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Crítica | Akira (1988)

por Kevin Rick
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Sempre achei muito interessante a completa diferença visual, estilística e narrativa de animes em formato de séries baseados em mangás com filmes de animação japonesa como, por exemplo, as obras do estúdio Ghibli, a filmografia do Satoshi Kon e, claro, Akira, um dos maiores clássicos do gênero japonês, considerado por muitos a melhor animação oriental já feita. Eu não iria tão longe assim, mas o filme, baseado na obra homônima de Katsuhiro Ôtomo, que também é diretor da adaptação cinemática, definitivamente é uma das melhores e mais importantes obras japonesas de todos os tempos. A liberdade criativa de Ôtomo, algo com pouco precedente na época, especialmente num projeto com um budget extenso de 5 milhões de dólares – hoje em dia isso é troco tratando-se de animações, mas nos anos 80 era um completo absurdo -, somado ao conceito complexo, teor violento e tom sombrio da história configuram o marco fílmico que é Akira. Sua importância histórica também vai muito além de questões mercadológicas e liberdade de criação, transformando-se em referência até os dias atuais sobre como criar um anime que foge à regra de clichês, convenções e infantilidades esperadas do gênero.

O roteiro da obra expõe uma Tóquio distópica, denominada de Neo Tóquio, anos após uma singularidade destruir a cidade. Na capital japonesa futurista, o espectador é apresentado à atmosfera pós-apocalíptica cyberpunk da cidade através da dupla principal do filme, Kaneda, o líder de uma gangue de motociclistas, e Tetsuo, um membro invejoso e misterioso do mesmo grupo criminoso descrito. A dinâmica do seu relacionamento é agilmente exposta pelo roteiro, conforme o diálogo demonstra que Kaneda é o delinquente alfa, sagaz e robusto, enquanto Tetsuo é um personagem menor, fraco, lento e ligeiramente estúpido, contudo, por trás de sua faceta de incapaz, é possível notar o ressentimento maligno no seu semblante. O longa toma um rumo de ficção científica surreal com muita simbologia e elementos complexos, mas essa “amizade” continua sendo o cerne da obra e o núcleo que dita a direção da história.

Akira é mais lembrado pela confusão sci-fi da trama do que necessariamente pelo verdadeiro objetivo de Ôtomo, que é a exposição da degradação social, utilizando temáticas de juventude insatisfeita e rebelde, corrupção governamental, descaso militar e policial, fanatismo religioso, destruição nuclear e machismo para criar sua própria fábula surreal e, de certo modo, otimista. A partir do momento que você se desapega da complexidade, que eu, na verdade, sequer acho tão complicada assim, já que as linhas gerais da ficção científica são bem elaboradas, apenas os detalhes e o final que não são mastigados à audiência, é que se pode genuinamente mergulhar na experiência visual e espiritual de Akira.

A construção de mundo é definida pela podridão advinda de seus indivíduos, assim como todo o teor fantástico é manuseado como muleta de temas intrínsecos da humanidade, logo, a corretamente exaltada ficção científica serve apenas como recipiente do discurso de pertencimento, crítica tecnológica e, como já disse, visão esperançosa do diretor. Tentar entendê-la minuciosamente é um desserviço à obra, que tem como foco o corrompimento de Tetsuo, proveniente de uma realidade infantil violenta e ressentida, e como o herói da história nada mais é que outro adolescente em contradição, um delinquente que na sua própria maneira tenta cuidar de seu colega, mas sempre negou seus sentimentos e corroborou para o complexo de inferioridade do “antagonista”. Um cyberpunk que em seu cerne tem um melodrama juvenil.

Essa luta de Tetsuo por individualismo, e de Kaneda por perspectiva, pintam o mundo coletivamente degradante da Neo Tóquio, com os personagens secundários tomando para si posições simbólicas dentro da trama, como os seres cinzas, em um reflexo do abuso infantil, Kei, como figura do poder feminino e quebra do sexismo, o policial e o militar honestos, ambos sofrendo na mão da deturpação governamental, novamente reiterando a temática do coletivo passando por cima de indivíduos íntegros, e até mesmo Tetsuo é a representação dos males tecnológicos, um assunto debatido tão fortemente hoje, demonstrando a atemporalidade do filme.

Akira é uma obra que utiliza da fúria adolescente para dialogar sobre a revolução tecnológica, a adulteração de poder e a hierarquia quebrada, manuseando uma visão fantasiosa surreal, com um belíssimo cenário cyberpunk, que, assim como tudo no filme, é mais uma simbologia para seu discurso social, criando um legado sensacional de conquista técnica, com uma animação que ainda se sustém contra a tecnologia posterior, uma narrativa recheada de temas ocultos, que desafiam o espectador, tão na contramão da exposição de animes, e até mesmo criou seu próprio cult following em torno da fenomenal complexidade sci-fi. Já vi muitas interpretações do final, mas vejo o desfecho dentro dessa vertente otimista do diretor, em uma forma de renascimento dos personagens principais e do próprio universo como um todo. Uma obra que merece uma revisitação anual.

Obs: Eu tentei me abster ao máximo de spoilers, pois é uma obra que merece uma interpretação própria, tendo diferentes significados para cada pessoa, especialmente em seu desfecho. Também é necessário dizer que a adaptação diverge bastante do mangá. Recomendo para qualquer um ler essa obra-prima, que, para mim, é melhor que a película. Duas experiências fantásticas com os mesmos personagens!

Akira (アキラ) — Japão, 1988
Direção: Katsuhiro Ôtomo
Roteiro: Katsuhiro Ôtomo, Izo Hashimoto (baseado em Akira de Katsuhiro Ôtomo)
Elenco: Mitsuo Iwata, Nozomu Sasaki, Mami Koyama, Tesshô Genda, Hiroshi Ôtake, Kôichi Kitamura, Michihiro Ikemizu, Yuriko Fuchizaki, Masaaki Ôkura, Tarô Arakawa, Takechi Kusao, Kazumi Tanaka
Duração: 124 min.

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