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Crítica | Os Doze Trabalhos de Asterix

por Ritter Fan
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Apesar de duas animações de sucesso em anos seguidos em 1967 e 1968, a primeira delas sem e a segunda com a participação de René Goscinny e Albert Uderzo, criadores dos irredutíveis gauleses, o terceiro longa da franquia só foi lançado em 1976, depois da formação de uma empresa de produção da dupla especificamente para isso (Studios Idéfix), mas que, ironicamente, só acabaria produzindo Os Dozes Trabalhos de Asterix justamente um ano antes do falecimento de Goscinny. E o longa não só é uma evolução em termos de técnica de animação se compararmos mesmo com Asterix e Cleópatra, como seria o único até 2018, com o lançamento de Asterix e o Segredo da Poção Mágica, a não se basear em um álbum da série (ou combinação deles), ainda que ele sofra de problemas trazidos por sua própria premissa.

O roteiro, co-escrito por Goscinny e Uderzo em parceria com Pierre Tchernia, também co-roteirista do anterior, lida com um desafio extravagante que Júlio César (Jean Martinelli) faz à aldeia dos gauleses por não aguentar mais a derrota na mão deles e toda a pressão que recebe de seus senadores em Roma em razão disso: se eles conseguirem cumprir 12 trabalhos inspirados nos de Hércules da mitologia, então Roma se curvaria aos gauleses, mas, se eles não conseguissem cumprir apenas um dos trabalhos, a aldeia toda se submeteria de vez ao jugo romano. Claro que os escolhidos para enfrentar os desafios são Asterix (Roger Carel) e Obelix (Jacques Morel) que, então, passam a ser guiados por Caius Titulus (também voz de Carel) que serve também como observador do cumprimento das tarefas.

O que imediatamente chama a atenção do espectador é mesmo a qualidade gráfica e o trabalho de voz do elenco. Há um evidente crescendo desde Asterix, o Gaulês nesses quesitos e Os Doze Trabalhos de Asterix é, até hoje, uma das melhores – senão a melhor – animações 2D dos personagens nesses aspectos técnicos. Há cuidado não só na transposição exata dos desenhos clássicos de Uderzo para a animação, como uma elegância constante e, melhor ainda, variedade de movimentos por todos, sejam os protagonistas, sejam os legionários que apanham deles. As clássicas vozes da dupla Carel-Morel, acompanhados da de Martinelli, são brindadas por excelentes trabalhos de sincronização, que são amplificadas pela variada trilha sonora composta por Gérard Calvi e pelos efeitos sonoros comandados por Henri Gruel.

No entanto, como mencionei no início da crítica, a premissa da história cria problemas para ela mesma. Afinal, são nada menos do que 12 tarefas a serem cumpridas por Asterix e Obelix, tarefas essas que são, ainda por cima, antecedidas pela necessária construção da narrativa e sucedidas por um caótico (e surpreendente) epílogo em Roma, o que acaba deixando um tanto quanto evidente o fator “repetição”. Mesmo que alguns trabalhos sejam muito simples – e até pouco originais -, passando rápido, como a corrida contra um corredor olímpico grego ou a luta contra um artista marcial germânico, elas acabam se amontoando em uma sucessão um tanto quanto genérica. Mas há destaques, claro. O mais significativo deles é o enganosamente fácil trabalho de se conseguir um formulário em uma repartição pública, com o roteiro criando uma enervante – ou melhor, desesperadora – situação labiríntica e kafkiana com Asterix e Obelix tendo que subir e descer andares de um prédio do governo e falar com uma enorme quantidade de pessoas em guichês numerados, algo que, claro, todos nós já tivemos que encarar na vida de uma forma ou de outra considerando que a burocracia francesa não lambe as botas da brasileira. Há também, um curiosamente libidinoso trabalho que é resistir à tentação de uma ilha paradisíaca com mulheres esculturais prontas para realizar quaisquer desejos da dupla, algo que sem dúvida seria visto como machista hoje em dia, mas que nada mais é do que algo perfeitamente razoável considerando-se a inspiração na mitologia grega.

No entanto, nada consegue afastar a sensação, trazida à reboque pela quantidade de trabalhos, de que o longa ultrapassa a minutagem que deveria ter para resultar em uma obra com a mesma qualidade de seu lado técnico. Seja como for, sem dúvida Os Doze Trabalhos de Asterix é uma animação memorável por ser a única baseada em material original criado por Goscinny em vida e ter momentos realmente inesquecíveis como os que destaquei acima, além de outros, inclusive seu final ousado na forma com que reconta a História (essa com H maiúsculo mesmo).

Os Doze Trabalhos de Asterix (Les Douze Travaux d’Astérix – França/Reino Unido, 1976)
Direção: René Goscinny, Albert Uderzo, Henri Gruel, Pierre Watrin
Roteiro: René Goscinny, Albert Uderzo, Pierre Tchernia
Elenco: Roger Carel, Jacques Morel, Jean Martinelli, Pierre Tornade, Henri Virlogeux, Micheline Dax, Gérard Hernandez, Pierre Tchernia, Roger Lumont, Stéphane Steeman, Georges Atlas, Henri Labussière, Odette Laure, Bernard Lavalette, Jacques Hilling, Henri Poirier, Claude Bertrand, Monique Thubert
Duração: 78 min.

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2 comentários

Fabio Gomes 1 de fevereiro de 2021 - 09:57

Esse meu comentário não tem a ver diretamente com o filme analisado, e sim mais com o ‘universo Asterix’ em si (rs), mais exatamente com a presença de Júlio César em diversos álbuns e animações. Recapitulemos: o César histórico viveu 55 anos, tendo sido assassinado em 44 a.C., e a campanha da Gália se deu entre os anos de 58 a 50 a.C.

Então entendo que, basicamente, toda história de Asterix que envolva César deveria se passar nas décadas de 50 e 40 a.C., com César na casa dos 40-50 anos (faz tempo que não leio os álbuns, mas até onde lembro César era retratado como alguém muito mais velho, na faixa de 60 a 70 anos).

Alguém já elaborou alguma espécie de linha do tempo em relação aos álbuns? Seja situando algumas histórias em datas específicas, ao menos aproximadas (por exemplo, César esteve no Egito entre outubro de 48 e abril de 47, então a história de ‘Asterix e Cleópatra’ forçosamente teria que se passar dentro dessa janela de tempo), seja estabelecendo uma ordem cronológica dos fatos envolvendo a última aldeia de gauleses irredutíveis?

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planocritico 1 de fevereiro de 2021 - 09:57

Não conheço nenhuma linha do tempo dos álbuns não. Seria um exercício histórico bem interessante até.

Sobre a aparência de César, de fato ele parece ter 60 a 70 anos, mas ele também se parece bastante com a efígie dele usada nas moedas romanas que, suspeito, foi a inspiração principal para Uderzo.

Abs,
Ritter.

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