada, alheia ao desenrolar das histórias como uma verdadeira espectadora que não possui a coragem da intromissão – o que, de certa maneira, contribui para isolar Jeanne ainda mais em sua própria interioridade. Existe uma melancolia acinzentada que permeia toda a obra, deixando pouco espaço para qualquer possibilidade afetiva mais concreta, o que faz com que mesmo as relações sexuais sejam compreendidas por sons humanos como gemidos, ou por cortes que distanciam nossa visão. Toda essa atmosfera contribui cada vez mais para o próprio isolamento da personagem, além de, simultaneamente, colocar a própria Alemanha atual, que após o holocausto, caça e elimina os que lutaram pela igualdade em suas terras, como uma sociedade fria, desprovida de quaisquer sentimentos.

Entretanto, paralelamente existe uma pulsão de vida. Diferentemente do cinema de Haneke, não ocorre uma entrega total ao controle impassível, monotonal, há uma abertura para a aproximação. Seja com a câmera que subitamente se aproxima dos rostos dos personagens em desespero, tremendo, seja pela própria narrativa que tenta, muitas vezes, exteriorizar a intimidade de Jeanne – ainda que não completamente. Enquanto o cinema de Haneke, de tão rígido e seco, flerta, muitas vezes, com um absurdo comedido e quase kafkiano, Petzold deixa a liberdade de se entregar quase à fantasia, em momentos como a cena dos carros no cruzamento. É como se a própria condição foragida e sua direta conexão com as transformações da personagem trouxessem um ar fantástico à trama, que contrasta perfeitamente com a crueza anterior.

Petzold é brutal. O autor, a todo momento, procura, através de um duplo jogo narrativo e cênico, trazer o passado de sua própria nação à tona e demonstrar as hipocrisias de uma Alemanha (uma Europa, talvez?) que se lança ao século XXI como detentora do progresso moderno. E o faz isso de uma maneira ainda mais cruel e violenta: nas impressões de uma adolescente que vive tudo menos uma normalidade – que, inclusive, rejeita fortemente essa normalidade pelas roupas, ao mesmo tempo que a deseja – e que é vítima da perene condição de deslocamento. Cria, assim, um filme gigantesco, de potência absurda, que se transforma em um grande olhar sobre as temporalidades passado-presente-futuro e demonstra como uma sociedade se constrói sobre seus próprios sedimentos, sempre levando em conta o que criou e o que destruiu.

A Segurança Interna (Die Innere Sicherheit) – Alemanha, 2000
Direção: Christian Petzold
Roteiro: Christian Petzlod, Harun Farocki
Elenco: Julia Hummer, Barbara Auer, Richy Müller, Bilge Bingul
Duração: 106 min.

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