Mais uma vez, nossa querida esponja do mar amarela retorna às telonas em seu quarto longa-metragem, agora dirigido por Derek Drymon, cujo último projeto em animação foi Hotel Transilvânia 4: Transformonstrão (2022); uma ótima escolha do estúdio, já que o veterano foi diretor criativo das três primeiras temporadas de Bob Esponja e coescreveu o filme inaugural de 2004, ao lado do criador Stephen Hillenburg. Pensado como produção para o streaming, com foco no Sr. Sirigueijo, o projeto foi reconfigurado para os cinemas quando executivos da Paramount decidiram reposicionar o Bob Esponja como protagonista do enredo. A maravilhosa animação em CGI 3D ficou a cargo do estúdio texano Reel FX, sob supervisão de Liz Hemme, enquanto a boa trilha foi composta por John Debney. Com roteiro de Pam Brady e Matt Lieberman, a produção trouxe de volta o elenco original da série e botou Mark Hamill como o Holandês Voador. O filme estreou no AFI Film Festival, em outubro de 2025 (com uma recepção bem tímida), antes de chegar oficialmente aos cinemas brasileiros.
Bob Esponja, após alcançar altura suficiente para andar na montanha-russa do parque Capitão Barba de Botim, descobre que não possui coragem para enfrentar o brinquedo. Desesperado para provar sua maturidade ao Sr. Sirigueijo, que lhe conta sobre seu passado como corsário, o protagonista e Patrick invocam acidentalmente o Holandês Voador através de uma trombeta mágica. O fantasma pirata, amaldiçoado a vagar eternamente pelo Submundo até trocar de lugar com uma alma inocente, vê em Bob Esponja a vítima perfeita e o convida para desafios piratescos que supostamente o transformarão em corsário certificado. O que Bob desconhece é que o Holandês planeja usar sua pureza para quebrar a maldição que o aprisiona há séculos. Essa estrutura dupla ressalta o principal problema do roteiro: enquanto o núcleo protagonizado por Bob Esponja e Patrick é super dinâmico e repleto de situações surrealistas, o núcleo de resgate comandado pelo Sr. Sirigueijo se arrasta em cenas repetitivas. Personagens como Sandy, Plankton e Sra. Puff viraram apenas participações brevíssimas. A montagem de Wyatt Jones tenta equilibrar os blocos com nuances tão diferentes, mas a disparidade de ritmo permanece perceptível.
Como disse em entrevistas, Drymon tentou evitar o hiper-realismo e o tipo de CGI que mimetiza técnicas bidimensionais, inspirando-se em brinquedos de plástico dos anos 60. O resultado entregue pela Reel FX é muito legal, superior ao de Bob Esponja: O Incrível Resgate (2020), mas não tem o charme orgânico da animação tradicional. A Fenda do Biquíni renderizada em 3D parece limpa demais. Drymon compensa parcialmente: flashbacks em ilustrações bidimensionais, fundos em mosaico lembrando games retrô, e mudanças de traço para representar estados psicológicos (particularmente, achei todas essas técnicas absolutamente maravilhosas). Mark Hamill entrega uma performance vocal memorável como o Holandês Voador, trazendo camadas cômicas e ameaçadoras. A química entre Hamill e Regina Hall, que dubla Barb, faz uma dinâmica bem diferente. A trilha de John Debney brinca com temas aventurescos e piratescos e eu gosto da maioria das peças que ele compôs para o filme, mas confesso que não ouvi nada memorável aqui. A canção Big Guy, da Ice Spice, gerou polêmica pela escolha da rapper para um projeto infantil (uma bobagem sem tamanho, convenhamos) e por seu beat minimalista e enjoativo.
O principal obstáculo que impede o filme de alcançar o nível dos melhores momentos da franquia é a repetição. Muitas cenas são construídas a partir de personagens dizendo as mesmas frases. Piadas de bunda também são uma obsessão do roteiro, que recicla sem disfarces a premissa do longa de 2004: Bob Esponja tentando provar que não é mais uma criança. A tentativa de resgatar o espírito das temporadas iniciais da série acaba gerando momentos hilários (quando abraça o nonsense), mas o humor se espalha por situações sem aquela inventividade subversiva de Stephen Hillenburg que faz a série ser tão boa. O ritmo frenético para manter a atenção do público infantil produz efeito contrário em espectadores adultos (para as crianças, porém, devo dizer que será pura diversão).
Ainda assim, há méritos aqui: a relação entre o protagonista e o Sr. Sirigueijo ganha um desenvolvimento emocional sincero, a performance de Clancy Brown passa um carinho evidente pelo personagem, e a concentração da aventura em poucos personagens permite que suas personalidades sejam exploradas até onde o roteiro permite, o que às vezes não é muito, mas funciona muito melhor do que se tivéssemos um turbilhão de personagens com espaço relevante em cena. Bob Esponja: Em busca da calça quadrada é um entretenimento familiar que manterá crianças engajadas e risonhas, mas deixa a sensação de que a franquia ainda patina ao tentar encontrar o equilíbrio entre nostalgia pelas temporadas clássicas e necessidade de inovação cinematográfica.
Bob Esponja: Em Busca da Calça Quadrada (The SpongeBob Movie: Search for SquarePants) — EUA, 2025
Direção: Derek Drymon
Roteiro: Pam Brady, Matt Lieberman (baseado em história de Marc Ceccarelli, Kaz, Andrew Goodman e personagens de Stephen Hillenburg)
Elenco: Tom Kenny, Clancy Brown, Rodger Bumpass, Bill Fagerbakke, Carolyn Lawrence, Mr. Lawrence, George Lopez, Ice Spice, Arturo Castro, Sherry Cola, Regina Hall, Mark Hamill, Mark Whitten, Tom Wilson, Grey DeLisle, Jill Talley, Juan Francisco Villa, Margaux Susi
Duração: 88 min.
