Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Ave, César!

Crítica | Ave, César!

por Roberto Honorato
263 views (a partir de agosto de 2020)

 Queria que fosse assim tão simples

Sempre que um filme oferece um olhar dentro dos bastidores de alguma produção ou até mesmo da indústria cinematográfica, fico entusiasmado. Além disso tudo, Ave, César! ainda tem um enorme diferencial: os irmãos Coen na direção. Ou seja, tem tudo para ser uma das melhores coisas que já vi na vida, não é mesmo?

O filme segue mais um dia na vida de Eddie Mannix (Josh Brolin), um produtor que também serve de “quebra galhos” das estrelas, resolvendo seus problemas antes que elas se vejam envolvidas em algum escândalo que possa sujar sua imagem. Diretores não conseguem lidar com novas integrações ao elenco, atrizes não se sentem confortáveis com seus papéis, ninguém entra em um consenso sobre a representação de uma figura religiosa em uma mega produção e, para piorar, um dos atores mais aclamados do estúdio acabou de ser raptado por uma organização secreta conhecida apenas como “O Futuro”. Esse é o ambiente perfeito para os irmãos Coen trabalharem, com todas os absurdos iminentes da premissa de Ave, César, tudo que podemos fazer é sentar a aproveitar o desenrolar da trama.

Cada um destes personagens se torna um elemento diferente em um segmento do filme e o elenco é de encher os olhos. George Clooney é Baird Whitlock, um ator talentoso, porém bobalhão, que acaba nas mãos de figuras que podem trazer uma enorme mancha na sua imagem de estrela norte americana (eu não posso entregar mais que isso por conta das piadas envolvendo as intenções dessa organização e a resolução inesperada). Aliás, mesmo que Clooney esteja envolvido na trama principal, o filme tem bastante espaço para os personagens de Channing Tatum e Alden Ehrenreich, dedicando também alguns minutos para Scarlett Johansson, Tilda Swinton e uma ponta para Jonah Hill. Falando nisso, foi bom ver – mesmo que por pouquíssimo tempo – Frances McDormand, com quem os Coen vem trabalhando desde seu primeiro longa.

O filme é cheio de referências e nostalgia, desde o auge do estúdio MGM (aqui chamado de Capitol Pictures, um nome que fica mais engraçado quando você começa a perceber o que está acontecendo) até as óbvias insinuações de personalidades conhecidas dos fãs da sétima arte, como o número de dança ao estilo Gene Kelly de Tatum e as investidas jornalísticas do personagem de Tilda, que lembra o comportamento de Hedda Hopper. Há até uma Carmem Miranda (aqui chamada de Carlotta Valdez) na personagem de Veronica Osorio.

Para retratar com fidelidade a época, nada melhor que a visão do diretor de fotografia Roger Deakins, retornando para mais uma colaboração com a dupla de diretores, desta vez deixando um pouco de lado o digital com o qual acabou se acostumando para usar a boa e velha película, já que fica muito mais convincente na hora de recriar o visual da Hollywood clássica (sem contar que nada supera a qualidade de um acetato ou poliéster). Além disso, todo o departamento de figurino e cenografia faz um ótimo trabalho, deixando os personagens e o ambiente em sintonia com as cores vibrantes e os adereços artificiais.

Todo este esforço para manter um nível de fidelidade estética e referencial é notável, exige uma direção com bastante disciplina, mas o filme tem seus problemas. A estrutura narrativa não é nova, ainda mais para a dupla, que já praticou o desenvolvimento de tramas paralelas, muitas vezes sem sequer terem uma ligação direta, mas que no fim faziam parte de um grande arco ou tema.

Em Ave, César!, as várias subtramas não parecem estar no mesmo tom, mesmo que todos os personagens estejam no mesmo estúdio, rendendo uma montagem um pouco confusa e aleatória. Além disso, a maioria das tramas parecem pequenas esquetes dentro de um mesmo tema, mas sem conversarem entre si. Aliás, o humor, que é sempre um ponto alto dos Coen, aqui perde um pouco de sua agilidade e acidez, principalmente nos diálogos, tendo apenas pequenas sequências memoráveis e inteligentes.

Talvez agrade bastante os fãs e cinéfilos apaixonados por esta época nostálgica de Hollywood, com todo o apelo visual e as referências, mas nunca chega a trazer algo diferente e fica apenas no que filmes com a mesma proposta já fizeram – talvez até melhor.

Ave, César! (Hail, Caesar!) – EUA, 2016
Direção: Ethan e Joel Coen (Irmãos Coen)
Roteiro: Ethan e Joel Coen
Elenco: Josh Brolin, George Clooney, Tilda Swinton, Frances McDormand, Scarlett Johansson, Ralph Fiennes, Alden Ehrenreich, Channing Tatum, Jonah Hill, Veronica Osorio, Alison Pill, Michael Gambon, Dolph Lundgren
Direção: 106 min.

Você Também pode curtir

3 comentários

Marcellofn 2 de outubro de 2020 - 13:28

Não posso negar que fiquei um pouco decepcionado com o filme, ainda mais por dos irmãos Coen e ter um elenco tão estrelado. Realmente, a estrutura de esquetes não ficou bem “colado”, tendo apenas o personagem do Josh Brolin como fio condutor e o único papel realmente relevante do filme. Apesar de Fargo ter um tema muito mais pesado, os momentos hilários são bem mais acentuados que aqui, com uma história muito mais leve.

Responder
Maitê 21 de abril de 2016 - 23:21

Você tem toda a razão sobre o filme não ser nada atraente para o espectador desavisado. Fui assistir ao filme com uma amiga e ela dormiu de tédio, no fim comentou que não entendeu nada. Como li e adorei o prêmio Nobel da Literatura fútil – Hollywood Nua e Crua – eu estava preparada, por isso me deliciei com os irmãos Coen. De cara consegui identificar quase todos: Genne Kelly, Vicente Minnelli, Carmem Miranda e acho que o caubói “simpre” era John Wayne. Agora a grande sacada do filme, a meu ver, é a “conversão” do personagem de Clooney e o grupo de roteiristas numa clara alusão a era da caça aos comunistas na Hollywood dos anos cinquenta. E realmente Josh Brolin, o enteado de Barbra Streisand, está impagável. Valeu.

Responder
Maitê 21 de abril de 2016 - 23:21

Você tem toda a razão sobre o filme não ser nada atraente para o espectador desavisado. Fui assistir ao filme com uma amiga e ela dormiu de tédio, no fim comentou que não entendeu nada. Como li e adorei o prêmio Nobel da Literatura fútil – Hollywood Nua e Crua – eu estava preparada, por isso me deliciei com os irmãos Coen. De cara consegui identificar quase todos: Genne Kelly, Vicente Minnelli, Carmem Miranda e acho que o caubói “simpre” era John Wayne. Agora a grande sacada do filme, a meu ver, é a “conversão” do personagem de Clooney e o grupo de roteiristas numa clara alusão a era da caça aos comunistas na Hollywood dos anos cinquenta. E realmente Josh Brolin, o enteado de Barbra Streisand, está impagável. Valeu.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais