Crítica | Brinquedos Que Marcam Época – 3ª Temporada

Brinquedos Que Marcam Época é uma das séries documentais mais deliciosas que já vi e eu sinceramente achava que grande parte dessa minha conclusão vinha do fator nostalgia que a abordagem de brinquedos icônicos que marcaram minha infância receberam nas duas primeiras temporadas. No entanto, a 3ª temporada veio para desfazer essa minha impressão e colocar todo o peso da qualidade do que vemos na telinha no magnífico trabalho de pesquisa de Brian Volk-Weiss e sua equipe, além dos roteiros de Nicholas Ferrell e Benjamin J. Frost e a gostosa narração de Donald Ian Black. Afinal, os quatro brinquedos da vez – Tartarugas Ninja, Power Rangers, Meu Querido Pônei e Luta Livre – nunca fizeram parte da minha infância por simplesmente eu ter crescido na época em que os dois primeiros apareceram (até hoje nunca sequer vi um segundo de qualquer programa dos Power Rangers), por nunca ter brincado com os pôneis coloridos e, claro, por jamais ter me interessado em luta livre.

Portanto, o fator nostalgia não existiu para mim nessa análise da nova temporada e, mesmo assim, minha conclusão é que os envolvidos nessa serie têm o magnífico dom de contar excelentes histórias para qualquer tipo de público. Se nostalgia for um fator a mais, tanto melhor, mas ela não é determinante e muito menos premissa para se apreciar o que é feito aqui. Afinal, há um cuidado histórico muito grande que lida com brigas sobre autoria ou relacionamento entre co-criadores que acabam ganhando um tratamento completo, mas sempre de tom irreverente e brincalhão, mas que jamais deixa a galhofa se sobrepor às informações passadas, muitas delas realmente interessantes, como a origem verdadeira dos Power Rangers ter conexão com Stan Lee e a famosa e surreal adaptação japonesa do Homem-Aranha ou como os Pôneis de crinas multicoloridas ganharam os desenhos “no bumbum” que são sua marca registrada mais ainda do que suas cores extravagantes. Além disso, a caça das pessoas que realmente se envolveram na criação de cada linha de brinquedo é de se tirar o chapéu pela relevância histórica.

Esse aspecto, aliás, fica muito presente logo no primeiro episódio, dedicado às Tartarugas Ninja. No lugar de começar com os brinquedos, o episódio foca na amizade de Kevin Eastman e Peter Laird e como eles, sozinhos, auto-publicaram a primeira edição dos répteis mutantes adolescentes que lutam artes marciais e como o sucesso começou. O foco é quase que exclusivamente na amizade entre os dois, em entrevistas separadas dado o relacionamento estremecido atual entre eles, com uma abordagem que efetivamente coloca os brinquedos em uma segunda fase, com a entrada logo cedo do visionário Mark Freedman que levou as tartarugas para além das páginas em preto e branco das primeiras HQs e, claro, para o mais absoluto estrelato, não se contentando com as figuras de ação e logo partindo para o cinema, por mais louco que isso parecesse à época. Com isso, o episódio não só é informativo, como engraçado e, sobretudo, realmente bonito, como uma fábula de amigos que, com o tempo, se separaram e com direito até a um final surpresa.

Mas é o segundo episódio que ganha o troféu de ponto alto da temporada. Os coloridos Power Rangers ganham um enfoque histórico que retorna ao Japão como foi o episódio dos Transformers na 2ª temporada e que se conecta com Stan Lee – em uma abordagem que indica que foi ele o catalisador de tudo – e com Margaret Loesch no início e, depois, claro, com o hoje gigante Haim Saban. Há uma riqueza quase infinita de informações e dados que são brilhantemente conectados com uma narrativa incrivelmente circular que deixa tudo muito claro, mas sem passar a impressão de didatismo ou de derramamento de textos expositivos que poderiam atrapalhar a fluidez. Esse episódio, sozinho, mereceria ganhar uma série documental spin-off que expandisse seus conceitos e trabalhasse tudo com mais vagar, pois há muito material para ser discutido e que se relaciona com estratégias de marketing, brigas corporativas, fusões, aquisições e o brilhante aproveitamento de uma propriedade híbrida japonesa e americana que até hoje tem enorme sucesso e uma infinidade de versões.

No terceiro episódio, os pôneis coloridos são o destaque e, ainda que a origem dos bichinhos não seja das mais excitantes, há uma inegavelmente interessante disputa de bastidores sobre sua autoria, além de uma interessante análise sobre o mercado de brinquedos para crianças e o que elas desejam. Isso sem contar com a forma como Lauren Faust é introduzida (não vou dizer quem ela é para fins de surpresa para quem possivelmente não a conheça) e a revitalização de uma propriedade que mostrou que pequenos cavalos (não são cavalos!) podem ser tão ou mais bem-sucedidos que bonecas tradicionais e que, por mais incrível que possa parecer, conta com seguidores adultos e masculinos que se auto-denominam Bronies.

Finalmente, os bonecos de Luta Livre, um conceito muito americano (e mexicano), ganham foco no último episódio que, provavelmente, terá a menor conexão com o público brasileiro, ainda que o interessante mesmo da narrativa seja a história das ligas esportivas (isso é um esporte?) nos EUA e como um cenário fragmentado foi, aos poucos, sendo unificado em uma espécie de monopólio desse tipo de entretenimento nas mãos de um magnata apenas. Aqui, o vai-e-vem narrativo é frenético e muito variado, com diversos fabricantes competindo por fatias do mercado, com estratégias bem diferentes sobre os brinquedos que vão desde bonecos que não se mexem até sofisticadas action figures iguais aos lutadores originais e a apresentação da surreal figura do Jewish Lightning que não é um lutador, mas sim um dos pioneiros licenciados dessa propriedade que assumiu uma persona luchadora só de onda.

Mais uma vez, Brian Volk-Weiss e equipe acertam em cheio com Brinquedos Que Marcam Época e entregam outra temporada perfeita, mostrando de uma vez por todas que não é necessário sequer conhecer os brinquedos que são abordados para apreciar a qualidade do que eles colocam em cada episódio. Já quero mais!

Brinquedos Que Marcam Época – 3ª Temporada (The Toys That Made Us, EUA – 15 de novembro de 2019)
Desenvolvimento: Brian Volk-Weiss
Direção: Brian Volk-Weiss
Roteiro: Nicholas Ferrell, Benjamin J. Frost
Elenco: Donald Ian Black (narrador)
Com:  Kevin Eastman, Peter Laird, Mark Freedman, Kevin Smith, Rob Paulsen, Vanilla Ice, Stan Lee, Margaret Loesch, Haim Saban, David Yost, Walter Emanuel Jones, Lauren Faust, Tara Strong, Justin Roberts, Cody Rhodes, Taboo, Sean Waltman, Danielle Moinet
Duração: 46 min. por episódio (4 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.