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Crítica | Asterix e a Surpresa de César

por Ritter Fan
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Astérix est là
Et il se bat comme un gaulois
Astérix est là
Et pour César c’est pas la joie
– Plastic Bertrand

Depois de Os Doze Trabalhos de Asterix, de 1976, terceiro longa animado de Asterix e Obelix que permaneceria como o único não baseado em algum álbum até 2018, René Goscinny faleceu, Albert Uderzo resolveu responsabilizar-se também pelos roteiros das histórias e a produtor cinematográfica da dupla acabaria esquecida, com Georges Dargaud fundando uma outra para continuar as animações. Em razão de todos esses percalços, Asterix e a Surpresa de César chegou aos cinemas franceses nada menos do que nove anos depois, uma espera longa que, felizmente, gerou bons frutos.

Pierre Tchernia, que escrevera o roteiro do longa anterior juntamente com os criadores, assumiu sozinho o trabalho de criar uma nova animação, desta vez bebendo diretamente não de um, mas sim de dois célebres álbuns dos irredutíveis gauleses. De Asterix Legionário ele retirou a paixão de Obelix pela bela Falbalá (Séverine Morisot) que faz com que o gaulês grandalhão não consiga sequer falar quando está perto dela e o sequestro da moça e de seu noivo Tragicomix (Thierry Ragueneau) pelos romanos, que os enviam à Legião Romana no norte da África, fazendo com que Asterix (Roger Carel) e Obelix (Pierre Tornade, que fez a voz de Abracurcix na animação anterior) partam para salvá-los (no álbum, apenas Tragicomix é levado pelos romanos). De Asterix Gladiador o roteirista usa o conceito de um celebração em homenagem à Júlio César (Serge Sauvion) que acaba levando os pombinhos gauleses para o Coliseu (no álbum, é Chatotorix que acaba por lá), o que, ato contínuo, leva Asterix e Obelix a lutarem como gladiadores.

Mesmo considerando que, lá no fundo, teria sido potencialmente melhor ver adaptações separadas de cada um desses álbuns, é inegável que ambos são tematicamente próximos e que uma reunião em uma produção só faz todo sentido, especialmente porque Tchernia, mesmo usando muito material das criações de Goscinny e Uderzo, não fica totalmente escravo a elas, criando o seu próprio tom narrativo que une de maneira bem competente, ainda que não perfeita, as duas histórias. O melhor do roteiro é que ele consegue criar uma cadência gostosa ao filme, aproveitando bem o jeito abobalhado ao extremo de Obelix diante de Falbalá, com direito a árvores derrubadas, balbucios e completa paralisia corporal, algo que a voz de Pierre Tornade, pela primeira vez no papel, tomando o lugar de Jacques Morel, amplifica esplendidamente, ao mesmo tempo mantendo o tom meio bobo que o grandalhão pede e uma excelente fluência verbal que coloca o personagem pela primeira vez com uma quantidade de diálogos igual, se não superior, à de Asterix.

Por outro lado, é curioso notar que mesmo considerando os dois álbuns utilizados, foi necessário criar sequências e subtramas inexistentes neles que parecem se prestar unicamente a aumentar a duração do longa, de forma que ele alcançasse “tamanho regulamentar”. Uma delas coloca Asterix em real perigo pela primeira vez que se tem notícia, já que ele, sem poção mágica, é capturado pelos romanos e trancafiado em uma cela que, com o temporal que se segue, quase o leva ao afogamento. A salvação é conveniente demais claro, com Obelix simplesmente ouvindo os gritos de socorro do amigo em plena e vasta Roma, mas o inusitado da coisa faz a sequência funcionar. Por outro lado, durante a tempestade, Ideiafix encarrega-se de uma missão paralela para recuperar o cantil de poção mágica de Asterix, tendo que lidar com a correnteza e os ratos dos esgotos de Roma em um historieta interessante, mas longa demais, que quebra a progressão do desenho e deságua (sem trocadilho) em outra conveniência de roteiro, com o cachorrinho “magicamente” localizando seu dono e Asterix no Coliseu.

A animação consegue ser, talvez, meio degrau acima do já ótimo trabalho no longa anterior, com personagens que literalmente pulam das páginas – Falbalá e Tragicomix, pelas diferenças anatômicas clássicas que Uderzo criou proposialmente, saltam aos olhos de maneira muito positiva, em contraste a todos os demais – para a película, além do uso de cores muito vivas e bonitas, além de expressões faciais complexas e detalhadas. A já mencionada sequência dupla da tempestade em Roma é, diga-se de passagem, um primor da técnica de animação do desenho, quase tendo vida própria independente de todo o restante. Além disso, é aqui que a icônica canção Astérix est Là, de Plastic Bertrand, composta para ser bem “chiclete”, aparece pela primeira vez, o que de imediato estabelece uma identidade musical aos protagonistas.

Asterix e a Surpresa de César demorou a ser produzido, mas o resultado foi uma das melhores animações 2D da série, inaugurando um período fértil nos longas de Asterix e Obelix, com mais três sendo lançados em menos de 10 anos. Diversão gaulesa garantida para todas as idades.

Asterix e a Surpresa de César (Astérix et la Surprise de César – França, 1985)
Direção: Gaëtan Brizzi, Paul Brizzi
Roteiro: Pierre Tchernia (baseado em criações de René Goscinny e Albert Uderzo)
Elenco: Roger Carel, Pierre Tornade, Pierre Mondy, Serge Sauvion, Henri Labussière, Roger Lumont, Michel Barbet, Yves Barsacq, Pierre Mirat, Séverine Morisot, Danielle Licari, Henri Poirier, Patrick Préjean, Jean-Pierre Darras, Thierry Ragueneau, Nicolas Silberg, Philippe Dumat, Pierre Tchernia, Michel Gatineau, Guy Piérauld
Duração: 79 min.

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