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Crítica | Alice in Borderland – 1ª Temporada

Batalhas reais, perigosas, vorazes e mortais.

por Ritter Fan
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Baseado em mangá de Haro Asō, Alice in Borderland é mais uma obra que se soma a diversas outras que, no estilo popularizado, mas não inventado por Koushun Takami em Battle Royale, lida com humanos tendo que lutar e/ou competir uns contra os outros pela sobrevivência. No entanto, não interpretem esse fato como um aspecto negativo, pois a série capitaneada por Shinsuke Sato consegue trabalhar muito bem os tropos mais batidos e comuns do referido subgênero literário e audiovisual, criando uma obra com identidade própria e, mais ainda do que isso, uma estrutura azeitada que resiste à tentação de transformar os oito episódios em meras repetições do conceito central que coloca jovens japoneses em meio a jogos mortais organizados por uma entidade desconhecida em uma Tóquio misteriosamente vazia.

A história, inicialmente, gira em torno de três inseparáveis amigos, Ryōhei Arisu (Kento Yamazaki), um gamer com dificuldades para encontrar rumo na vida e para se conectar com a família; Chōta Segawa (Yūki Morinaga) um técnico em TI que não gosta de seu emprego; e Daikichi Karube (Keita Machida) um bartender que tem um caso com a namorada de seu chefe. Depois de causarem uma confusão dos diabos no famoso cruzamento de Shibuya, ele se escondem da polícia no banheiro de uma estação de metrô e, ao saírem, descobrem que toda a população da cidade desapareceu e que, agora, eles são obrigados a participar de jogos mortais em arenas – que podem ser prédios, estádios, jardins e outros lugares de Tóquio – que lhe valem, ao final, uma carta de baralho e “vistos” que lhe permitem permanecer por ali sem jogar por alguns dias.

Seria tentador a qualquer produção mais hollywoodiana que cada um dos oito episódios fosse um jogo diferentes e a temporada até parece ensaiar essa abordagem já bastante cansada, mas não é isso o que acontece. Cada jogo jogado é um bloco narrativo que constrói uma história muito interessante e razoavelmente complexa e misteriosa, mas sem perder de vista os dramas pessoais dos personagens principais tendo que encarar as mais terríveis tragédias. E, sem dar muito tempo para o espectador pensar, a estrutura muda completamente, transportando grande parte da ação para um local chamado apenas de “Praia” que é uma utopia organizada para os participantes dos jogos que se mostrarem valorosos para a comunidade e que, claro, logo se mostra doente e corrompida por dentro.

Até mesmo a violência extrema que é de esperar de uma obra com esse conceito é usada funcionalmente para avançar tanto a história macro quanto as histórias específicas dos personagens. Não há aquela pura gratuidade nos horrores que são explicitamente mostrados em tela, apenas um uso engenhoso do artifício para levar o espectador a breves flashbacks que abordam o passado da trinca principal inicial e vários dos demais personagens que vão surgindo, especialmente a alpinista Yuzuha Usagi (Tao Tsuchiya), que logo se mostra fundamental para a temporada. Claro que o mesmo efeito poderia ser atingido sem o derramamento de sangue que vemos escorrer pela telinha, mas a grande verdade é que a premissa de Alice in Bordeland pede essa abordagem e, dentro dessa abordagem, Shinsuke Sato mostra que sabe o que está fazendo e não se rende ao espetáculo de horrores apenas porque assim pode fazê-lo.

Também como era de se esperar, o mistério por trás de tudo é guardado a sete chaves nesta temporada inaugural. Sim, há um fluxo constante de revelações interessantes ao longo dos oito episódios, especialmente no último, claro, que mantém o espectador alimentado com aquilo que é cirurgicamente suficiente para mantê-lo curioso, sem que explicações em demasia – e que provavelmente exigirão doses cavalares de suspensão da descrença – atrapalhem o ritmo da história e dos comentários críticos que são feitos sobre o que somos capazes de fazer pela nossa sobrevivência em situações extremas de dor e desespero e se, diante delas, somos capazes de manter nossa humanidade, dentre outros comentários sobre a vida em sociedade.

Outra qualidade da série é saber usar a computação gráfica ou, melhor dizendo, deixar evidente para o espectador que um tigre hiper-realista que gastaria muito mais em CGI em absolutamente nada contribuiria para melhorar a história sendo contada. O que quero dizer com esse exemplo é o que costumo dizer sempre sobre os males do CGI: na maioria das vezes, ele deve existir para complementar e não para ser o centro das atenções. E é isso que Shinsuke Sato faz ao não se preocupar demais com animais e jorros de sangue digitais, entregando apenas o que precisa para contar sua história. Seu maior feito, na verdade, é conseguir recriar em estúdio uma Tóquio vazia, sem que a artificialidade da coisa seja facilmente perceptível, mesmo pelos olhos mais treinados, por meio de cenários reais e uso de chroma key e, suspeito, retroprojeção (como em The Mandalorian, por exemplo), em uma fusão visual excelente e altamente convincente.

O primeiro ano de Alice in Borderland revela-se como uma ficção científica de sobrevivência dinâmica, violenta e do mais alto gabarito que leva sua premissa a sério sem cair no canto da sereia de fazer a mesma coisa sempre, que não tem medo de mudar o status quo quando precisa e que conta com um elenco jovem surpreendentemente eficiente na maneira como eles comunicam seus sentimentos e seus dramas. Diria que a coisa toda é tão eficiente que chega ao ponto de ser completamente desimportante entender o “como e o porquê” de toda a situação criada – mais ou menos como, em séries de zumbi, é desimportante saber como a epidemia começou -, bastando apreciar o desenvolvimento de uma narrativa absolutamente irresistível para quem, claro, tiver estômago forte e quiser entrar sem medo no jogo.

Alice in Borderland (今際の国のアリス / Imawa no Kuni no Arisu – Japão, 10 de dezembro de 2020)
Desenvolvimento: Shinsuke Sato (baseado em mangá de Haro Asō)
Direção: Shinsuke Sato
Roteiro: Yoshiki Watabe, Yasuko Kuramitsu, Shinsuke Sato
Elenco: Kento Yamazaki, Tao Tsuchiya, Yūki Morinaga, Keita Machida, Nijirō Murakami, Ayaka Miyoshi, Dori Sakurada, Aya Asahina, Sho Aoyagi, Nobuaki Kaneko, Riisa Naka, Shuntarō Yanagi, Ayame Misaki, Mizuki Yoshida
Duração: 386 min. (oito episódios)

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