Crítica | A Vida em Si (2018)

“Não leve isso da maneira errada, tudo que eu sempre quis foi Will se casar com uma mulher com pais mortos para que eu não tivesse que compartilhar os netos.”

Os primeiros sentimentos ao novo projeto de Dan Fogelman, criador da aclamada série This Is Us, são inicialmente mistos. O artista insiste em um começo mais cômico, narrado por Samuel L. Jackson, mas que, na verdade, nada quer dizer – um mero jogo de palavras sobre quem é protagonista e quem não é, quem é personagem coadjuvante e quem é um mero objeto de cena nas nossas vidas. Uma ironia a esse segmento se apresentará mais para frente. O diretor e roteirista, em outra instância, também começa a sua péssima dissertação sobre narradores mexendo as peças de um quebra-cabeça menos esperto do que parece ser, criando um contexto mais extraordinário do que deveria. O primeiro plot twist não surpreende, porém, é curioso o suficiente para continuarmos atentos às contemplações do cineasta, enfocando-se, portanto, no arco dramático do seu primeiro protagonista, Will Dempsey (Oscar Isaac), pessoa que passa por um quadro mental problemático. As conversas com a psiquiatra, interpretada por Annette Benning, são ótimas, principalmente dadas as respectivas interpretações. Dan, contudo, quer se mais inteligente do que o seu espectador. O choque então surge, assim como uma mórbida atmosfera.

O desastroso porquê dessa reinvestida, redefinidora de um enredo que estava sendo contado por quase quarenta minutos, sedimenta a completa inadimplência do filme em relação aos seus espectadores, emocionalmente destruídos após terem acompanhado uma consideravelmente interessante revisita ao passado da mulher de Will, Abby Dempsey (Olivia Wilde) – uma narrativa momentaneamente similar ao melhor Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. O absurdo interesse do cineasta, no entanto, é estudar o amor por meio da imprevisibilidade do mundo, com o uso de narrativas – apenas duas, na realidade – cruzadas – como em This Is Us, porque Fogelman não consegue se distanciar da sua área de conforto. As artimanhas emocionais são inúmeras, entre a câmera desacelerada e clichês narrativos sentimentalistas, como a mãe com câncer, o acidente de carro, o atropelamento por um ônibus e o suicídio. As vidas não se unem. As tragédias são unidas. A trilha sonora quase cria uma condição de trailer para os primeiros quarenta minutos, divergindo do ritmo proposto. O roteirista sepulta o seu longa-metragem com uma viagem intercontinental que não consegue suceder a mais interessante narrativa anterior.

As ótimas premissas, algumas surgindo no meio do caminho, como o relacionamento entre o personagem interpretado por Mandy Patinkin, ganhando um papel que principia uma relevância nunca atingida completamente, e a jovem interpretada por Olivia Cooke, são escanteadas, pois o capricho do cineasta obriga a necessidade por mais complexidade, saindo desse cenário mais “ordinário” e passando para outro quase que aleatório. Dan Fogelman quer, porque quer, contar algo muito maior do que meras interações humanas contariam. Os melhores momentos do filme morrem com a esperança em uma solução harmoniosa, apenas retornando em decorrência de uma noção um pouco problemática do roteiro acerca de felicidade como finalidade. O Grande Circo Místico também se embasa sobre gerações distintas cheias de acontecimentos ruins, alcançando uma “justiça merecida”. Dan Fogelman quer expor o amor, mas em meio a um primeiro conto quase niilista, perturbador de diferentes maneiras possíveis, como se, depois de um tempo, simplesmente esquecesse aquele sadismo quase genético, em contrapartida, transformando-o em um presumidamente bonito conto de fadas engrandecedor. O tempo demora muito para passar.

A conclusão, com um discurso pomposo que reitera uma proposta demasiadamente redundante, metamorfoseada por um viés sentimentalista, consolida o quão perdido o artista se encontrava em seu próprio projeto, através de uma auto-sabotagem que não pode ser encarada seriamente. Fogelman só poder estar sendo engraçadinho quando reitera sobre o narrador que não é confiável. O cineasta que mostra não ser digno da nossa confiança, guiando-nos em um universo em que o tempo avança e as roupas permanecem as mesmas. O que o roteiro está criando, nesse argumento sobre narrador imperfeito, sobre uma vida sem respostas prontas, é justamente um controle extremamente excessivo da narrativa, transparecendo artificialidade, manipulação sentimentaloide imensamente óbvia. O longa-metragem entende como sua essência o que contra-argumenta, possuindo uma presunção argumentativa que, assim como Abby comenta, “quando eu escrever, você vai entender”, Dan compreendeu apenas na sua cabeça. Um exercício dissertativo que nunca se compromete a justificar a mera existência do próprio longa-metragem. Uma antítese ao que prega com tanta veemência espertinha. A vida em si é mais ordinária, não cinemática.

A Vida em Si (Life Itself) – EUA, 2018
Direção: Dan Fogelman
Roteiro: Dan Fogelman
Elenco: Oscar Isaac, Olivia Wilde, Annette Bening, Antonio Banderas, Mandy Patinkin, Jean Smart, Olivia Cooke, Sergio Peris-Mencheta, Laia Costa, Àlex Monner, Isabel Durant, Lorenza Izzo, Samuel L. Jackson, Jake Robinson, Adrián Marrero, Kya Kruse, Charlie Thurston, Gabby Bryan, Jordana Rose, Caitlin Carmichael
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.